LTPlabs usa IA para mudar a tomada de decisão em Portugal: Co-Founder da consultora explica sucesso

Bernardo Almada-Lobo, Co-Founder & Partner na consultora LTPlabs, falou em exclusivo à ‘Executive Digest’

Francisco Laranjeira
Setembro 2, 2025
8:00

Bernardo Almada-Lobo, Co-Founder & Partner na consultora LTPlabs, abriu o livro em entrevista à ‘Executive Digest’, na qual abordou o percurso de uma década da empresa sediada no Porto, destacou os desafios esperados e deixou uma garantia para o futuro: “Crescer e fazer crescer com o que nos distingue: talento que sabe desenvolver e usar a tecnologia de forma diferenciada”, apontou.

1.º Presente há cerca de 10 anos no mercado em Portugal, como descreveria o percurso até agora, em função do planeado aquando do arranque do projeto?

A LTPlabs nasceu de uma spin-off da área de Engenharia e Gestão Industrial, quer do INESC TEC quer da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, com um objetivo preciso: capacitar as organizações para a tomada de decisão ser sempre assente em analítica, dados e Inteligência Artificial (IA).

Em termos práticos, concentramo-nos no problema e nas necessidades a resolver, ajustando depois a tecnologia à realidade, no sentido em que esta não seja um fim, mas um meio que faz avançar as instituições.

Este mote emergiu essencialmente de três gaps que fomos recolhendo ao longo do tempo. O primeiro prende-se com o facto de muitas entidades agirem de forma empírica ou estarem presas no ‘purgatório dos testes-piloto de IA’.

Por outro lado, a consultoria estava dominada por players globais que recorriam a técnicas qualitativas generalistas e por empresas de software com produtos off-the-shelf com pouca sofisticação analítica.

Em terceiro lugar, no que tocava a recursos humanos escasseavam perfis híbridos — experts de IA e de ciência de dados que também possuem a componente de negócios —, os quais são pilares para acelerar implementações e garantir o retorno do investimento.

Posto isto, 10 anos depois de ser fundada, posso adiantar que o percurso da LTPlabs tem sido fantástico, ultrapassando imenso as expectativas iniciais a todos os níveis: notoriedade, projeção de talento e o modo como ajudamos a moldar a cultura de decisão dos parceiros e a desenhar o seu caminho da IA.

Na verdade, estamos a fazer jus ao acrónimo LTP (Long-Term Partner): mais de 95% dos clientes acabam por ter mais do que um projeto connosco, os quais se caracterizam por serem céleres, precisos e com retorno evidente. Tudo isto é fruto da nossa curiosidade crónica, empenho, rigor e paixão genuína pela atividade.

2.º Quais têm sido os principais desafios experienciados pela LTPlabs desde o início?

Desde o primeiro dia, tivemos a sorte de lidar com parceiros exigentes, os quais acreditaram na nossa proposta, souberam pôr-nos à prova e tiveram abertura para lidar com uma empresa em fase de amadurecimento.

Esta confiança foi determinante para a nossa evolução, visto que os projetos complexos, ao tirarem-nos da zona de conforto, fazem-nos aprender com avidez para, assim, estarmos à altura das expectativas e evitar correr riscos e falhar.

Dada a nossa oferta e como nos posicionamos, o modus operandi comercial da LTPlabs prima pela componente relacional. Em Portugal, dado que todos os gestores se conhecem, o nosso trajeto tem sido facilitado pelo passa-palavra positivo sobre como devolvemos valor, gerando oportunidades.

No entanto, no estrangeiro, o principal obstáculo é chegar aos decisores certos. Para fazer face a este quadro, temos o privilégio de contar com um conjunto de business developers em diversos países e com membros do nosso advisory board que têm sido essenciais.

Internamente — e tendo superado a marca dos 100 LTPeers (somos cerca de 120 pessoas neste momento) —, o desafio é preservar o espírito de inovação de start-up, liderar com contexto e com poucos controlos e cultivar a transparência, tanto dentro como fora de portas. E isso só é possível com feedback constante.

3.º Como projeta o final de 2025 e o próximo ano a nível de crescimento, desenvolvimento, lucro e recursos humanos?

Em 2024, transpusemos a barreira dos 10 milhões de euros em proveitos, antecipando em um ano uma das metas do ciclo 2023-2025. Este ano, o crescimento deverá situar-se entre os 20 e os 30% e as contratações (30 a 40 novos colaboradores) também irão acompanhar esta taxa.

Até final de 2026, esperamos conduzir um número recorde de projetos, com aumento expressivo das iniciativas de Analytics Education e Analytics Discovery. A primeira — direcionada para a capacitação — tem desmistificado a Inteligência Artificial aplicada ao negócio, contribuindo para a literacia analítica das empresas e das suas lideranças.

Já a Analytics Discovery, em articulação com a Education, assegura que as instituições, ao invés de efetuarem “umas cenas de IA” isoladas, consigam identificar bolsas de valor em que a redefinição dos seus processos, através da injeção de tecnologia, possa acionar o tão desejado retorno e preparar as organizações para o futuro.

O modelo de entrega baseado em ter acessíveis em permanência serviços alojados na infraestrutura da LTPlabs (Analytics-as-a-Service) tem tido muita procura, tal como as relações de longo prazo que promovem o uso sustentado de analítica (Leveraging Analytics).

4.º Para 2026, quais os principais objetivos que almeja atingir?

Os objetivos para o próximo ano passam por cumprir o nosso plano estratégico: pretendemos ser thought advisors globais dos clientes em Inteligência Artificial e os melhores a criar e a devolver trabalhos de IA com impacto para o negócio.

É sabido que o modelo comum das consultoras — intensivo em mão-de-obra qualificada — não escala de modo eficiente. Por isso, temos vindo a apostar em ofertas híbridas, cuja fronteira entre o serviço e o produto se vai esbatendo.

Em termos práticos, os nossos serviços de consultoria estão a ser cada vez mais apresentados sob forma de produtos digitais, plataformas ou do nosso Analytics-as-a-Service. Este conceito fomenta a escalabilidade, assevera receitas e gera benefícios mais imediatos para os clientes. Por isso, o desenvolvimento de modelos de entrega originais é para manter.

Por outro lado, a LTPlabs tem estado na linha da frente na resposta aos pedidos de soluções que combinam IA Analítica com IA Generativa. Neste sentido, vamos ‘dar corda’ aos projetos que integrem estas duas modalidades, bem como a introdução de agentes de IA (assistentes virtuais) que auxiliam os humanos.

No fundo, temos no horizonte continuar a crescer. Além de Portugal, os nossos hubs no Reino Unido, Brasil e Filipinas estão a consolidar a sua presença. Em 2026, seremos mais globais, porém não queremos perder o nosso flavour de boutique.

De sublinhar que este crescimento orgânico será alavancado com uma integração de parceiros-chave numa oferta holística e durável. Estamos convictos de que esta será a única fórmula sensata para enfrentar a disrupção (já em curso) provocada pela Inteligência Artificial nos negócios.

Todavia, é provável que no próximo ano também ocorra um crescimento inorgânico, visto que estamos a avaliar algumas empresas que se enquadram no nosso ecossistema e que, como tal, podem ser interessantes contactar.

Na agenda temos ainda o reforço do nosso compromisso social direcionado 100% para educação. E, talvez o mais importante de tudo, vamos dedicar-nos ao que guia o nosso ADN desde 2015: dinamizar equipas de elevado desempenho e potenciar ao máximo o talento dos LTPeers.

5.º Numa consultora tecnológica e face à expressão e características do tecido empresarial português, sente por vezes que há um ‘choque’ entre a potencialidade da parceria e a ‘desconfiança’ dos empresários?

A LTPlabs tem colaborado quase exclusivamente com entidades com dimensão que têm consciência de que precisam de alterar o mindset de tomada de decisão e tornar-se mais data-driven. Tal é crucial para afinarem os seus processos e estes serem mais eficazes, rentáveis e robustos. No entanto, a miúde, a questão é saber por onde começar.

Mais de metade do nosso negócio provém de multinacionais fora do país. Contudo, não detetamos diferenças significativas na maturidade de gestão ou na resistência à mudança entre grandes empresas portuguesas e internacionais.

O que verificamos em algumas circunstâncias é a ausência de uma visão precisa sobre como a IA e a analítica avançada podem moldar a sua atividade. Além disso, por vezes observamos pouco refinamento na aquisição de consultoria, com dificuldade em avaliar as competências e o valor que outros parceiros (ou fornecedores) podem afiançar.

O hype à volta de IA tem levado muitas empresas generalistas e consultoras clássicas a aventurarem-se a realizar projetos analíticos ou de IA sem experiência. Esta resposta estilo canivete-suíço não é, a nosso ver, a mais adequada numa era em que a procura se centra em soluções específicas e prontas a curto prazo, clareza e resultados consistentes.

As consultoras-boutique — como a LTPlabs — disponibilizam um modelo mais alinhado com os novos requisitos, graças à sua especialização, agilidade e foco no valor real que aportam. A nossa proposta assenta em abordagens customizadas, tecnologia de topo e metodologias orientadas para resultados mensuráveis.

O que se observa é que a lógica de volume (em horas faturadas) e a reputação dos gigantes tradicionais estão a ser substituídas por peritos de excelência e por um verdadeiro comprometimento com o sucesso dos clientes. Isto é o que, de facto, importa para quem quer dar um passo em frente.

6.º O ‘core’ da LTPlabs é a IA, cujas potencialidades estão a começar agora a ser conhecidas para a maioria das pessoas. Que mais-valia pode aportar às empresas em termos numéricos? Ou mais bem-dito, qual é o acrescento de valor que a IA pode trazer à generalidade das empresas, das mais modestas às mais avançadas, independentemente do setor?

A IA, como a que concebemos na LTPlabs, representa uma ignição transformacional para as empresas de qualquer ramo ou maturidade tecnológica. Os ganhos dependem em boa parte da redefinição do papel da tecnologia na gestão e de como se implementa a mudança, que é primordial para ativar a sua adoção interna efetiva.

A mais-valia da Inteligência Artificial manifesta-se em duas vertentes complementares: eficiência de operações e eficácia na tomada de decisão. No primeiro caso, a IA é gatilho para automatizar etapas e tarefas repetitivas, impulsionar processos e alocar recursos de forma mais consistente.

Isto traduz-se, por exemplo, em diminuição de custos operacionais entre 15% e 30%, progressos significativos no que concerne a produtividade e ainda execução bastante mais célere.

Em domínios como logística (corte do cost-to-serve), planeamento de produção (redução dos setups) e gestão de stocks (taxa de ruturas e capital empatado inferiores), este boost na eficiência tem impacto direto na rentabilidade.

Na segunda situação, a mais-valia é proveniente da melhoria substancial da qualidade das escolhas. A IA permite às organizações analisar enormes volumes de dados com profundidade, detetar padrões e alargar o leque de soluções, evitando os vieses cognitivos, como o de ancoragem, que afetam todas as organizações.

Assim, as opções tornam-se mais informadas, rápidas e frequentes. Por exemplo, a compreensão das preferências e do comportamento dos consumidores proporciona uma segmentação smart, a exploração de oportunidades de venda cruzada ou de up-selling, a deteção proativa da potencial perda do cliente (churn), a personalização de ofertas e de campanhas e a definição de preços dinâmicos e otimização promocional.

De referir que este tipo de trabalho tem sortido efeitos concretos muito relevantes, tais como: 5 a 15% de taxas de conversão de campanhas mais elevadas, diminuição de churn entre 20 a 30% e proliferação das vendas de 10 a 20%.

7.º Falando em setores, Portugal vai reforçar substancialmente o investimento em Defesa, ao abrigo do cumprimento das metas da NATO. Nesse sentido, o Governo já garantiu que pretende o desenvolvimento de uma indústria militar, mas também transversal a este setor. Como tal, a LTPlabs pode vir a participar nesse esforço para os próximos anos? E se sim, em que capacidade, em que setor, e o que poderia acrescentar?

A Defesa não é um dos verticais da LTPlabs, nem está no nosso radar. Não seguimos modas nem corremos atrás de investimento estatal. No setor público, sentimos que podemos ser aliados de peso de administrações e de entidades para as tornar mais eficientes na execução dos seus processos.

Seja no privado ou no público, o que ambicionamos é concentrar e intensificar os esforços nos campos em que possuímos know-how e experiência consolidada e que sabemos que somos muito competitivos: manufacturing, bens de consumo, retalho, saúde, energia, telecomunicações e serviços financeiros.

Em resumo, estamos abertos a todas as oportunidades — em território nacional e internacional — que surjam e que façam sentido para ambas as partes, pois o que nos move é a máxima ‘crescer e fazer crescer com o que nos distingue: talento que sabe desenvolver e usar a tecnologia de forma diferenciada’.

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