Num futuro próximo, é possível fazer uma sessão de treino agitada quando se vai comprar uma embalagem de leite.
O ginásio local pode estar inserido no mercado local, apenas a alguns passos da secção de legumes. Aí será possível usar um aparelho de realidade virtual leve e pedalar por um mundo exótico virtual à medida que aparelhos registam todos os movimentos. No final, o telemóvel relembra que está na altura de marcar uma massagem – e saberá exactamente quais os músculos doridos.
Não é assim tão estranho: o actual sector dos ginásios oferece o máximo de conveniência e personalização, em parte graças a tecnologias baseadas na IA. E com os consumidores a terem cada vez mais interesse na saúde e no bem-estar, os ginásios estão a crescer mais depressa e com mais inovações que nunca, registando um aumento de 50% nas receitas na última década, revela o Global Wellness Institute.
O que estimula então o actual mercado dos ginásios? E como é que estes serão diferentes nos próximos anos? Eis algumas das tendências empresariais e culturais que estão a moldar os treinos.
LOCAIS INESPERADOS
Ginásios grandes e pequenos estão a repensar a questão imobiliária, com cada vez mais estúdios a escolherem localizações inesperadas – centros comerciais, aeroportos, até supermercados. E se antigamente eram ignorados pelos proprietários dos centros comerciais, agora são inquilinos muito procurados.
No último ano, o Orangetheory (um franchise de treinos de alta intensidade) juntou-se à retalhista Hy-Vee, do Iowa, enquanto o ShopRite abriu um estúdio de fitness em Nova Jérsia. Algumas lojas Whole Foods oferecem aulas nas suas instalações, enquanto a CVS Health está a testar “hubs de saúde” onde os clientes fazem uma aula de yoga enquanto esperam para aviar as suas receitas. O mais recente conceito de retalho da Lululemon consegue ser um restaurante, fitness center e bar de smoothies, tudo num só.
«Teremos pequenos ginásios muito perto dos locais onde as pessoas têm os seus afazeres», afirma Cedric Bryant, presidente e chief science officer da Agência Americana de Exercício (ACE). «O sector simplesmente acomodou-se a esse estilo de vida ocupado.»
Da mesma forma, os ginásios físicos estão a levar as aulas para o exterior. Vários ginásios pequenos, como o Barre3 ou o The Class, de Taryn Toomey, oferecem retiros e seminários anuais. O ClassPass tem “Getaways”, experiências de bem-estar de um dia, em conjunto com spas e ginásios. Existem inclusive festivais dedicados ao fitness e bem-estar.
SERÁ TUDO UM ENTRETENIMENTO
À medida que os millennials dão muita importância à experiência, os estúdios de fitness misturam cada vez mais fitness com entretenimento. Isso significa que os colaboradores são mais do que instrutores; são animadores que inspiram, entretêm e motivam.
«Os instrutores estão realmente a tentar criar este tipo de experiência de envolvimento, de entretenimento», afirma Cedric Bryant, notando a utilização de técnicas de ciência comportamental para criar uma ligação emocional aos clientes. «Da perspectiva do planeamento, estão a afastar-se das abordagens generalizadas e normais para uma abordagem mais individualizada e personalizada.»
A SoulCycle aperfeiçoou este modelo ao transformar modelos em gurus quase ao nível de culto e ao reformular as aulas em grupo. No ano passado, a marca introduziu música ao vivo de bandas talentosas, assim como DJ.
Entretanto, a marca de programas de fitness Les Mills oferece uma viagem estática e imersiva por mundos intricados e criados digitalmente. Em vez de olharem para um professor ou para um espelho, os grupos olham para um ecrã gigante semelhante ao IMAX onde passam paisagens virtuais de selvas, florestas ou majestosos glaciares. Chamada “A viagem”, está disponível em alguns ginásios norte-americanos, mas rapidamente a ganhar adeptos. Esperam-se mais experiências inovadoras aproveitando áudio (músicos, som surround), ecrãs (cinema imersivo) e programas (conteúdos de realidade virtual como o VirZoom).
MAIS DO QUE APENAS FITNESS
Com a fusão de fitness e bem-estar, os ginásios estão a expandir as suas ofertas de forma a incluírem serviços que, mais uma vez, estão associados aos spas. Ginásios como o Orangetheory juntam-se a especialistas em alongamentos, enquanto outros investem em ferramentas de recuperação, como rolos de espuma, mangas de compressão e aparelhos de terapia de percussão da Theragun.
Os modelos mais luxuosos incluem comodidades como tanques de flutuação e estações intravenosas. O Equinox juntou- -se recentemente à marca de bem-estar com cannabis Papa & Barkley para se tornar no maior clube nacional de fitness a oferecer massagens de recuperação.
«A tendência dos consumidores para combinarem o tempo de exercício activo com o tempo de recuperação activa irá aumentar», prevê Meredith Poppler, VP de Comunicação da Associação Internacional de Saúde e Desporto (IHRSA, na sigla original). «Embora os exercícios mais curtos e eficientes semelhantes aos do HIIT continuem a ser populares no futuro tendo em conta o pouco tempo que os consumidores têm, os consumidores de fitness têm mais consciência e aceitam a importância da recuperação e do bem-estar.»
Várias marcas também incorporaram um modelo mais holístico que inclui alimentação e estilo de vida. O F45 Challenge, por exemplo, é um evento que dura uma temporada e oferece aos membros do estúdio F45 acesso a nutricionistas e uma aplicação que inclui planos alimentares diários e monitorização de calorias, juntamente com entrega de produtos alimentares e refeições. Ao oferecer um programa completo de alimentação e fitness, o F45 consegue inspirar melhor os seus membros a comprometerem-se com um estilo de vida saudável, já para não falar de se comprometerem com o estúdio.
O NOVO SOCIAL
O ginásio já não é apenas um local para fazer exercício; é o novo ponto de encontro.
A palavra “comunidade” tem estado ultimamente na ribalta, com todos os ginásios a tentarem criar uma rede de clientes empenhados. Grandes nomes como o Planet Fitness tentam imitar a atmosfera de clubes mais pequenos ao criarem um “ginásio dentro de um ginásio” – um espaço mais compacto e íntimo dentro das suas quatro paredes.
A personalização e o tribalismo estimulam a procura de clubes pequenos, principalmente entre millennials, explica Meredith Poppler. «A maioria das pessoas quer estar com a sua “tribo”, com pessoas semelhantes que partilham as mesmas paixões. Os clubes pequenos são o ideal, quer sejam ciclistas e queiram estar com outros num espaço de indoor cycling, ou pratiquem yoga ou crossfit.»
O F45, o maior franchise de pequenos ginásios, define metas competitivas entre diferentes ginásios e tem brunches ao domingo. Depois existem grupos de fitness sociais como o Electric Flight Crew, que oferecem uma “happy hour” alcoólica após uma hora de cardio ou de corrida. Limitam os grupos a 50 pessoas para que os membros, a maioria jovens profissionais, consigam desenvolver relações profundas. Outras marcas juntam pessoas ao adoptarem estratégias de sectores diferentes. A Life Time lançou um conceito de coworking que combina escritórios com os seus ginásios acessíveis. Agora disponível em poucas cidades seleccionadas, o conceito híbrido inclui sofás em pele e tapetes elegantes, juntamente com equipamentos de fitness e eventos mensais.
Indo ainda mais longe, alguns ginásios reformularam-se a si próprios como clubes sociais. Clubes recentemente abertos como o Remedy Place, em Los Angeles, ou o Ghost, em Nova Iorque, oferecem uma experiência de topo e só para membros. Nestes conceitos de luxo, os clientes bebem cocktails adaptogénicos em “bares” de elixires feitos de ervas e são encorajados a confraternizar em salões requintados muito depois dos seus exercícios.
Cedric Bryant nota que os ginásios continuarão a esbater a fronteira entre o que normalmente acontece dentro e fora do ginásio: «Os ginásios estão a começar a reconhecer que se conseguirem tornar-se um estilo de vida para as pessoas, a sua retenção a longo prazo irá melhorar.»
EXCESSO DE TECNOLOGIA
Em menos de dois anos, aquilo que antigamente era considerado de vanguarda tornou-se normal: os ginásios adoptaram rapidamente os controladores de batimentos cardíacos e os aparelhos wearable (que se usam como vestuário ou acessório) para que os clientes sejam responsáveis, juntamente com sessões de gamificação.
O Orangetheory ajudou a tornar vulgar o uso de tecnologia nas suas aulas ao transmitir as estatísticas dos seus membros – distância, calorias queimadas – em tempo real. Agora vários ginásios usam monitores de actividade para revelar mais informações obtidas com dados não só durante as aulas, mas ao longo de todo o tempo que se passa no ginásio.
Passou para lá da habitual tecnologia de pulso e evoluiu para equipamento integrado. O CKO Kickboxing, por exemplo, usa aparelhos que controlam os socos – avaliando velocidade, intensidade e contagem – nas aulas de kickboxing.
Até o vestuário está a mudar: material inteligente (camisas, calçado, meias) equipado com tecnologia de sensores que melhora os movimentos. A Asensei é uma das empresas que desenvolve vestuário com sensores que detectam postura, técnica e forma e que depois usa os dados para treinos em tempo real. A NOVA Fitness Innovation, de Nova Iorque, aposta tudo ao centrar a sessão de exercícios em tecnologia inovadora. Depende de fatos completos que usam o estímulo eléctrico dos músculos para criar contracções involuntárias nos músculos.
Além disso, mais marcas estão a pensar em formas de envolver os clientes no exterior ao lançarem as suas próprias aplicações de streaming de fitness, um mercado que deve atingir os 9,8 mil milhões de euros em 2026. Os grandes ginásios como o Crunch e o Anytime Fitness, além de pequenos ginásios de culto como o Lekfit e o Tracy Anderson oferecem plataformas virtuais de treino quando solicitadas.
UMA ABORDAGEM HOMOGÉNEA
O MindBody e o ClassPass tornaram a marcação de aulas tão simples como ir ao Instagram. Mas no próximo ano, estas plataformas farão mais do que simplesmente marcar treinos; anteciparão a próxima necessidade de bem-estar ou até mostrarão às pessoas a próxima novidade do fitness.
A próxima iteração do MindBody usará uma abordagem mais holística ao sugerir tratamentos de spa – crioterapia, saunas com infravermelhos, etc. – que fazem conjunto com o exercício acabado de concluir. Irá aproveitar a IA para analisar o histórico de um membro e para antecipar interesses futuros ou relevantes, ou talvez até recomendar novas experiências por perto. A aplicação já está ligada a mais de 60 mil serviços que incluem fitness, bem-estar, beleza e modalidades saudáveis alternativas, como acupunctura ou meditação.
«Os consumidores querem hoje muita variedade», afirma Amaya Weddle, directora de Insight do MindBody, notando uma mudança geral no mercado onde o bem-estar se encontra agora lado a lado com o fitness. «Os ginásios procuram sempre novas fontes de receitas e reconhecem que oferecer workshops de recuperação ou juntar-se a outros ginásios locais da área pode envolver mais os seus clientes.»
Será também muito mais fácil as pessoas envolverem-se com o seu ginásio. O MindBody irá em breve simplificar toda a experiência de ir ao ginásio ao usar tecnologia que assegura que os membros já não têm de esperar numa fila para entrarem numa aula ou para comprarem uma garrafa de água.
«Isto será discreto, para que as pessoas façam transacções realmente homogéneas », explica Amaya Weddle. «Dessa forma, serão capazes de passar tempo a formar relações e a prestar serviços aos clientes em vez de estarem presos atrás de uma secretária.»





