Viajar de avião já é, por si só, uma experiência fisicamente exigente — filas prolongadas, atrasos, ar seco na cabine e longos períodos sentado. Quando o passageiro não se sente bem, esse desgaste pode transformar-se num risco clínico real, tanto para a própria pessoa como para quem a rodeia.
Especialistas ouvidos pelo HuffPost alertam que determinados sintomas não devem ser ignorados e podem justificar o adiamento da viagem, sublinhando que um problema médico em pleno voo, a cerca de 10 mil metros de altitude, é muito mais difícil de gerir do que em terra.
Febre é sinal claro para não embarcar
Ter febre, definida como temperatura igual ou superior a 38 °C, é, para os médicos consultados, motivo suficiente para cancelar ou remarcar o voo.
O médico de urgência Jordan Wagner explica que, sobretudo quando acompanhada de arrepios, dores no corpo ou exaustão intensa, a febre indica que “o corpo está a combater ativamente uma infeção”. Nessas circunstâncias, o ambiente da cabine, marcado por ar seco e stress físico, favorece a desidratação rápida e pode agravar o estado geral.
Se a febre surgir associada a sintomas respiratórios, como tosse ou corrimento nasal, o risco de contágio aumenta. Sarah Dupont, médica de medicina familiar na Emory Healthcare, alerta que isso “torna mais provável a presença de um vírus contagioso mais grave, como gripe, COVID-19 ou RSV”, colocando outros passageiros em perigo e podendo comprometer a saúde coletiva durante a viagem.
Caso o voo seja absolutamente inevitável, os especialistas recomendam máscara de elevada filtragem (como KN95), higiene frequente das mãos e medicação sintomática previamente validada por um médico.
Vómitos e diarreia complicam segurança e higiene a bordo
Problemas gastrointestinais são igualmente desaconselhados em contexto de viagem aérea. Segundo Wagner, sintomas como vómitos ou diarreia são “extremamente difíceis de gerir num voo”, especialmente num espaço confinado e com acesso limitado a cuidados médicos.
Além do desconforto, podem provocar desidratação, tonturas e desequilíbrios eletrolíticos. Muitas destas infeções, como o norovírus, são altamente contagiosas.
Dupont acrescenta que a necessidade frequente de utilizar a casa de banho pode dificultar o cumprimento das normas de segurança e higiene durante o voo. Em casos ligeiros e de curta duração, alguns medicamentos de venda livre podem ajudar, desde que não existam contraindicações e mantendo cuidados rigorosos de lavagem das mãos.
Dificuldade respiratória é “inegociável”
Sentir falta de ar ou agravamento de doenças respiratórias deve ser encarado com particular seriedade. Wagner classifica esta situação como “inegociável”.
As cabines pressurizadas simulam altitudes elevadas, o que significa menor disponibilidade de oxigénio. “Se já há dificuldade em respirar, esse ambiente pode transformar um problema controlável numa emergência real”, explica.
Neha Pathak, médica e editora clínica, reforça que pessoas com asma ou doença pulmonar obstrutiva crónica em fase de agravamento devem adiar a viagem, já que os sintomas podem intensificar-se durante o voo.
Dor no peito pode indicar emergência cardíaca
A presença de dor torácica — sensação de aperto, pressão ou dor persistente — exige avaliação médica imediata. Pode estar associada a problemas graves do coração ou dos pulmões.
Wagner é direto: “Se está com dor no peito, não deve estar na porta de embarque, mas sim na urgência”. Quando acompanhada de náuseas, palpitações ou sudação, pode indicar enfarte do miocárdio.
Constipações ligeiras e alergias podem permitir viagem
Nem todos os sintomas obrigam a cancelar. Uma constipação ligeira, com congestão nasal moderada ou dor de garganta discreta, poderá permitir o voo, desde que o passageiro se sinta bem no geral, use máscara e mantenha cuidados de higiene.
Ainda assim, alterações de pressão durante a descolagem e aterragem podem agravar dores nos seios nasais e ouvidos. Descongestionantes, hidratação, mastigar pastilha elástica ou bocejar podem ajudar a aliviar o desconforto.
As alergias sazonais, quando controladas com medicação habitual e sem febre, são geralmente compatíveis com a viagem.
A regra prática antes de decidir
Para quem está indeciso, os médicos sugerem duas perguntas simples: a condição pode piorar num ambiente com menos oxigénio e maior stress? E seria possível lidar com o problema durante horas sem acesso imediato a cuidados médicos?
Como resume Wagner, “um voo atrasado é inconveniente, mas uma emergência médica a 35 mil pés é um problema muito maior”. Priorizar a própria saúde e a dos restantes passageiros continua a ser, segundo os especialistas, a decisão mais sensata.
Além disso, recomendam sempre contacto prévio com o médico assistente, sobretudo para pessoas com doenças crónicas cardíacas, pulmonares ou do sistema imunitário, ou após eventos recentes como enfarte, AVC ou colapso pulmonar. Quanto às alterações de viagem, as companhias aéreas podem oferecer crédito ou remarcação, dependendo do tipo de bilhete e de eventual seguro de viagem.







