Trump nunca seria presidente dos EUA (ou sequer vivia no país) se já tivesse havido… um Trump

Novo presidente dos EUA fez da deportação de imigrantes sem documentos legais uma das principais bandeiras da sua campanha: no entanto, parece-se ter esquecido – ou ter falhado em mencionar assim tanto… – que o seu próprio avô foi um imigrante ilegal

Francisco Laranjeira
Fevereiro 2, 2025
9:30

Donald Trump pretende concluir a “maior deportação da história americana”: de acordo com os britânicos da ‘BBC’, são deportados em média, por dia, 311 migrantes, sendo que no passado domingo foram quase mil os enviados para os países de origem.

O novo presidente dos EUA fez da deportação de imigrantes sem documentos legais uma das principais bandeiras da sua campanha: no entanto, parece-se ter esquecido – ou ter falhado em mencionar assim tanto… – que o seu próprio avô foi um imigrante ilegal, e toda a sua família tem origem estrangeira, incluindo as suas duas mulheres. Ou seja, se houve Trump na altura do avô do novo presidente dos EUA, provavelmente não haveria atualmente Trump.

Trump é filho e neto de imigrantes: alemães por parte de pai e escoceses por parte de mãe. Nenhum de seus avós, e apenas um de seus pais, nasceu nos Estados Unidos ou falava inglês como língua materna. (Os pais da sua mãe, das remotas Hébridas Exteriores escocesas, viviam numa comunidade maioritariamente de língua gaélica).

Em 1885, um barbeiro alemão de 16 anos, chamado Friedrich Trump, embarcou num navio com destino aos EUA, para fugir a três anos de serviço militar obrigatório na Alemanha natal – era doente e inapto para os trabalhos forçados a que poderia ser submetido no seu país. Por outro lado, estava de olho na ‘febre do ouro’.

De acordo com o canal ‘History’, o jovem esteve em situação ilegal nos EUA, mas foi recebido de braços abertos por família que vivia nos Estados Unidos e pelos próprios americanos. Depressa, iniciou um negócio imobiliário de sucesso – segundo a publicação ‘The Conversation’, o seu negócio passava pela venda de álcool e a prostituição.

Até aos anos 1980, Donald Trump procurou esconder a cidadania do avô. “Ele veio da Suécia quando era criança”, afirmou, no seu livro ‘The Art of the Deal’. Mas, mais tarde, o seu primo e historiador da família, John Walter, reconheceu ao jornal ‘The New York Times’, que Trump manteve as origens escondidas a pedido do seu próprio pai, magnata imobiliário, que tinha ocultado a sua ascendência alemã com receio de perturbar amigos e clientes judeus. “Depois da guerra”, explicou Walter, “ele ainda é sueco. [A mentira] era apenas continuar, continuar, continuar.”

O avô de Trump viria a regressar à Alemanha, onde se casou com uma alemã, Elizabeth Christ: a Alemanha viria a descobrir que tinha fugido ao serviço militar e foi obrigado a regressar aos EUA, onde se naturalizou e teve o filho Fred.

Fred Trump, nascido no Bronx, em Nova Iorque, tornou-se-se num dos empresários mais bem-sucedidos da cidade. Num baile, viria a conhecer Mary Anne MacLeod, uma empregada doméstica oriunda da Escócia, ainda sem cidadania americana, que viajara de barco até aos EUA para escapar às dificuldades económicas.

A mãe de Trump era pobre, filha de um pescador natural da ilha de Lewis. Depois de conhecer Fred, a qualidade de vida de Anne, que cresceu rodeada por uma paisagem de propriedades que historiadores e genealogistas locais caracterizaram com termos como “miséria humana”, indicou o jornal ‘POLITICO’, aumentou rapidamente.

Necessitou de 12 anos nos EUA para Mary Anne Trump tornar-se cidadã americana e uma frequentadora assídua do círculo social de Nova Iorque. Donald Trump chegou a visitar a casa onde a sua mãe vive na Escócia, relatou a ‘BBC’, tendo passado aproximadamente 97 segundos lá dentro.

A árvore genealógica de Trump é multicultural, que viria a crescer quando Donald Trump conheceu, aos 29 anos, uma jovem num bar: a checa Ivana, que cresceu numa cidade comunista na antiga Checoslováquia e casou-se com “The Donald”, como lhe chamava, um ano após o ter conhecido. No entanto, precisou de 11 anos depois de chegar aos EUA para obter cidadania americana.

Divorciaram-se em 1990, e nove anos depois Trump tinha outra mulher, desta vez americana, Marla Maples. Mas, atualmente, é casado com Melania Trump, nascida na Eslovénia. “Passou por um longo processo para se tornar cidadã. Foi muito difícil”, disse o próprio Trump, citado pela ‘CNN’, acrescentando que Melania concorda com a sua posição relativamente à imigração. “Quando o conseguiu, ficou muito orgulhosa. Veio da Europa e ficou muito, muito orgulhosa. E acha que é um processo bonito quando funciona.”

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