Os desafios dos «banqueiros» digitais

Ezequiel Szafir, CEO do Openbank, Ricardo Madeira, director digital do Moey!, Sarunas Legeckas, General manager da N26, ou Ricardo Macieira, Country manager da Revolut Portugal são líderes de bancos ou de plataformas financeiras a operar em Portugal.

António Sarmento

Ezequiel Szafir, CEO do Openbank, Ricardo Madeira, director digital do Moey!, Sarunas Legeckas, General manager da N26, ou Ricardo Macieira, Country manager da Revolut Portugal são líderes de bancos ou de plataformas financeiras a operar em Portugal.

Conheça os principais desafios destes novos «banqueiros».



Na sede do Openbank, no centro de Madrid, o banco 100% digital que conta com o apoio do Banco Santander, o ambiente é bastante informal. Trabalha-se em open space, apesar de existirem pequenas salas para reuniões, os funcionários não usam fato e gravata e o CEO, Ezequiel Safir, monitoriza toda a actividade ao segundo. Há ferramentas para saber quantas contas foram abertas, em que país, ou problemas técnicos que possam surgir na plataforma.

Aqui, a análise estatística e o desenvolvimento de novos produtos ocupa grande parte do dia-a-dia da estrutura executiva. Para relaxar há um local específico com sofás, máquinas de café e snacks. «O maior desafio como CEO é saber combinar a área mais tradicional com a área mais inovadora. Temos pessoas do grupo Santander em sectores muito importantes e, por isso, é fundamental entenderem que nesta indústria o digital precisa da banca tradicional e vice-versa», explica Ezequiel Safir à Executive Digest.

O Openbank, disponível desde Dezembro de 2019 para clientes portugueses e apresentado ao mercado nacional em Fevereiro deste ano, oferece aos seus clientes uma gama completa de produtos bancários, que incluem desde a concessão de créditos de forma digital a uma plataforma para investimentos totalmente automatizada e digital com Robo-Advisor. Neste contexto, o Robot-Advisor gere activamente cada estratégia, ajustando-a aos movimentos do mercado, sem ser necessária a intervenção do cliente.

As estratégias que o Openbank oferece aos seus clientes são compostas por carteiras diversificadas com activos monetários, taxa fixa e variável, bem como activos reais fora do mercado financeiro. Com mais de 1,2 milhões de clientes e 10 biliões de dólares em recursos para clientes é um dos maiores bancos digitais da Europa. Ezequiel, no grupo Santander desde 2015, foi uma aposta da família Botín. Aliás, numa parede do banco digital está um quadro de 1907 que mostra o grupo de empreendedores que fez deste banco o maior da zona euro e um dos maiores do mundo: Ramon de la Riva, Álvaro Flórez, Emilio Botín López e Leocadio González y José Garcia.

«Todas as empresas que actuam no campo digital enfrentam desafios semelhantes, especialmente no recrutamento e retenção de talento com experiência em tecnologia de ponta. No caso específico de Portugal, tendo um mercado interno menor, as startups portuguesas tendem a ter, por definição, uma vocação internacional maior, o que é claramente uma vantagem competitiva», refere o CEO. Ezequiel Szafir acredita que para os bancos, «o private wealth só é rentável a partir de um milhão de euros. O digital é a solução para isso». «A grande vantagem que trazemos aos clientes portugueses é o wealth management digital», acrescenta.

O CEO lembrou que 44% do dinheiro dos portugueses está em cash e 61% em investimentos de baixo de retorno, como depósitos. Com 1,3 mil milhões de euros em activos sob gestão e uma plataforma aberta que permite investir em fundos de outros bancos, o CEO considera que há interesse dos clientes em Portugal em investir através de plataformas digitais. «Portugal é um país importante na nossa estratégia de expansão europeia. Seleccionamos Portugal junto com a Alemanha e os Países Baixos pelo seu alto nível de digitalização. Além disso, a médio prazo vemos Portugal também como um país com muito talento digital. O mercado português é fundamental para nós como grupo.

O Santander está presente em Portugal desde 1988 e é o primeiro banco privado do país em volume de activos e crédito. Acreditamos que uma proposta de banco automatizado e investimento 100% digital como a do Openbank tem muito potencial no mercado.»

INOVADOR

Ricardo Madeira é o director de Inovação Digital do Grupo Crédito Agrícola e o responsável do moey!, solução inteiramente digital desenvolvida de forma inovadora cujo objectivo é garantir a evolução tecnológica do Grupo, contribuindo para a melhoria de canais e produtos existentes na sua oferta mais tradicional. «Há vários desafios para um líder digital: trazer as pessoas certas para este tipo de projecto, ser inovador e disruptivo e operar num segmento onde os nossos concorrentes são operadores internacionais e não a banca tradicional», explica.

O moey! foi criado em parceria com líderes mundiais nas áreas de tecnologia e pagamentos, tais como a Mastercard e a Microsoft, mas também com algumas das fintechs mais inovadoras e disruptivas do mundo, como a Meniga ou a MeaWallet. Para o responsável, os principais desafios que a banca enfrenta são a entrada de novos concorrentes com grande dinamismo, estruturas mais ágeis e com maior flexibilidade na adaptação a novas tendências num mercado em constante mudança e um enorme desafio que implica grandes mudanças no modo como a banca tradicional define a sua estratégia comercial e gere a sua operação.

«Adicionalmente, o facto de os clientes procurarem uma experiência mais rápida, e em tempo real, implica a disponibilização de alternativas aos canais mais tradicionais, nomeadamente através do desenvolvimento de aplicações para telemóvel com uma estrutura apelativa e que permitam uma melhor experiência ao utilizador. Por fim, a desintermediação do papel da banca, com o aparecimento de novos operadores, implica a obsolescência de um conjunto de serviços e/ou produtos, sendo necessário que esta se reinvente e encontre novas fontes de receita.» Sobre as caracerísticas de um banqueiro no futuro, Ricardo Madeira não tem dúvidas. «São pessoas mais transnacionais, com perfis completamente distintos de banca.

No futuro vamos ver a pessoas que vieram das áreas de retalho, consumo, e-commerce a ter funções de liderança». AGILIDADE A Revolut é uma plataforma de serviços financeiros, que funciona como uma EMI – Eletronic Money Institution. Implica o download de uma aplicação gratuita para iOs e Android, que dá acesso a um IBAN europeu, permitindo deter uma carteira com 29 moedas e até três cartões físicos por utilizador, assim como cartões virtuais descartáveis. Alternativa digital à banca tradicional, nasceu da ideia de dois investidores Nik Storonsky e Vlad Yatsenko – que não se reviam na proposta de valor apresentada pelos bancos – consideravam excessivos os valores cobrados pelas instituições financeiras, como taxas sobre pagamentos ou levantamentos fora dos países de origem ou em comissões ocultas.

A Revolut está disponível para utilizadores portugueses desde 2015, mas só em 2019 montou uma equipa de gestão local, que trabalha a partir de Lisboa, assim como um centro de suporte global, a actuar a partir de Matosinhos. Em 2019, cresceu de 98 mil para 400 mil utilizadores. «Os principais desafios passam por reagir quando as coisas acontecem, porque quando estás a criar um produto digital, em primeiro lugar ele tem de ser ágil e adaptável ao que o cliente está a pedir. Na realidade quem manda é o cliente final e é por isso que temos este distanciamento face à banca tradicional e aos seus clientes. Aqui, a velocidade é tão grande que é preciso uma equipa super ágil naquilo que faz», explica Ricardo Macieira, country manager da Revolut Portugal.

«Com a nova directiva europeia – PSD2 –, é possível, numa só app, termos um integrador de património – ou de contas à ordem, para já. E é assim que as coisas deverão evoluir: serviços práticos e com propósito, que sirvam os interesses dos utilizadores e lhes facilitem a vida», conclui. Já a N26 foi fundada em 2013 por Valentin Stalf e Maximilian Tayenthal, durante uma época de digitalização e personalização, enquanto as finanças se mantinham maioritariamente institucionais e disfuncionais. Ambos sentiam-se frustrados pela falta de transparência, inovação digital, serviço personalizado e ofertas nos bancos já existentes, e então decidiram criar o seu próprio. Foi pensada para ser um banco digital de retalho, focado no cliente, que permite aos utilizadores aproveitarem uma aplicação simples, elegante e fácil de utilizar, onde e quando quiserem.

A sua inspiração não veio de outros bancos, mas de marcas como o Spotify e a Netflix, que oferecem uma óptima experiência de utilizador. Tinham a visão de criar um banco global que o mundo adorasse utilizar, e que os clientes sentissem que faziam parte da sua construção. Sobre os maiores desafios na banca digital, Sarunas Legeckas, general manager da N26 explica: «No sector bancário, nos últimos anos a regulação não avançou à mesma velocidade que a inovação. Sendo um negócio global, defendemos um alinhamento cada vez maior da regulação global. Operamos com um passaporte europeu (uma licença bancária concedida pelo regulador alemão Bafin e o Banco Central Europeu), mas sentimos falta de um alinhamento bancário pan-europeu.

O mesmo se aplica às questões de conformidade, como a discriminação do IBAN. Ainda que haja um padrão europeu para o IBAN, temos clientes a sofrer discriminação em alguns países.» Ser um banco da era digital é celebrar o empreendedorismo e a diversidade no nosso papel enquanto empregadores, e também nas habilitações dos nossos colaboradores – para garantir que os clientes recebem as melhores ideias “fora da caixa” na sua experiência bancária. «A nossa ambição é fazer o mesmo, para as finanças, que o Spotify fez para a música ou a Uber para a mobilidade.

A nossa ambição é mudar a percepção dos bancos e a sua utilização, na vida e na cultura em geral. Queremos trazer o sector bancário para a actualidade, torná-lo mais divertido e pessoal, mais simples, transparente e intuitivo, para ajudar as pessoas a ter não apenas uma melhor experiência financeira, mas uma vida melhor também. A nossa ambição a longo prazo é levar esta experiência a 100 milhões de clientes em todo o mundo.

A N26 pode não existir há 150 anos, mas somos um banco com licença bancária plena e uma aplicação segura», destaca.

FIM DO DINHEIRO FÍSICO?

Para Ricardo Macieira, «os portugueses continuam a recorrer muito aos levantamentos em numerário». Segundo dados do INE, em 2018, cada habitante em Portugal levantou mais de 2600 euros, um valor quase 12% superior ao de 2012. «O facto de muitos retalhistas não terem terminais de pagamento automático (TPA), ou balizarem a sua utilização, também dificulta a penetração dos pagamentos cashless.» O responsável acredita que a impressão de dinheiro se «tornará obsoleta em alguns anos».

«Pagamentos contactless , através de wearables como já temos com o Apple Watch ou através do telemóvel, serão a realidade», sublinha. O banco central da Suécia, o Riksbank, é categórico: as transacções em dinheiro representaram apenas 2% do valor total em 2016. Os especialistas acreditam que o número será reduzido para os 0,5% em 2020.

Nas lojas, o dinheiro físico é utilizado em 20% das compras, metade de há cinco anos, e bastante abaixo da média mundial (75%). De facto, os suecos estão à frente na corrida à digitalização de pagamentos. Há mesmo um estudo que prevê que em 2030 o país se torne a primeira sociedade «cashless».

«O uso de dinheiro está a ser reduzido em todo o Mundo desenvolvido. Se olhar para os dados de operações de negociação de dinheiro e cartão de crédito ao longo da última década em qualquer economia desenvolvida, há um aumento progressivo no uso de cartões. Hoje, isso estende-se a telemóveis e dispositivos como smartwatches, que suportam tecnologia sem contacto», conclui Ezequiel Szafir.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.