Kremlin ‘esfrega as mãos de contente’: porque a Gronelândia serve os interesses de Putin na Ucrânia

Imprensa estatal russa destacou ainda que, caso a anexação se concretizasse, os Estados Unidos passariam a ser o segundo maior país do mundo em área territorial, apenas atrás da Rússia.

Francisco Laranjeira
Janeiro 20, 2026
13:36

Dias depois de Donald Trump ter invocado a ameaça russa como argumento para justificar a anexação da Gronelândia, o presidente dos Estados Unidos surpreendeu ao convidar Vladimir Putin para integrar o seu Conselho da Paz. A reação de Moscovo à estratégia americana tem sido tudo menos linear, revelando uma abordagem calculada para tirar partido das tensões entre aliados ocidentais.

Nas últimas semanas, o Kremlin alternou entre gestos de aparente empatia para com os habitantes da ilha ártica e um entusiasmo pouco disfarçado pelos esforços de Trump para integrar a Gronelândia nos Estados Unidos. Esta ambiguidade não é acidental. Segundo o jornal ‘POLITICO’, trata-se de uma estratégia deliberada para explorar a crise, enfraquecer a coesão ocidental e manter Washington distraído de outros dossiers sensíveis, em particular a guerra na Ucrânia.

Desviar atenções e aprofundar divisões na NATO

Após uma sucessão de iniciativas externas de Trump — desde a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro até à ameaça de intervenção no Irão — a Rússia parece ter colocado em segundo plano outras ambições geopolíticas, incluindo no Ártico. O objetivo passa por preservar uma relação funcional com Washington no contexto ucraniano, enquanto se aguarda que o conflito em torno da Gronelândia provoque fraturas internas na NATO e agrave as divergências entre os principais aliados de Kiev.

“Seria difícil imaginar algo assim a acontecer no passado”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, numa conferência de imprensa recente, manifestando desdém pelas cada vez mais reduzidas “perspetivas de preservar a NATO como um bloco político-militar ocidental unificado”.

A tensão em torno da Gronelândia já produziu efeitos visíveis. O tema relegou a guerra na Ucrânia para segundo plano no Fórum Económico Mundial de Davos, enquanto líderes europeus se apressaram a deslocar-se à estância alpina numa tentativa de conter a crise diplomática, de acordo com o ‘POLITICO’.

“A Gronelândia é a solução ideal”

A leitura dominante entre analistas próximos do Kremlin é clara. “A Gronelândia é a solução ideal”, escreveu Sergei Markov, comentador político pró-Kremlin, numa mensagem publicada no ‘Telegram’. Para Markov, o agravamento das tensões entre os Estados Unidos e a Europa pode funcionar como catalisador para o enfraquecimento da NATO, forçando a União Europeia a “parar a sua guerra contra a Rússia”.

Depois de anos a atacar o chamado “Ocidente coletivo”, a propaganda russa sugere agora que Moscovo pode limitar-se a observar os seus adversários a entrarem em conflito entre si. “O nosso princípio orientador é simples: deixem que se destruam mutuamente”, afirmou o comentador Vladimir Kornilov num programa televisivo, num tom assumidamente satisfeito.

Lavrov provoca, mas evita criticar Trump

Lavrov aproveitou a atenção mediática para lançar provocações adicionais. Rejeitando qualquer intenção russa sobre a Gronelândia, o chefe da diplomacia de Moscovo comparou a importância estratégica da ilha para os Estados Unidos à relevância da Crimeia para a Rússia, território ucraniano anexado em 2014.

“A Gronelândia não é uma parte óbvia da Dinamarca”, afirmou. “É uma conquista colonial. O facto de os seus habitantes estarem agora habituados a viver ali é outra questão. O problema das ex-colónias está a tornar-se cada vez mais sério.”

Apesar da retórica, Moscovo evitou cuidadosamente criticar Trump. Pelo contrário, classificou a sua iniciativa como “histórica”. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, citou especialistas não identificados que consideram que Trump “faria história” ao anexar a Gronelândia. “Independentemente de ser bom ou mau, é difícil discordar desses especialistas”, afirmou.

A imprensa estatal russa destacou ainda que, caso a anexação se concretizasse, os Estados Unidos passariam a ser o segundo maior país do mundo em área territorial, apenas atrás da Rússia.

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