Polónia já tem mais ouro do que o Banco Central Europeu

A Polónia passou a deter mais ouro do que o Banco Central Europeu (BCE) e não dá sinais de abrandar essa estratégia.

Pedro Gonçalves
Janeiro 20, 2026
15:08

A Polónia passou a deter mais ouro do que o Banco Central Europeu (BCE) e não dá sinais de abrandar essa estratégia. O Banco Nacional da Polónia (NBP) elevou as suas reservas de ouro para cerca de 550 toneladas, avaliadas em mais de 63 mil milhões de euros, consolidando uma das mais rápidas transformações na estrutura de reservas entre os bancos centrais a nível mundial.

O presidente do NBP, Adam Glapiński, tem sublinhado ao longo dos últimos anos o papel central do ouro na política de reservas do país, defendendo que se trata de um ativo livre de risco de crédito, independente das decisões de política monetária de outros países e particularmente resistente a choques financeiros e geopolíticos. Segundo o responsável, níveis elevados de reservas de ouro contribuem diretamente para a estabilidade da economia polaca.

Meta definida para 700 toneladas de ouro
As ambições do banco central vão mais longe. O objetivo assumido é atingir 700 toneladas de ouro, com um valor total das reservas em metal precioso a rondar 400 mil milhões de zlotys, o equivalente a cerca de 94 mil milhões de euros. No início de janeiro, Glapiński anunciou que iria solicitar ao conselho de administração do NBP a adoção de uma resolução formal para continuar a aumentar estrategicamente a proporção de ouro nas reservas nacionais.

Em 2024, o ouro representava 16,86% das reservas cambiais da Polónia. No final de dezembro de 2025, essa percentagem subiu para 28,22%, uma das variações mais acentuadas registadas entre bancos centrais a nível global. As maiores aquisições ocorreram nos últimos meses de 2025, num contexto marcado por forte volatilidade dos mercados e tensões geopolíticas crescentes.

A estratégia polaca insere-se numa tendência mais ampla. De acordo com análises do World Gold Council, 2025 confirmou a continuação do movimento global de acumulação de ouro por parte dos bancos centrais. Com poucas exceções, a maioria dos países aumentou as suas reservas, encarando o ouro como um instrumento estratégico de proteção contra crises cambiais e financeiras.

Os dados indicam que 95% dos bancos centrais inquiridos esperam que as reservas globais de ouro continuem a crescer nos doze meses seguintes. Esta procura é explicada por vários fatores estruturais, como a diversificação de ativos e a redução da dependência de moedas tradicionais.

Razões estratégicas por detrás do investimento em ouro
Segundo Marta Bassani-Prusik, diretora de produtos de investimento e valores cambiais da Casa da Moeda da Polónia, um dos principais motores desta estratégia é precisamente a natureza singular do ouro. “Um dos principais motivos para os bancos centrais investirem em ouro é a independência do seu preço face à política monetária e ao risco de crédito. Igualmente importante é a diversificação de ativos e a redução do peso do dólar e de outras moedas nas reservas”, explicou.

Especialistas referem ainda que nem todos os bancos centrais divulgam a totalidade das suas compras de ouro, apontando frequentemente China e Rússia como exemplos. Alguns observadores de mercado interpretam estas aquisições como parte de uma preparação para modelos monetários alternativos, nos quais o ouro poderá assumir um papel mais relevante do que no sistema financeiro atual.

Reservas polacas ultrapassam as do Banco Central Europeu
O facto de a Polónia deter agora mais ouro do que o BCE tem um valor que vai além do simbolismo. Embora o BCE seja responsável pela política monetária da zona euro, as suas próprias reservas de ouro são relativamente limitadas, recaindo sobretudo sobre os bancos centrais nacionais a posse direta de metal precioso.

As reservas de ouro do BCE ascendem a cerca de 506,5 toneladas, enquanto o NBP já ultrapassou as 550 toneladas, reforçando a posição da Polónia na arquitetura financeira europeia. Ainda assim, esta estratégia não é consensual. Críticos apontam que os recursos utilizados na compra de ouro poderiam ser investidos em obrigações, que geram rendimento, ao contrário do ouro, que não produz retorno corrente.

As compras do NBP coincidiram com máximos históricos nos preços do ouro. Apesar de se prever um eventual abrandamento do ritmo de valorização em 2026, as principais instituições financeiras mantêm projeções otimistas. O ING estima um preço médio de cerca de 4.150 dólares por onça, o Deutsche Bank aponta para 4.450 dólares, enquanto a Goldman Sachs revê a fasquia em alta, para 4.900 dólares. Num cenário de forte procura global, o J.P. Morgan admite valores que podem atingir 5.300 dólares por onça.

Bassani-Prusik sublinha que “o aumento da procura por parte dos bancos centrais é uma resposta às tensões económicas e às rápidas mudanças geopolíticas. Embora as compras institucionais não se traduzam diretamente em preços, influenciam de forma indireta as decisões dos investidores individuais”.

Ouro como pilar da segurança financeira de longo prazo
Para o Banco Nacional da Polónia, o ouro é assumidamente um elemento central da estratégia de segurança financeira de longo prazo do país. Especialistas da Casa da Moeda polaca observam que, quanto maior a incerteza nos mercados, maior é o interesse por ativos considerados de porto seguro, tendência que se reflete também num aumento da consciencialização dos investidores particulares sobre o papel do ouro na proteção do capital a longo prazo.

Ainda assim, alguns economistas alertam que uma proporção muito elevada de ouro pode limitar a flexibilidade da gestão de reservas numa economia moderna, defendendo que parte desses recursos poderia ser canalizada para investimentos considerados mais produtivos.

Com 550 toneladas já asseguradas e novas compras anunciadas, a Polónia deixa claro que ainda não atingiu o seu limite. Num contexto de crescentes tensões geopolíticas e transformação da ordem financeira internacional, o ouro volta a afirmar-se como ativo-chave: e Varsóvia quer estar na linha da frente dessa estratégia.

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