Ponte Trump vai revolucionar Cáucaso: Projeto do presidente dos EUA quer mudar a zona de conflito entre Rússia, Irão e Turquia

Esta iniciativa diplomática, ainda em negociação, promete transformar as dinâmicas geopolíticas e económicas de uma região marcada por décadas de conflito.

Pedro Gonçalves
Agosto 8, 2025
12:29

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prepara-se para liderar um acordo de paz histórico entre a Arménia e o Azerbaijão, dois antigos rivais do Cáucaso do Sul, com um foco central na criação de uma ligação conhecida como “Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacional” (TRIPP), ou simplesmente “Ponte Trump”. Esta iniciativa diplomática, ainda em negociação, promete transformar as dinâmicas geopolíticas e económicas de uma região marcada por décadas de conflito.

O cerne do projeto é a criação de uma rota que ligará o território principal do Azerbaijão à sua província exclave de Nakhchivan, passando pelo território arménio através do corredor conhecido no Azerbaijão como “Zangezur” e na Arménia como “Syunik road”. Esta passagem, altamente controversa, pode estabelecer uma nova ligação estratégica que poderá alterar o equilíbrio regional.

Este avanço ocorre num contexto de rápidas alterações políticas no Cáucaso do Sul. Em 2023, o Azerbaijão lançou uma ofensiva fulminante que pôs fim a três décadas de controlo separatista apoiado pela Arménia na região de Nagorno-Karabakh. A derrota, que sucedeu a perdas significativas da Arménia no conflito de 2020, está a forçar o país a reconsiderar as suas alianças tradicionais, incluindo a dependência da Rússia e a relação conflituosa com a Turquia.

O analista Olesya Vartanyan, especialista em conflitos no Cáucaso do Sul, afirma à Newsweek que, independentemente da assinatura final do acordo, “este passo aumenta as hipóteses de estabilidade e de evitar guerra na região por um período mais prolongado”. Para a região, trata-se de “uma oportunidade realmente importante”.

Uma vitória para Trump?
Donald Trump tem procurado reforçar o seu legado internacional através de iniciativas de paz que lhe confeririam reconhecimento global. Desde acordos entre Sérvia e Kosovo a negociações no Médio Oriente, o seu foco tem sido alcançar progressos concretos. Contudo, os conflitos mais graves atuais, como o da Rússia-Ucrânia e o entre Israel e o Hamas, resistem a soluções rápidas.

O investigador Ali Mammodov, da George Mason University, destacou que o envolvimento dos EUA no “corredor de Zangezur” encaixa-se na estratégia de diplomacia baseada em interesses e transações que Trump tem privilegiado. “Para Trump, apoiar um projeto destes permite apresentar um sucesso diplomático tangível, com um impacto concreto, semelhante aos Acordos de Abraham”, explicou Mammodov à Newsweek.

Além disso, salientou os benefícios para ambos os países: “O acordo contrabalança alternativas apoiadas pela Rússia ou pelo Irão, diversificando parcerias, e pode integrar o Cáucaso do Sul em rotas comerciais globais, reduzindo a desconfiança mútua”.

Os desafios estão nos detalhes
Apesar do entusiasmo, especialistas alertam para as complexidades do acordo. Joshua Kucera, analista sénior do International Crisis Group, considera que “a parte mais inovadora é o acordo de transporte TRIPP, mas faltam muitos detalhes fundamentais”.

“O Azerbaijão pretende um corredor livre de interferências arménias entre o seu território principal e Nakhchivan. Por outro lado, a Arménia quer que a passagem respeite a sua soberania territorial e funcione sob o princípio da reciprocidade”, explicou Kucera.

Tigran Grigoryan, diretor do Centro Regional para a Democracia e Segurança na Arménia, reforçou que o encontro promovido por Trump entre o primeiro-ministro arménio Nikol Pashinyan e o presidente azeri Ilham Aliyev foi visto como “uma vitória diplomática rápida”, mas sublinhou a importância das cláusulas do acordo, dado que “o Azerbaijão exige passagem irrestrita, enquanto a Arménia defende controlo e reciprocidade”.

Repercussões para os vizinhos estratégicos
O impacto do acordo ultrapassará Arménia e Azerbaijão, envolvendo três potências regionais com interesses estratégicos no Cáucaso do Sul: Rússia, Irão e Turquia.

Ali Mammodov destacou que “cada uma destas potências considera a região como parte do seu perímetro estratégico, pelo que qualquer intervenção norte-americana, especialmente num projeto liderado por Trump, será recebida com desconfiança”.

Historicamente, a região esteve sob domínio persa, otomano e russo, tendo alcançado independência em 1991 após o colapso soviético. Desde então, o conflito por Nagorno-Karabakh tem sido uma fonte constante de tensão, acompanhada por acusações mútuas de limpeza étnica e o pedido arménio para o reconhecimento do genocídio pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial.

Azerbaijão tem vindo a estreitar laços com a Turquia, cujo apoio militar, incluindo o uso de drones, foi decisivo nos conflitos de 2020 e 2023. A Arménia, por sua vez, suspendeu a sua adesão à Organização do Tratado de Segurança Coletiva liderada pela Rússia.

Enquanto Moscovo e Teerão apoiam o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul, que liga a Índia à Rússia por via ferroviária e procura evitar sanções internacionais, a “ponte Trump” pode interferir nesta rota, dado que passa perto da fronteira iraniana com a Arménia.

Joshua Kucera nota que “Irão e Rússia receiam qualquer presença americana, sobretudo num corredor que toca diretamente a fronteira iraniana”, enquanto “a Turquia procura melhorar as ligações a leste, através da Arménia e Azerbaijão”.

Benefícios e riscos para as potências regionais
Para Tigran Grigoryan, “a Turquia é a única das três potências regionais que deverá acolher a iniciativa dos EUA”, tendo já iniciado obras para ligar a cidade de Kars à província azeri de Nakhchivan.

Por outro lado, o Irão opõe-se a qualquer ameaça à sua ligação com a Arménia, pois “qualquer enfraquecimento da soberania arménia na região é um risco direto para a fronteira norte iraniana e para o corredor Norte-Sul que liga o Irão à Europa”.

As relações em evolução entre Azerbaijão e Israel preocupam ainda mais o Irão, que tenta melhorar os seus contactos com Baku.

Quanto à Rússia, Grigoryan considera que o projeto representa um golpe à sua influência numa região onde sempre foi dominante. “A Rússia é claramente o grande derrotado, pois esperava manter o controlo do corredor”, assinala Vartanyan, que acrescenta: “O avanço americano facilita a estabilidade entre Arménia e Azerbaijão e consolida a perda de influência russa, processo acelerado após a queda de Nagorno-Karabakh e a invasão russa da Ucrânia.”

“É um preço que a Rússia terá de pagar”, conclui a especialista.

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