A Polícia Judiciária (PJ) identificou salas online com símbolos nazis e discurso de ódio no Roblox, um dos jogos mais populares entre crianças e adolescentes em todo o mundo, frequentadas por menores portugueses. A descoberta surge no âmbito de investigações sobre radicalização juvenil e levou ao acompanhamento de pelo menos uma jovem de 14 anos.
Segundo Hugo Silva, inspetor-chefe da Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ, o jogo funciona como “um chamariz” e um espaço onde se faz “pesca de arrasto” para recrutar jovens. Dentro da plataforma, apontou o jornal ‘Público’, existem salas fechadas onde circulam avatares — cada um correspondente, supostamente, a uma criança — e onde são reproduzidas encenações de assembleias nazis, com púlpitos e bandeiras com suásticas.
Nesses espaços, descreve o responsável, é propagado discurso de ódio dirigido a pessoas negras e até a bebés. Mesmo quando não existe interação direta, a simples exposição a este conteúdo pode ter um efeito multiplicador significativo. “É o início. É uma porta de entrada”, alerta.
Recrutamento e radicalização a partir do jogo
Além das salas públicas ou privadas, cada utilizador tem acesso a chats privados, onde decorrem conversas de recrutamento e sedução. Muitas vezes, as crianças são encaminhadas para outras plataformas com menor controlo. O jogo permite ainda a oferta de moeda virtual, utilizada como forma de atrair menores para determinados grupos.
A PJ já criou perfis encobertos dentro do Roblox para perceber o funcionamento destes ambientes. A liberdade de criação de conteúdos e a possibilidade de construir mundos virtuais à medida do utilizador tornam a plataforma particularmente atrativa para menores e, simultaneamente, fértil para pessoas mal-intencionadas.
Apesar de o jogo estabelecer níveis de acesso consoante a idade declarada, não existe verificação documental, uma vez que é proibido solicitar cópias de documentos de identificação. Milhões de salas são criadas diariamente, o que torna o controlo praticamente impossível.
Comunidades extremistas e “violência como serviço”
O caso que levou a PJ a aprofundar a investigação envolveu uma jovem portuguesa de 14 anos já em processo de radicalização e a tentar influenciar terceiros. A partir da identificação de um endereço IP nacional numa comunidade designada “Com”, as autoridades chegaram à menor, que foi sujeita a uma medida tutelar educativa e está a ser acompanhada a nível psicológico.
Estas comunidades defendem a lógica de “violência como serviço”, promovendo agressões contra terceiros, contra os próprios membros e até contra animais. Segundo a PJ, trata-se de um fenómeno em expansão na Europa, frequentemente associado à partilha de conteúdos violentos, pornografia infantil e cultos satânicos.
A radicalização online pode depois transpor-se para o mundo real, com organização de encontros presenciais, combates, eventos desportivos e até treinos de cariz paramilitar, envolvendo dezenas ou centenas de participantes de várias idades.
Menores cada vez mais envolvidos
De acordo com dados da Europol relativos a 2024, quase 30% dos detidos por extremismo violento na União Europeia eram menores ou jovens adultos, sendo o mais novo apenas 12 anos. A maioria dos casos estava relacionada com terrorismo de matriz jihadista, seguindo-se a extrema-direita e outras formas de extremismo violento.
No final do ano passado, o Governo aprovou um diploma que cria um regime específico de contra-ordenações para plataformas digitais que não removam conteúdos terroristas. A PJ passa a ter competência para emitir ordens de retirada de conteúdos, sujeitas a validação judicial. No caso de conteúdos extremistas, poderá ser emitida uma ordem de referenciação, embora sem obrigatoriedade automática de remoção.
Ainda assim, o inspetor sublinha que a disseminação online é quase instantânea e dificilmente compatível com os tempos processuais. Quanto a soluções, considera que proibições ou restrições etárias não são suficientes. Defende antes a sensibilização direta de crianças e jovens para os riscos associados à utilização destas plataformas.
A campanha “O ódio online mata offline”, lançada pela PJ, pretende precisamente mobilizar pais, educadores e comunidade para identificar sinais de alerta e agir antes que os processos de radicalização se consolidem.







