“O conceito que melhor define os mercados financeiros em 2026 é a ‘polarização multidimensional’”, diz o cofundador da Air Trading

Os mercados financeiros globais deverão entrar em 2026 num contexto de forte fragmentação e divergência entre setores, geografias e políticas monetárias, num cenário que Bruno Janeiro, analista e cofundador do Grupo AIR Trading, descreve como de “polarização multidimensional”.

André Manuel Mendes
Janeiro 13, 2026
9:50

Os mercados financeiros globais deverão entrar em 2026 num contexto de forte fragmentação e divergência entre setores, geografias e políticas monetárias, num cenário que Bruno Janeiro, analista e cofundador do Grupo AIR Trading, descreve como de “polarização multidimensional”.

Apesar dos riscos elevados, o especialista antecipa um ano com oportunidades relevantes para investidores seletivos e bem preparados.

“O ano de 2026 promete ser um ponto de inflexão nos mercados financeiros globais. Longe da recuperação sincronizada observada noutros ciclos económicos, o cenário atual desenha-se como um campo fragmentado, com clivagens evidentes entre setores, geografias, políticas monetárias e classes sociais”. Por isso, para o analista, o conceito que melhor define os mercados financeiros em 2026 é a “polarização multidimensional”.

De acordo com a análise, a economia global deverá manter-se resiliente em 2026, sustentada por estímulos fiscais antecipados e pela continuidade do ciclo de investimento em inteligência artificial (IA). Ainda assim, persistem fragilidades, nomeadamente a desaceleração do consumo nas economias desenvolvidas, maior cautela na contratação por parte das empresas e uma inflação que continua acima das metas em várias regiões.

Bruno Janeiro estima uma probabilidade de cerca de 35% de ocorrência de uma recessão global em 2026, embora sublinhe que a solidez dos balanços empresariais, as condições financeiras ainda favoráveis e os estímulos orçamentais poderão mitigar esse risco. O crescimento do PIB global deverá ganhar maior tração na primeira metade do ano, impulsionado pela recuperação do investimento e da confiança empresarial.

No mercado acionista, a clivagem entre setores deverá acentuar-se. As empresas ligadas à inteligência artificial continuam a atrair uma fatia desproporcional dos fluxos de capital, beneficiando de ganhos de produtividade e de uma nova vaga de investimento, enquanto os setores mais tradicionais permanecem mais expostos aos ciclos económicos clássicos. Esta dinâmica tem contribuído para uma concentração de mercado considerada extrema.

Ainda assim, as perspetivas para as bolsas são globalmente positivas. O analista antecipa ganhos de dois dígitos nos principais índices de mercados desenvolvidos e emergentes, sustentados pelo crescimento dos lucros, pela descida das taxas de juro e pela redução de riscos regulatórios. Tecnologia, saúde, serviços financeiros e defesa deverão liderar os ganhos, embora a seletividade seja crucial num ambiente marcado por fortes assimetrias.

A política monetária será outro fator de complexidade para os investidores. Enquanto a Reserva Federal dos Estados Unidos deverá avançar com cortes adicionais de 50 pontos base nas taxas de juro, o Banco do Japão poderá seguir o caminho inverso, aumentando as taxas numa magnitude semelhante. Na Europa, os bancos centrais deverão manter uma postura mais estável ou concluir os ciclos de afrouxamento no primeiro semestre do ano.

Apesar da tendência de desaceleração, a inflação mantém-se “pegajosa”, com pressões persistentes sobre os preços dos bens e os custos laborais, em especial nos EUA. Este contexto poderá levar a uma subida gradual das yields das obrigações ao longo de 2026.

No mercado cambial, o cenário aponta para um dólar ligeiramente mais fraco, ainda que a desvalorização seja menos acentuada do que em 2025. O euro poderá beneficiar de uma expansão fiscal na Alemanha e de uma maior estabilização económica na zona euro, enquanto a libra esterlina poderá recuperar no início do ano, embora condicionada por incertezas políticas e orçamentais na segunda metade de 2026.

Nos mercados de crédito, o foco deverá deslocar-se do enquadramento macroeconómico para a análise específica dos emissores. O aumento da emissão de dívida associada a investimentos em IA, fusões e aquisições e programas de recompra de ações poderá pressionar os spreads, sobretudo no segmento investment-grade nos EUA. Ainda assim, os retornos totais esperados permanecem positivos, com cerca de 3% para crédito de alta qualidade e 5,5% para o segmento high yield europeu.

Já os mercados emergentes deverão manter uma trajetória de crescimento estável, beneficiando de menor volatilidade macroeconómica e de políticas monetárias mais flexíveis. Excluindo a China, o crescimento médio deverá situar-se em torno dos 3,3%, com destaque para países exportadores ligados ao ciclo tecnológico global.

No universo das matérias-primas, a expectativa é de pressão sobre os preços do petróleo, devido a um excedente de oferta, com o crude WTI a rondar os 50 dólares por barril. Em contrapartida, os metais preciosos deverão beneficiar de uma procura sustentada por parte de bancos centrais e investidores, com o ouro a poder atingir os 5.000 dólares por onça até ao final de 2026.

“Para os investidores, 2026 será um ano de navegação cuidadosa. A coexistência de riscos elevados com oportunidades significativas exige uma abordagem disciplinada, informada e seletiva. A polarização dos mercados não significa ausência de oportunidades — significa, sim, que será essencial interpretar corretamente os fluxos, os ciclos de investimento e as movimentações das “máquinas” algorítmicas que moldam cada vez mais os preços nos mercados globais”, remata Bruno Janeiro.

 

 

 

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