Europa ‘treme’ com a possível convulsão marítima às suas portas: os mares que podem protagonizar o colapso do comércio internacional

O que são pontos de estrangulamento? São canais estreitos nas rotas marítimas globais e que são críticos para a segurança energética mundial – a incapacidade do petróleo de transitar por um importante ponto de estrangulamento, mesmo que temporariamente, pode levar a atrasos substanciais no fornecimento e a custos de transporte mais elevados, o que vai provocar preços globais mais elevados

Francisco Laranjeira
Fevereiro 3, 2024
10:00

As placas geopolíticas estão a colidir em diversos pontos do plano, o que tem provocado uma convulsão dos mares, conforme se tem visto desde há uns meses no Mar Vermelho. Os analistas têm acompanhado a situação no Médio Oriente devido aos receios de que os seus derivados possam levar a um conflito mais amplo – em particular, Teerão, o principal ator na área de oposição a Israel.

Há, sem dúvida, o risco de a tensão se deslocar do decisivo Estreito de Ormuz, no sul do Irão e paralelo ao Mar Vermelho – por onde passa 21% do consumo mundial de petróleo e derivados. Há mesmo quem aponte Gibraltar, o que poderia causar o fecho dramático do Mediterrâneo, mas importa dar ênfase à ameaça que a Rússia continua a representar.

“Nem o Mar Negro nem o Mar Báltico estão livres de interrupções nos negócios”, alertou Matt Gertken, analista geopolítico responsável da ‘BCA Research’. “As últimas duas décadas de agressão russa devem-se em parte à grande estratégia russa de obter maior acesso marítimo. A Rússia tentará restringir a economia da Ucrânia no Mar Negro e impedir que a admissão da Finlândia e da Suécia à NATO reduza o seu acesso no Báltico”, apontou, lembrando os pontos de estrangulamento.

O que são pontos de estrangulamento? São canais estreitos nas rotas marítimas globais e que são críticos para a segurança energética mundial – a incapacidade do petróleo de transitar por um importante ponto de estrangulamento, mesmo que temporariamente, pode levar a atrasos substanciais no fornecimento e a custos de transporte mais elevados, o que vai provocar preços globais mais elevados.

O Mar Báltico e o Mar Negro são menos importantes em termos de comércio internacional do que outras águas, mas também são mares essenciais para o transporte de hidrocarbonetos. Possuem os seus próprios pontos de estrangulamento, que podem ser facilmente bloqueados e gerar um colapso comercial – são conhecidos como Estreito Dinamarquês e Estreito Turco.

De acordo com o Departamento de Energia dos Estados Unidos, passam mais de 5 milhões de barris de petróleo por dia nestes estreitos, o que os torna “pontos de estrangulamento importantes para o fornecimento de petróleo bruto à Europa”.

De acordo com Gertken, a Rússia não conseguiu trava a expansão da NATO, mas mantém o objetivo estratégico de dividir o Ocidente: a sua estratégia é aumentar a sua influência sobre a Europa e assim mostrar que os Estados Unidos não têm vontade ou capacidade para manter as suas garantias de segurança.

Moscovo é assim uma ameaça aos pontos de estrangulamento marítimo, sobretudo no Mar Báltico, que não está imune a conflitos e representaria um impacto económico muito mais do que se ocorresse no Mar Negro. “Durante a Guerra Fria, os estreitos de Kattegat eSkaggerak tornaram-se locais críticos onde a NATO poderia estrangular a marinha russa. O Mar Báltico representa 875 mil milhões de dólares em comércio, ou seja, 3,5% das exportações mundiais, ou 0,6% do PIB mundial, excluindo a Rússia. O Báltico é também palco de projetos de energia renováveis para os países nórdicos e, com o tempo, tornar-se-ão mais dependentes”, salientou o especialista.

Os Estreitos Dinamarqueses, uma série de canais que ligam o Mar Báltico ao Mar do Norte, são uma rota importante para as exportações marítimas de petróleo russas para a Europa e a Ásia – mais de 3,2 milhões de barris/dia de petróleo bruto e produtos petrolíferos fluem através do Estreito dinamarquês. Embora a Rússia esteja a tentar desviar parte do petróleo bruto através da rota do Ártico, este só é transitável durante parte do ano e em condições muito complexas.

A tensão na área é já latente: em outubro último, um gasoduto submarino e cabos de telecomunicações, que ligam a Estónia à Finlândia e Suécia, foi danificado. Em 2022, o gasoduto Nordstream II foi destruído. Esta semana, um alto comandante militar do Báltico informou que Moscovo é responsável pelo aumento nos casos de interferência de sinais de satélite utilizados por companhias aéreas, smarphones e sistemas militares na Europa Oriental.

“O risco de tais incidentes é persistente, uma vez que a Rússia tentará pressionar as economias da UE até que esta concorde com um cessar-fogo na Ucrânia, o que abriria o caminho para o alívio das sanções e a restauração das relações comerciais com Moscovo”, enfatizou Gertken.

Embora numa escala menor, o Mar Negro é também um flanco vulnerável. “O desejo da Rússia de recapturar a cidade portuária de Sebastopol, na península da Crimeia , foi uma das principais causas da guerra ucraniana. A Rússia tentou transformar o Mar Negro no seu próprio lago, para restringir as comunicações da Ucrânia com o exterior. Para ganhar influência nas negociações de cessar-fogo, a Rússia exercerá novas pressões militares e económicas sobre os portos ucranianos, como Odessa”, explicou o analista do ‘BCA Research’.

As potências ocidentais terão de impor a livre navegação no mar para evitar uma perda permanente de acesso e garantir que a Ucrânia possa ter uma economia viável após a guerra. Sem comércio livre, a Ucrânia, sem acesso ao mar, definhará e a Europa será forçada a subsidiar a sua economia, apontou.

“Um incidente no Mar Negro causaria outro choque nos preços das commodities. Felizmente, a magnitude seria limitada, afetando apenas 1% do comércio mundial e 0,25% do PIB mundial, excluindo o comércio russo”, indicou o analista.

O que nos leva ao Estreito Turco, que dividem a Ásia da Europa: o Bósforo é uma via navegável que liga o Mar Negro ao Mar de Mármara. Já Dardanelos é uma via navegável do Mar de Mármara aos mares Egeu e Mediterrâneo. Ambas as vias abastecem a Europa Ocidental e Meridional com gás proveniente da Rússia e da região do Mar Cáspio.

Com apenas 800 metros de largura no seu ponto mais estreito, o Estreito Turco está entre as vias navegáveis mais difíceis do mundo devido à sua geografia sinuosa. Cerca de 48 mil navios transitam pelo Estreito Turco todos os anos, tornando esta área um dos pontos de estrangulamento marítimo mais movimentados do mundo. A navegação comercial tem o direito de passar livremente pelo Estreito Turco em tempos de paz, embora Ancara reivindique o direito de impor regulamentos para fins ambientais e de segurança.

Pelo estreito, estima-se que passem mais de 2,5 milhões de barris por dia de petróleo bruto e produtos petrolíferos. Estes portos do Mar Negro estão entre as principais rotas de exportação de petróleo para a Rússia e outros países da Eurásia, incluindo o Azerbaijão e o Cazaquistão. No seu pico em 2004, mais de 3,4 milhões de barris diários transitaram nas passagens turcas, mas os volumes caíram à medida que a Rússia desviou as suas exportações de petróleo bruto do Mar Negro para os portos do Báltico.

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