Número de mulheres suspeitas de incêndios florestais detidas este ano pode atingir recorde histórico

O número de mulheres detidas pela Polícia Judiciária (PJ) por suspeita de fogo posto desde o início de 2025 poderá vir a ser o mais elevado de sempre. Até ao momento, foram identificadas cerca de 85 pessoas por crimes de incêndio florestal, das quais 14 são do sexo feminino, representando aproximadamente 15% do total.

Executive Digest
Outubro 2, 2025
15:26

O número de mulheres detidas pela Polícia Judiciária (PJ) por suspeita de fogo posto desde o início de 2025 poderá vir a ser o mais elevado de sempre. Até ao momento, foram identificadas cerca de 85 pessoas por crimes de incêndio florestal, das quais 14 são do sexo feminino, representando aproximadamente 15% do total. No mesmo período do ano passado, tinham sido detidas apenas nove mulheres.

De acordo com o Público, os números estão a ser acompanhados com atenção pela PJ, que reconhece a tendência crescente. “É um número interessante”, afirmou Avelino Lima, responsável pelo Grupo de Acompanhamento Permanente e Apoio para os incêndios florestais da Polícia Judiciária, sublinhando, no entanto, que ainda não é possível confirmar se se trata do valor mais elevado de sempre. O responsável destacou ainda casos particularmente invulgares, como a detenção de duas mulheres de 81 anos, ambas reincidentes.

Uma das idosas é suspeita de ter ateado cinco incêndios florestais na localidade de Outeiro, concelho de Paredes, entre 26 de junho e 7 de agosto. De acordo com comunicado da PJ, “os incêndios tiveram lugar sempre na mesma área de acesso, em períodos horários próximos e em datas distintas, sendo certo que pelo menos em duas das situações foram criados vários focos de incêndio de forma sequencial, aparentemente para maximizar o efeito do fogo”. O mesmo documento refere que os fogos colocaram em perigo uma vasta mancha florestal e diversas residências, destruindo cerca de 20 hectares, embora não tenham tido consequências mais graves devido à rápida deteção e ao combate eficaz.

Já a segunda octogenária é suspeita de vários focos de incêndio em Revezes, freguesia do Ameixial, concelho de Loulé, registados desde março. No dia 13 de setembro, quando as temperaturas atingiram 38 graus, terá ateado um incêndio florestal na mesma zona, justificando a prática criminosa como uma forma de lidar com problemas domésticos.

O aumento de mulheres detidas por fogo posto será um dos temas centrais de uma conferência organizada pela PJ a 9 de outubro, em Coimbra, sob o lema “Incêndios florestais, conhecer para combater”. Entre os participantes estará Cristina Soeiro, psicóloga e especialista em perfis criminais, que há vários anos estuda comportamentos incendiários e já analisou uma amostra de quase 800 casos.

Em 2014, Cristina Soeiro publicou um estudo sobre diferenças de género no comportamento de incendiários, concluindo que fatores como problemas familiares, relações amorosas e depressão eram determinantes no caso das mulheres. Segundo Avelino Lima, mais de uma década depois, novos fatores juntaram-se a este perfil, nomeadamente o elevado consumo de álcool e a falta de inserção social.

Em 2019, um mestrado em psicologia forense e criminal orientado por Cristina Soeiro e realizado por Tânia Querido analisou 74 incêndios cometidos por mulheres. O estudo concluiu que “a maioria relata ter doença mental e/ou consumos de álcool ou outras substâncias”. Verificou-se ainda que quase metade das incendiárias eram casadas, mas encontravam-se desempregadas ou reformadas, e 23% eram domésticas, enfrentando claras dificuldades de integração social.

Quanto ao método utilizado, as mulheres incendiárias recorrem sobretudo à chama direta, com fósforos ou isqueiros, mas também a acelerantes como álcool e gasolina. A maioria abandonava o local após o fogo, embora 12% regressassem quando chegavam os bombeiros, para participar no combate às chamas.

Um dos estudos citados indica ainda que as motivações mais frequentes são doença mental (28,4%), necessidade de atenção (24,3%), raiva (23%), aborrecimento (21,6%), vingança (16,2%), consumo de substâncias (12%) e prazer (5,4%).

A mais recente detenção ocorreu em Figueira de Castelo Rodrigo, onde uma mulher de 56 anos foi acusada de atear seis incêndios entre agosto e setembro. Segundo as autoridades, os fogos foram provocados sempre em dias de risco máximo de incêndio e por motivos considerados fúteis.

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