A Alemanha vai exigir que todos os jovens que completem 18 anos preencham um formulário com dados pessoais e realizem uma avaliação médica, criando um registo nacional de potenciais recrutas. A medida aplica-se aos nascidos em 2008 e surge enquanto Berlim reforça a preparação militar devido ao impacto da guerra na Ucrânia.
Segundo o jornal espanhol ‘El País’, o serviço militar continua voluntário, mas o Ministério da Defesa quer garantir que o Estado sabe onde vivem os jovens em idade militar. O exame médico será introduzido de forma gradual e deverá tornar-se obrigatório a partir de meados de 2027.
“Eu nunca vou para o exército”: jovens rejeitam cenário de alistamento
Entre os adolescentes, o entusiasmo é nulo. Pavel Khanukaev, 16 anos, é direto: “Eu nunca vou para o exército.” E acrescenta que, caso fosse obrigado, faria tudo para ser dispensado: “Tentava dizer que não sou apto, não quero pegar em armas.”
Os amigos acompanham-lhe o tom. Um deles resume: “Se fosse obrigatório, eu não ia. Ia alegar objeção de consciência.”
A exceção é Adrian Carrillo, prestes a fazer 16 anos, que admite cumprir se o Estado o exigir: “Se for obrigatório, eu vou. É o que é.”
Já Aljoscha Plath e Balduin Brussig insistem na rejeição total de armas: “Não quero aprender a disparar contra ninguém”, apontaram, recordando que o artigo 4º da Constituição garante o direito à objeção de consciência e ao serviço alternativo.
Os quatro vivem em áreas distintas de Berlim e estudam em escolas diferentes, mas concordam numa coisa: não conhecem praticamente ninguém disposto a alistar-se voluntariamente.
Governo admite recuperar serviço obrigatório se voluntariado falhar
A nova política insere-se no objetivo de construir o exército mais forte da Europa. O chanceler Friedrich Merz já avisou que a defesa tem custos que devem ser partilhados pela sociedade. Nesta fase, o serviço mantém-se voluntário, mas o Governo prevê reinstalar a obrigatoriedade caso não haja voluntários suficientes.
O Estado oferece um salário mínimo bruto de 2.600 euros para atrair recrutas. Mas os jovens entrevistados rejeitam a ideia de incentivo económico. Um deles diz: “Não quero ir por dinheiro. Não é isso que muda a minha opinião.”
A evolução da guerra na Ucrânia e o aumento da tensão com a Rússia alimentam preocupações. Alguns veem o reforço militar como um alerta. Um dos estudantes resume: “Parece que estão a preparar-nos para algo que não querem dizer já.”
Nacionalidades diferentes, dilemas diferentes
O debate também mexe com quem tem múltiplas cidadanias. Em 2022 viviam na Alemanha cerca de 341 mil rapazes com cidadania alemã nascidos em 2008 — muitos com dupla ou tripla nacionalidade.
Khanukaev, com nacionalidades alemã, israelita e espanhola, não sente que pertença totalmente a qualquer país. “Não é por ter três passaportes que tenho de ir para o exército de um deles”, afirma.
Já Adrian Carrillo, que quer obter a nacionalidade alemã, diz sentir-se preparado para assumir responsabilidades: “Se quero ser alemão, também tenho de aceitar o que isso implica.”
A mãe, Kristina Svensson, prefere cautela e aconselha o filho a esperar pela estabilização geopolítica. Mas Adrian responde: “Não quero ficar à espera. Quero ter a nacionalidade.”














