Estes quatro produtos estão ligados a um terço de todas as mortes no mundo

Uma das principais especialistas britânicas em saúde pública afirma que apenas quatro produtos são responsáveis por pelo menos um terço de todas as mortes a nível global.

Pedro Gonçalves
Junho 29, 2025
11:30

Uma das principais especialistas britânicas em saúde pública afirma que apenas quatro produtos são responsáveis por pelo menos um terço de todas as mortes a nível global. A revelação foi feita por Anna Gilmore, professora de Saúde Pública e diretora do Centro para a Saúde Pública do Século XXI, na Universidade de Bath, em entrevista ao jornal espanhol El País.

Segundo a investigadora, tabaco, álcool, combustíveis fósseis e alimentos processados formam um grupo letal cujos impactos combinados resultam num elevado número de mortes prematuras.

“A forma mais simples de compreender isto é olhar para a magnitude dos danos causados por quatro produtos: o tabaco, os combustíveis fósseis, o álcool e a alimentação”, afirmou Gilmore. “Estimamos que estes quatro produtos, sozinhos, estejam na origem de entre um terço e dois terços de todas as mortes no mundo”, explica.

O número impressionante: 19 milhões de vítimas num único ano
Em 2021, morreram 56 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo que 19 milhões dessas mortes foram atribuídas a indústrias associadas aos quatro produtos mencionados. O tabaco lidera como o mais mortífero, responsável por mais de 9 milhões de mortes, ou 16% do total global.

No entanto, Gilmore sublinha que os perigos continuam a ser subestimados: “Dois em cada três fumadores acabarão por morrer devido ao tabaco. É extremamente perigoso.”

A especialista compara o risco com uma queda do quarto andar de um edifício, algo que ninguém aceitaria voluntariamente, mas cuja lógica parece ser esquecida quando se trata de fumar – sobretudo porque o vício começa geralmente na juventude, quando as consequências ainda não são percebidas.

Tabaco: o principal assassino evitável
De acordo com o Global Burden of Disease Study, o consumo de tabaco, tanto fumado como mascado, e a exposição ao fumo passivo representam o produto mais mortal de todos. Só na Europa, um estudo liderado por Gilmore concluiu que o tabaco é responsável por 1,15 milhões de mortes anuais, o que representa cerca de 10% de todas as mortes no continente.

O tabaco está diretamente ligado ao aumento da incidência de cancro, doenças cardiovasculares, AVCs, hipertensão, coágulos sanguíneos e problemas respiratórios crónicos.

Gilmore também acusa a indústria tabaqueira de manipular o conteúdo dos cigarros para aumentar o seu poder viciante. “Sabemos que as empresas de tabaco tornam os cigarros mais viciantes”, alertou. Como solução, recomenda aos fumadores que façam “tudo o que puderem para deixar de fumar”.

Álcool: responsável por milhões de mortes diretas e indiretas
O álcool é o segundo produto mais mortífero. Segundo o mesmo estudo, 2,44 milhões de pessoas morrem todos os anos devido ao consumo de bebidas alcoólicas, o que representa 4,3% de todas as mortes globais.

Além das doenças associadas – como problemas hepáticos, cardiovasculares e alguns tipos de cancro – o álcool está presente numa percentagem significativa de acidentes e mortes por lesão, representando 7% de todas as mortes causadas por ferimentos.

Alimentação: a ameaça oculta nas dietas modernas
Mais surpreendente para muitos poderá ser o papel da alimentação. Em 2021, 5,4% das mortes globais foram atribuídas a riscos alimentares, ou seja, más escolhas dietéticas associadas a alimentos ultraprocessados, excesso de sal, bebidas açucaradas, gorduras trans e carnes processadas.

Só os regimes alimentares com excesso de sal são responsáveis pela maior fatia dessas mortes. Na Europa, 2,27% das mortes são atribuídas ao consumo excessivo de sal, enquanto 1,06% estão ligadas ao consumo de carnes processadas.

Gilmore afirma ainda que os alimentos industrializados são “manipulados para se tornarem cada vez mais apetecíveis, quase viciantes”, criando um ciclo difícil de quebrar.

As dietas pobres em nutrientes e ricas em aditivos industriais estão entre os maiores fatores de risco para doenças crónicas, como hipertensão, AVC, doenças cardíacas e certos cancros.

Combustíveis fósseis: o assassino silencioso
Os combustíveis fósseis, frequentemente discutidos pelo seu impacto climático, já estão hoje a provocar milhões de mortes diretas devido à poluição atmosférica.

A inalação prolongada de partículas finas (PM2.5) resultantes da queima de carvão, petróleo ou gás natural aumenta drasticamente o risco de doenças respiratórias e cardiovasculares, incluindo cancro do pulmão.

Estima-se que 4,5 milhões de pessoas tenham morrido em 2021 devido à poluição atmosférica causada por combustíveis fósseis. No entanto, um estudo recente aponta um número ainda mais elevado: 8,34 milhões de mortes anuais, especialmente devido a doenças pulmonares e cardíacas.

Na Europa, onde os níveis de poluição são geralmente mais baixos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que os combustíveis fósseis sejam responsáveis por 578.900 mortes anuais. Estes números não incluem mortes relacionadas com eventos climáticos extremos como inundações ou ondas de calor, que estão a tornar-se cada vez mais frequentes devido às alterações climáticas.

Apesar de a maioria destas mortes serem evitáveis, os quatro produtos continuam a dominar o mercado global, impulsionados por indústrias altamente lucrativas. Para a professora Anna Gilmore, os números são claros: reduzir o consumo destes produtos pode salvar milhões de vidas todos os anos.

“A sociedade deve reconhecer o verdadeiro custo destes produtos e a forma como as suas indústrias operam para perpetuar o problema”, conclui a especialista.

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