Mais de metade das pessoas recorrem à automedicação e a maioria não diz ao médico

Mais de metade das pessoas recorrem à automedicação, segundo um estudo hoje divulgado, que mostra uma prática mais disseminada do que se pensa e também usada na saúde mental, sendo que a maioria não diz ao médico.

Executive Digest com Lusa

Mais de metade das pessoas recorrem à automedicação, segundo um estudo hoje divulgado, que mostra uma prática mais disseminada do que se pensa e também usada na saúde mental, sendo que a maioria não diz ao médico.

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Os investigadores alertam para a necessidade de garantir que a automedicação seja parte da integração de cuidados e defendem que, para isso acontecer, as pessoas devem ter acesso a informação clara e acessível, para saber quando podem tratar um problema por si, e deve haver estruturas de proximidade que consigam avaliar a necessidade e orientar o utente e uma comunicação entre os prestadores.

Tudo para garantir que a decisão inicial da pessoa é conhecida e integrada no seu percurso de cuidados, “evitando tanto duplicações como lacunas”, escrevem.

O relatório hoje divulgado faz parte da Cátedra em Economia da Saúde, enquadrada na Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE.

No documento, a que a Lusa teve acesso, os investigadores Pedro Pita Barros e Carolina Santos reconhecem que o sistema deve ter um apoio estruturado à automedicação, que quando usada da melhor forma pode aliviar os serviços de saúde de casos que não precisam de cuidados médicos específicos.

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Lembram estudos anteriores que mostram que, quando eficaz em casos de doenças ligeiras, a automedicação pode reduzir consultas desnecessárias em serviços de saúde já sobrecarregados e contribuir para um maior controlo dos custos em saúde, mas avisam que, se utilizada de forma inadequada, tem “riscos significativos” como complicações, atrasos no tratamento de doenças graves e interações prejudiciais de medicamentos.

“Compreender as circunstâncias em que a automedicação é percecionada como bem-sucedida, e aquelas em que falha, é por isso essencial para desenvolver estratégias de saúde pública que promovam um autocuidado seguro”, consideram.

O trabalho, que resultou de inquéritos feitos em 2025 a mais de 1.600 pessoas em Portugal – de várias geografias, condição social e económica faixas etárias – mostra que mais de metade dos inquiridos (51,85%) disse já ter recorrido à automedicação em algum momento, indicando ”uma prática muito mais disseminada do que habitualmente se reconhece”.

O fenómeno é mais prevalente em grupos etários mais jovens (entre os 25 e 34 anos), com 66,26% destes a confessarem ter-se automedicado pelo menos uma vez. Por oposição, entre as pessoas com 85 ou mais anos, foram 39,62% os que afirmaram nunca ter recorrido à automedicação.

Níveis mais elevados de rendimento e de escolaridade estão também associados a uma maior frequência de automedicação. Quanto à escolaridade, enquanto 60,77% dos inquiridos com ensino superior disseram ter recorrido à automedicação no passado, essa proporção desce para 47,64% entre os que têm níveis de escolaridade inferiores.

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São mais as mulheres que recorrem à automedicação, uma prática mais usada por quem não tem médico de família (24,55%) do que por quem tem (17,59%).

Este resultado sugere que “a automedicação pode refletir, em parte, dificuldades no acesso a cuidados de saúde profissionais”, dizem os investigadores.

A maioria dos inquiridos (57,3%) referiu que, na última vez que se automedicou, o fez por já ter enfrentado um problema semelhante no passado e 30,4% apontou a existência, em casa, de medicamentos disponíveis para tratar a situação em causa.

Quando questionados sobre como obtiveram informação acerca do medicamento, mais de metade (54,24%) disse ter-se baseado em experiências anteriores com o mesmo fármaco, 37,96% por aconselhamento na farmácia e 7,56% por recomendações de familiares ou amigos.

Nos casos em que as pessoas optam por se automedicar, as farmácias continuam a ser o local privilegiado para obter medicamentos, um resultado que os investigadores dizem evidenciar uma “fronteira difusa” entre o autocuidado e a “automedicação orientada”.

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Ainda assim, entre os que já se automedicaram, mais de um terço (38,2%) disse ter usado medicamentos que já tinha em casa devido a episódio anterior de doença.

As pessoas recorrem mais frequentemente à automedicação para sintomas de gripe ou constipação (53,05%) ou dores de cabeça (21,12%), mas também o fazem – embora com menos frequência – para casos de dores musculares (10,70%), tosse (7,77%) e problemas digestivos (4,44%).

Entre os outros motivos apontados estão o alívio geral da dor e situações mais graves, incluindo ansiedade, depressão, doença renal, infeções urinárias, artrose e asma.

Os investigadores avisam que a automedicação também se estende a áreas como a saúde mental e as doenças crónicas, em que o autodiagnóstico incorreto, o adiamento do recurso a cuidados profissionais, as interações medicamentosas ou o uso inadequado podem representar riscos acrescidos.

 

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