Adolescentes ao serviço da guerra: Putin usa jovens de 15 anos para montar drones em fábrica

Menores estão a trabalhar na fábrica de Yelabuga, na república russa do Tartaristão, onde são produzidos milhares de drones suicidas do modelo Geran-2 — a versão russa do Shahed-136 iraniano — usados nos ataques massivos contra cidades ucranianas.

Pedro Gonçalves
Julho 22, 2025
12:01

Uma investigação do jornal britânico The Telegraph revelou que a Rússia está a recorrer a adolescentes para alimentar a sua máquina de guerra. Jovens com apenas 15 anos estão a trabalhar na fábrica de Yelabuga, na república russa do Tartaristão, onde são produzidos milhares de drones suicidas do modelo Geran-2 — a versão russa do Shahed-136 iraniano — usados nos ataques massivos contra cidades ucranianas.

A fábrica, situada na zona económica especial de Alabuga e inaugurada em 2023, é já considerada a maior unidade de produção deste tipo de armamento no mundo. Segundo dados avançados por órgãos de comunicação estatais russos e centros de análise próximos do Kremlin, só no primeiro semestre de 2025 terão sido produzidos cerca de 18 mil drones. A capacidade de produção mensal já ultrapassa as 5 mil unidades.

As imagens mais recentes do interior da instalação foram divulgadas pelo canal militar estatal Zvezda. O vídeo, amplamente partilhado nas redes sociais, mostra dezenas de adolescentes a trabalhar em linhas de montagem altamente organizadas, manipulando componentes, operando computadores e cumprindo funções típicas de um ambiente industrial — mas com uma aparência meticulosamente limpa.

De acordo com o The Telegraph, a maioria destes jovens provém de uma escola técnica localizada nas imediações da fábrica e inicia a sua formação industrial logo após a conclusão do 9.º ano de escolaridade, ou seja, com 15 anos. A integração dos estudantes nesta estrutura levanta sérias preocupações sobre o uso de menores em atividades ligadas à produção militar.

“Drones da noite” e a guerra de desgaste
O modelo Geran-2, com cerca de 3,5 metros de comprimento, envergadura de 2,5 metros e um peso próximo dos 200 kg, é capaz de transportar até 90 kg de explosivos e tem um alcance que pode ultrapassar os 1.800 quilómetros. Os drones são frequentemente pintados de preto para dificultar a sua deteção durante missões noturnas e muitos são lançados a partir de carrinhas Dodge Ram 1500, de fabrico norte-americano — cuja presença levanta suspeitas sobre violações ao regime de sanções internacionais.

A 9 de julho, a Rússia lançou um ataque sem precedentes contra a Ucrânia, envolvendo 741 drones e mísseis, o maior desde o início da guerra. Fontes europeias admitem que Moscovo pretende atingir uma capacidade de ataque de até 2.000 drones por noite, como forma de desgastar as defesas aéreas ucranianas e minar a moral da população.

Apesar do custo relativamente baixo de cada drone — entre 26 mil e 37.200 libras esterlinas (cerca de 30 mil a 43 mil euros) —, o impacto nas defesas ocidentais é significativo. Um míssil interceptor Patriot, por exemplo, custa mais de quatro milhões de libras. A disparidade levou Berlim a propor o desenvolvimento de sistemas de interceção mais baratos, entre 1.500 e 3.000 libras por unidade, para evitar o esgotamento dos arsenais defensivos da Ucrânia.

Uma fábrica-modelo para o regime
A estrutura de Yelabuga é apresentada como uma fábrica verticalmente integrada, com fundições de metais, ferrarias, linhas de montagem e áreas de testes, tudo concentrado num único complexo. O presidente russo, Vladimir Putin, elogiou publicamente o modelo e sugeriu a sua replicação por todo o território russo para reduzir a dependência de importações de tecnologia militar.

Apesar das sanções internacionais, vários analistas militares acreditam que os drones Geran-2 continuam a integrar componentes eletrónicos fabricados nos Estados Unidos e na União Europeia, sinal de que o controlo de exportações ainda está longe de ser eficaz.

Embora situada a mais de mil quilómetros da fronteira com a Ucrânia, a instalação já terá sido alvo de ataques. Em junho, os meios russos reportaram a morte de uma pessoa na sequência da queda de destroços de um drone abatido nas imediações de um posto de controlo próximo da fábrica.

Esta semana, o exército ucraniano anunciou a destruição do 30.000.º drone Shahed desde o início da invasão, um número que espelha não só o volume colossal de produção russa, como a intensidade do cerco aéreo a que a Ucrânia tem sido sujeita nos últimos meses.

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