O Governo e a Câmara Municipal de Lisboa não se entendem sobre a futura configuração da linha circular do Metropolitano e o tema dá mostras de fazer ‘descarrilar’ a tensão entre o Executivo de Montenegro e Carlos Moedas, ambos do PSD.
A recente apresentação do primeiro de 14 novos comboios da rede de metro, que representou um investimento de 115 milhões de euros decidido pelo anterior Governo, trouxe à tona as divergências políticas sobre a forma como o futuro mapa da rede deve ser organizado.
O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, esteve presente na cerimónia de apresentação e experimentou conduzir o novo comboio, congratulando-se com as melhorias que facilitam o acesso a pessoas com deficiência e os novos ecrãs que irão fornecer informações em tempo real aos passageiros. No entanto, o verdadeiro motivo de preocupação do ministro poderá ter sido o “futuro” diagrama da rede exibido nas carruagens, que inclui a controversa linha circular. Esta alteração, que prevê a ligação entre as estações do Cais do Sodré e Rato, com duas novas paragens (Santos e Estrela) em construção, poderá ser um desafio político significativo.
Carlos Moedas prometeu linha ‘em laço’ na corrida a Lisboa
O atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, posicionou-se contra a linha circular durante a sua campanha eleitoral, propondo uma alternativa, segundo recorda a CNN Portugal: transformar a futura linha circular numa linha em laço. No seu programa, Moedas defendeu a criação de uma linha que percorresse Odivelas, Campo Grande, Rato, Cais do Sodré, Alameda e regressasse a Campo Grande, sem necessidade de transbordo para quem vem de Telheiras ou Odivelas, especialmente durante as horas de ponta.
“A infraestrutura está preparada para as duas soluções, mas a decisão final será política”, afirmou Carlos Moedas, acrescentando que continuará a pressionar o Governo para implementar a sua proposta, pelo menos nos períodos de maior afluência. Ricardo Mexia, presidente da Junta de Freguesia do Lumiar, partilha desta visão e rejeita ao mesmo canal a ideia de uma solução mista, afirmando que a Alta de Lisboa não deve ser vista como um mero “dormitório” cujos residentes só precisariam de ligações rápidas ao centro durante as horas de ponta.
Quais são as opções em análise?
O futuro da linha circular está agora em suspenso até 2025, altura em que o ministro das Infraestruturas espera ter os resultados de um estudo técnico. Três cenários estão em cima da mesa: a linha circular fechada, como previsto na Resolução do Conselho de Ministros nº. 173/2018 do anterior Governo; a linha em laço, proposta por Carlos Moedas; ou uma solução híbrida, que combinaria ambas as opções.
A ideia de uma solução mista implica a coexistência de comboios que operariam num formato de “carrossel” (circular), enquanto outros sairiam dessa linha no Campo Grande, seguindo para Telheiras e Odivelas. Contudo, esta abordagem envolve riscos operacionais, como explicou Fernando Santos e Silva, ex-engenheiro responsável pela sinalização e controlo de tráfego do Metro de Lisboa. “Quando entrei para o Metro, havia uma regra sagrada: nenhum comboio muda de via com passageiros a bordo”, alertou. Cruzar comboios com passageiros poderia comprometer a segurança, especialmente em momentos de transição de rotas.
Além dos desafios de segurança, a operação mista exigiria um investimento substancial em sistemas de sinalização, estimado por Fernando Santos e Silva em cerca de 10 milhões de euros. Estes custos seriam acompanhados de uma maior complexidade na operação, uma vez que os comboios teriam de parar por mais tempo em estações como a Quinta das Conchas e Telheiras, antes de realizarem os cruzamentos, o que reduziria a eficiência da rede.
Do ponto de vista técnico, a operação autónoma da linha circular, com a linha amarela a funcionar em paralelo com apenas sete estações, eliminaria os riscos adicionais de sinalização. Contudo, esta solução levantaria um sério problema político, já que forçaria os passageiros das freguesias da Alta de Lisboa a realizar transbordos no Campo Grande, algo inédito na operação do metro. Para além disso, poderia intensificar o conflito entre a Câmara e o Governo, com eleições à vista.
Derrapagem de custos e erros de planeamento
As obras em curso já ultrapassaram os 500 milhões de euros, um valor que representa uma significativa derrapagem face ao inicialmente previsto. Caso a operação em laço seja a escolhida, embora possa apaziguar as tensões políticas, traria à tona erros de planeamento que marcaram o crescimento da rede ao longo dos anos.
Mário Lopes, professor no Instituto Superior Técnico, é contundente na sua crítica. “Os 20 a 40 milhões de euros gastos nos novos viadutos do Campo Grande foram dinheiro deitado ao lixo, porque não vão servir para nada”, afirmou, em declarações à CNN Portugal. Ricardo Mexia, por sua vez, corroborou esta posição, recordando que já tinham sido feitos avisos sobre a inutilidade de tais obras.














