Mudam-se os tempos e muda-se a ética

Opinião de Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

Executive Digest
Dezembro 17, 2025
11:56

Por Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

A mudança tem sido um tema central para a gestão contemporânea. Enquanto na primeira metade do Séc. XX a mudança era lenta, deu-se uma aceleração na segunda metade desse século, enquanto agora a mudança é vertiginosa. Há quarenta anos, quando comecei a trabalhar, não havia telemóveis, nem emails, nem sequer o obsoleto fax. Os computadores eram de secretária, com uma capacidade, hoje, considerada ridícula e um preço exorbitante. Só passaram quarenta anos.

É evidente que devido à velocidade dos acontecimentos, as gerações atuais têm uma facilidade tecnológica incrível, enquanto, à medida que vamos subindo nas gerações, a dificuldade em lidar com estes assuntos é cada vez maior. Assiste-se por isso, por parte de muitas empresas, à procura de quadros cada vez mais jovens. Claramente, está-se a trocar experiência por aptidão tecnológica com todos os perigos que isso acarreta. O “fazer o que ainda não foi feito” das novas gerações não pode significar voltar a cair onde no passado errámos.



Mas o assunto a que quero chegar é mais complexo. É que juntamente com a mudança tecnológica existe outra mudança recente que acaba por ter um impacto muito maior. É a mudança nos valores, na ética, no viver em sociedade. Pior, não é uma mudança, mas muito mais uma aniquilação e anulação desses valores, da ética e do viver em sociedade que tínhamos como base estrutural da nossa sociedade e das nossas empresas. O sistema está a ruir por dentro: a ética passou a ser uma coisa personalizada, em que a opinião é mais forte que a razão e as redes sociais são mais importantes do que os factos científicos.

São inúmeros os exemplos disso com atropelos à verdade, com negações da ciência e a ultrapassagem de tudo aquilo que é aceitável em favor de uma lógica meramente económica e estritamente pessoal. Os líderes das empresas e dos países tomam decisões baseadas no interesse económico pessoal desafiando a ética e atropelando o bom senso e a vergonha.

E aqui entramos nós como fonte de mudança ou de resistência: não perder a capacidade de pensar e de analisar e, sobretudo, pensarmos nas gerações vindouras e no mundo que vamos deixar como herança. Nas palavras sábias do Prof. Pedro Ferro: “o que se pode talvez dizer é que o dinheiro – tal como o poder – “prova” a pessoa, coloca-a à prova, fazendo vir à superfície o seu melhor e o seu pior”. E a ética entra exatamente aqui.

Terminamos este ano com uma situação mundial que transcende tudo o que seja lógica e valores. Só posso desejar que o novo ano traga tudo de volta à normalidade e que possamos gerir as nossas empresas com verdadeira responsabilidade social e ética. O mundo pode mudar, mas a ética não.

 

 

 

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