Se a covid-19 pode permanecer viva cerca de três horas em micropartículas emitidas por automóveis ou indústria, a poluição pode ter contribuído para a propagação do vírus, particularmente na China e em Itália, alerta o presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, Manuel João Ramos.
“Um chapéu de poluição carregado de micropartículas em suspensão” onde “o vírus se agarra” pode ser responsável pela rápida propagação do novo coronavírus em países como a China, Itália ou mesmo em cidades como Madrid, Barcelona e Nova Iorque, afirma, à Renascença, Manuel João Ramos.
É preciso perceber, explica Manuel João Ramos, que “a poluição, em condições climatéricas específicas, foi fulcral para o espalhar inicial da pandemia, tanto em Wuhan, na China, como no norte de Itália”. O também diretor da Aliança Global de ONGs para a Segurança Rodoviária escuda-se em vários estudos que estão a ser feitos a nível internacional que corroboram a sua tese.
“Nevoeiros pesados fizeram com que o vírus, que não sobrevive na atmosfera normalmente, possa ter sobrevivido no ar graças às micropartículas de diesel e da poluição industrial”, explica o especialista.
Em causa estão, como escreve num artigo de opinião recentemente publicado no jornal Público, “as PM10 e PM2.5, partículas inaláveis com diâmetro inferior a 10 µm, conhecidas como ‘micropartículas’. São, entre os vários poluentes atmosféricos, as que causam maior risco para a saúde porque penetram profundamente os pulmões e atingem os alvéolos pulmonares, causando, não só, perturbações graves no sistema respiratório como nos outros órgãos, dado que se infiltram na circulação sanguínea”.
“A poluição de micropartículas está mais do que provado que provoca doenças respiratórias, diabetes, asmas e doenças cardiovasculares”, alerta o académico, sublinhando que, é por isso, que é preciso fazer a ligação entre a questão da poluição e a pandemia.
Propagação na China e Itália
“Wuhan é um dos centros nevrálgicos da industrial pesada chinesa. Curiosamente, a zona do mercado de Wuhan é a mais poluída”, aponta Manuel João Ramos, que refere que foram as “condições de poluição e climatéricas especiais naquela altura que levaram ao surto explosivo”.
Questionado sobre o caso italiano, este académico explica que se passou o mesmo. “Em Milão e na Lombardia a poluição era tanta em janeiro que o governo italiano declarou um quase estado de emergência para a região. Foi proibida a circulação de automóveis a diesel e foram introduzidas medidas para reduzir a poluição”, explica.
Mas uma greve dos ferroviários impediu que as pessoas pudessem parar os carros, diz Ramos que acrescenta que, “em janeiro e fevereiro, o ambiente era altamente poluído, na Lombardia, e altamente propiciador do espalhamento de uma pandemia”.
O problema da poluição e dos seus efeitos nefastos na saúde não é uma questão de agora, aponta Manuel João Ramos, que dá como exemplo o caso italiano. “Em 2017 morreram 25 mil pessoas com gripe, em Itália, a maior parte delas na zona da Lombardia e Veneto”. A poluição, conclui este académico, vai “enfraquecendo os sistemas imunitários das pessoas”.














