Zelensky recua e nomeia chefe anticorrupção após sujeitá-lo a teste de polígrafo

A nomeação de Oleksandr Tsivinski como chefe da Oficina de Segurança Económica da Ucrânia marca um ponto de viragem na crescente tensão entre o governo de Volodymyr Zelensky e a sociedade civil, após semanas de protestos contra o alegado controlo político sobre as agências anticorrupção.

Pedro Gonçalves
Agosto 7, 2025
12:48

A nomeação de Oleksandr Tsivinski como chefe da Oficina de Segurança Económica da Ucrânia marca um ponto de viragem na crescente tensão entre o governo de Volodymyr Zelensky e a sociedade civil, após semanas de protestos contra o alegado controlo político sobre as agências anticorrupção. A confirmação oficial chegou esta quarta-feira, depois de o nomeado ter sido sujeito a novos exames de segurança e a um teste de polígrafo, que visaram dissipar suspeitas ligadas à sua ascendência russa.

Tsivinski, investigador independente com um historial sólido no combate à corrupção, foi inicialmente recomendado para o cargo no final de junho, após um rigoroso processo de seleção. A “oposição” incluiu provas de inteligência, testes jurídicos, resolução de casos simulados e várias entrevistas. A sua prestação foi tão convincente que a comissão responsável pelo processo recomendou a sua nomeação.

Contudo, em 7 de julho, o Conselho de Ministros rejeitou a sua entrada em funções após receber um relatório dos serviços secretos ucranianos que levantava preocupações sobre a nacionalidade russa do pai do candidato. Apesar de Tsivinski não manter qualquer contacto com o progenitor há mais de dez anos – devido a divergências causadas pela invasão da Ucrânia pela Rússia – o governo considerou-o um “risco para a segurança”.

A decisão coincidiu com outra medida controversa: a tentativa do governo ucraniano de esvaziar a independência das duas principais agências anticorrupção do país, a NABU (Agência Nacional Anticorrupção) e a SAPO (Gabinete Especializado Anticorrupção), o que gerou forte oposição da sociedade civil e de parceiros internacionais.

Segundo o Kyiv Independent, a viragem do governo deveu-se não apenas à contestação interna, mas também à crescente pressão internacional, particularmente por parte da União Europeia. “Inicialmente, os parceiros ocidentais não reagiram com firmeza, mas depois de Kiev tentar limitar a independência das agências anticorrupção, os apelos à nomeação de Tsivinski intensificaram-se”, explicou Dominic Culverwell, correspondente financeiro do jornal.

Olena Trehub, diretora da Comissão Independente Anticorrupção, afirmou que já existiam dúvidas quanto às verdadeiras motivações do governo. “Depois do ataque às agências anticorrupção, ficou evidente que o governo não queria Tsivinski devido à sua independência”, comentou. “Ou, como se diz nas ruas de Kiev, porque é incontrolável”.

A analista e ativista Olena Halushka celebrou a nomeação como “mais uma grande vitória dos protestos de papelão”, numa referência aos protestos pacíficos que mobilizaram a opinião pública contra a politização da luta anticorrupção.

A primeira-ministra Yulia Svyrydenko deu as boas-vindas públicas a Tsivinski, afirmando esperar que a sua liderança contribua para renovar a missão da Oficina de Segurança Económica e fortalecer as instituições. “É importante que as relações económicas na Ucrânia não sejam distorcidas por tramas obscuras e que as empresas possam contar com o respeito e a cooperação do Estado”, declarou.

Antes da confirmação formal, Tsivinski teve de submeter-se a um novo conjunto de verificações de segurança e à realização de um polígrafo. Só após esses testes é que o governo deu luz verde à sua nomeação.

Criada em 2021, durante o mandato de Zelenski, a Oficina de Segurança Económica tinha como missão investigar crimes financeiros e prevenir a corrupção no setor empresarial. No entanto, desde a sua fundação tem sido alvo de críticas por ineficiência e por alegada interferência política.

Face às exigências da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional, as autoridades ucranianas comprometeram-se, na primavera de 2023, a reformar o organismo e nomear um novo responsável através de um processo transparente. A nomeação de Tsivinski representa, segundo várias vozes, o cumprimento dessa promessa.

De acordo com o deputado da oposição Yaroslav Zhelezniak, o primeiro passo agora deverá ser a formação de uma comissão para selecionar cuidadosamente os novos quadros do organismo. Tsivinski, por sua vez, declarou que a sua prioridade será garantir a “igualdade de condições entre as empresas”, assegurando que ninguém beneficie de ligações políticas para obter vantagens nos negócios.

Apesar do recuo, o episódio afetou a imagem do presidente Zelensky. De acordo com uma sondagem do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, realizada no início de agosto, a sua popularidade caiu para 58%, face aos 65% registados em junho.

Especialistas atribuem esta queda às decisões recentes do governo em matéria de anticorrupção. “Nem ele nem a sua equipa parecem compreender a correlação entre ampliação de poderes e responsabilidade acrescida”, afirmou o analista político Yevhen Mahda ao Kyiv Independent. “Zelensky não deverá ter uma campanha fácil nas próximas eleições. E é possível que o seu partido, Servidor do Povo, nem sequer sobreviva até lá”, acrescentou.

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