O recurso a médicos prestadores de serviços tornou-se um negócio milionário que condiciona o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e pesa cada vez mais nas contas do Estado. Só este ano, até agosto, os cofres públicos já desembolsaram 230 milhões de euros, revelando a dimensão de um sistema que nasceu como solução temporária e se transformou numa engrenagem central do setor. Segundo a revista Sábado, a fatura é cada vez mais elevada, com multinacionais do recrutamento a liderarem contratos que valem dezenas de milhões.
Um caso recente ilustra bem a dependência dos hospitais destes profissionais. Em julho, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, anunciava com entusiasmo a chegada de uma equipa de especialistas privados para reforçar a urgência de obstetrícia do Hospital Garcia de Orta, em Almada. Mas a promessa gorou-se: a equipa não compareceu e, pouco depois, também os médicos prestadores de serviços contratados falharam turnos, deixando a urgência encerrada. Fontes hospitalares suspeitam de uma ação concertada para mostrar força num momento em que o Governo prepara medidas para limitar a entrada de novos prestadores no SNS.
Quando um médico à tarefa falha um turno, não sofre sanções: simplesmente não recebe. A carência de profissionais faz com que no dia seguinte possa regressar ao hospital sem qualquer penalização. “Não os podemos demonizar”, defende Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos, sublinhando que estes profissionais “sustentaram muitas urgências” nos últimos anos, mesmo quando deixaram consultas ou cirurgias por cumprir.
O negócio cresceu de forma exponencial. Criado durante o governo de José Sócrates como manobra orçamental para reduzir custos aparentes com carreiras médicas, o modelo foi reforçado na pandemia de Covid-19 e nunca mais recuou. Hoje, os turnos são alvo de uma autêntica disputa, com propostas que chegam a duplicar ou triplicar os valores pagos a médicos do quadro do SNS. Grandes empresas privadas arrecadam comissões entre 20% e 30%, numa estrutura que, segundo Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, gera “um sistema desequilibrado e com risco para a qualidade dos cuidados”.
As empresas dominam o mercado, acumulando contratos milionários. A Knower Projects, sediada em Carnaxide, é a que mais faturou ao longo dos últimos anos, com mais de 55 milhões de euros desde 2009. Só em 2025, o setor privado já assegurou contratos que representam cerca de 42 a 43% de toda a despesa com prestadores. Os restantes valores são pagos a médicos em regime unipessoal, muitos deles antigos especialistas do SNS que, ao abandonarem a carreira pública, aumentaram rendimentos e passaram a beneficiar de vantagens fiscais.
O impacto nos serviços é visível. Há hospitais que recorrem a estas empresas há mais de uma década, como a Unidade de Saúde do Tâmega e Sousa, que depende de contratos com a Clínica de Oftalmologia do Porto para atender uma população de mais de meio milhão de habitantes. Noutras unidades, médicos relatam falta de controlo sobre experiência clínica ou carga horária: no Hospital de Portimão, chegaram a estar escalados obstetras em turnos de 72 horas.
Apesar da dimensão do negócio, continuam a faltar dados públicos sobre custos e horários. “Não sei se faltam dados ou se simplesmente não são disponibilizados”, afirma Pedro Pita Barros, especialista em Economia da Saúde. Eduardo Costa, investigador do Instituto Superior Técnico, considera que “a ausência de informação dificulta a visão integrada sobre os verdadeiros custos com recursos humanos”.
A realidade é que, em 2010, o Estado gastava cerca de 91 milhões de euros com prestadores. Em 2024, o valor ultrapassou os 213 milhões e em apenas oito meses de 2025 já se gastaram mais de 230 milhões. O ministro das Finanças, Miranda Sarmento, mostra-se “muito apreensivo” com esta escalada, segundo fontes do Governo, enquanto Ana Paula Martins prepara um diploma para reduzir a dependência. A proposta pretende impedir que recém-especialistas ou médicos que abandonem o SNS possam recorrer de imediato a contratos de prestação de serviços.
As reações dividem o setor. A Federação Nacional dos Médicos considera que não é com penalizações que se resolve o problema, enquanto o Sindicato Independente dos Médicos e a Ordem defendem que a solução passa pelo investimento nas carreiras e na melhoria das condições de trabalho. Para Xavier Barreto, o desafio é claro: “O SNS precisa de todos, incluindo daqueles que atualmente são prestadores de serviço. Mas é preciso criar incentivos para que regressem às equipas de forma estável.”














