Pelo menos 80 mil pessoas da minoria muçulmana uigur foram transferidas da região autónoma chinesa de Xinjiang para fábricas noutras regiões da China que fornecem produtos para várias marcas internacionais, através de um esquema de transferência de mão-de-obra apoiada pelo Estado conhecido como «Xinjiang aid», revela um relatório do Instituto Australiano de Políticas Estratégicas (ASPI, na sigla em inglês), citado pelo imprensa internacional.
Estes uigures trabalham em fábricas que fazem parte das cadeias de fornecimento de, pelo menos, 83 marcas nos sectores de Tecnologia, Vestuário e Automóveis, incluindo marcas como Apple, BMW, Gap, Huawei, Nike, Samsung, Sony e Volkswagen.
Em declarações ao “The Washington Post, um porta-voz da Apple, Josh Rosenstock, garantiu: «A Apple dedica-.se a garantir que todos na nossa cadeia sejam tratados com a dignidade e o respeito que merecem. Não vimos esse relatório, mas trabalhamos em estreita colaboração para garantir que os nossos altos padrões sejam respeitados».
No mesmo sentido, fonte oficial da Volkswagen assegurou que, «actualmente, nenhuma das empresas fornecedoras mencionadas [no relatório] é fornecedora directa da Volkswagen».
«Estamos comprometidos em manter os padrões internacionais de trabalho globalmente», sublinhou também uma porta-voz da Nike, acrescentando que os seus fornecedores são «estritamente proibidos de usar qualquer tipo de mão-de-obra escrava».
Este relatório surge poucos meses depois de ter sido anunciado que as pessoas detidas nestes «campos de reeducação» seriam libertadas por já estarem «formadas». O instituto diz que se trata de uma nova fase na «re-educação» dos uigures e outras minorias étnicas pelas autoridades chinesas.
O ASPI recorreu a documentos públicos, imagens de satélite, investigação académica e fontes noticiosas para identificar 27 fábricas em nove províncias chinesas com trabalhadores uigures e de outras minorias étnicas que foram transferidos de Xinjiang, entre 2017 e 2019, com aprovação do Governo. Entretanto, foram descobertos indícios de que autoridades locais e intermediários privados estejam a ser «pagos por cabeça» pelo executivo de Xinjiang.
O relatório «Uigures à venda» descreve estas transferências como «uma nova fase na repressão em curso na China» contra os uigures. O instituto revela que estas pessoas vivem em dormitórios segregados, têm aulas de mandarim e formação ideológica fora do horário de trabalho e estão sob vigilância total.
De acordo com documentos oficiais, consultados pelo ASPI, são atribuídos conselheiros a alguns trabalhadores. Alguns são também proibidos de cumprir as suas práticas religiosas, como o jejum do Ramadão, e estima-se que o número real de uigures transferidos possa ser muito superior a 80 mil.
Recorde-se que a China tem vindo a ser alvo de condenação internacional devido à rede de «campos de reeducação» extrajudiciais em Xinjiang. Nos últimos anos, cerca de um milhão de uigures foram levados para estes campos de detenção para serem punidos e «endoutrinados». As autoridades, por sua vez, defendem-se, dizendo estar a combater o terrorismo e extremismos religiosos.














