A administração americana sinalizou ao presidente Volodymyr Zelensky que a Ucrânia deve aceitar uma nova proposta para pôr fim à guerra, uma iniciativa elaborada por responsáveis dos EUA e da Rússia e que exige concessões territoriais, militares e políticas por parte de Kiev. Segundo avançou a agência ‘Reuters’, a proposta foi transmitida esta semana aos responsáveis ucranianos, numa altura em que Zelensky enfrenta nova pressão interna e avanços russos no leste do país.
Proposta construída por emissários russos e americanos impõe renúncias decisivas
De acordo com o ‘Financial Times’, o plano está a ser estruturado por um grupo de responsáveis dos dois países, entre os quais Kirill Dmitriev, chefe do fundo soberano russo e aliado próximo de Vladimir Putin. Duas fontes familiarizadas com o processo afirmaram ao jornal que o documento inclui pontos que há muito são considerados linhas vermelhas por Kiev, desde a cedência do restante território do Donbass à redução para metade das forças armadas ucranianas.
A proposta foi apresentada em Miami pelo enviado especial do presidente dos EUA, Steve Witkoff, ao atual secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional da Ucrânia, Rustem Umerov. As mesmas fontes adiantaram que Witkoff transmitiu que Washington quer ver Zelensky aceitar os termos gerais, mesmo que estes representem uma renúncia de soberania e se alinhem com objetivos estratégicos de Moscovo.
Condições incluem corte militar, cedências territoriais e limitação de armamento ocidental
As três pessoas com conhecimento direto do documento garantiram ao ‘Financial Times’ que o plano estipula a retirada ucraniana de territórios ainda controlados por Kiev no Donbass e a suspensão da assistência militar dos EUA, decisiva para a defesa do país. O texto prevê ainda que nenhuma tropa estrangeira permaneça em solo ucraniano e que Kiev deixe de receber armas ocidentais de longo alcance capazes de atingir o interior da Rússia.
O plano exige também o reconhecimento do russo como língua oficial e o estatuto oficial da filial ucraniana da Igreja Ortodoxa Russa, reivindicações políticas alinhadas com os objetivos do Kremlin. Fontes próximas das negociações classificaram o documento como “fortemente tendencioso a favor da Rússia”, descrevendo-o como “muito confortável para Putin” e “absolutamente inaceitável para os ucranianos” em vários pontos.
Ainda assim, outra fonte citada pelo ‘Financial Times’ admitiu que Washington procura forçar Moscovo a clarificar as suas exigências “para que as negociações comecem de facto”, numa fase em que não existe diálogo presencial entre Kiev e Moscovo desde o encontro em Istambul, em Julho.
Pressão internacional coincide com fragilidade política interna em Kiev
Segundo a ‘Reuters’, a proposta chega num momento em que Zelensky lida com um escândalo de corrupção que levou o Parlamento a destituir os ministros da Energia e da Justiça. A situação tem alimentado dissidências dentro do partido do presidente e aberto espaço para pedidos de demissão do chefe de gabinete, Andriy Yermak, bem como para propostas de um Governo de unidade nacional.
A evolução política em Kiev, combinada com avanços militares russos e a continuação dos ataques que já duram quase quatro anos, reforçou a pressão externa para relançar as negociações de paz, embora Moscovo mantenha exigências máximas. Putin continua a defender que a Ucrânia abandone o objetivo de aderir à NATO e retire forças das quatro regiões que a Rússia reivindica como território próprio — exigências que Kiev continua a recusar.














