Em setembro o Iscte começou a instalar o maior banco de testes de fibra ótica multi-núcleo do mundo na Linha Amarela do Metro de Lisboa. Pela primeira vez, será possível analisar o desempenho da transmissão de dados através desta nova geração de fibra em condições reais, replicadas pelo ambiente adverso de uma linha de metro. As fibras são concebidas e fabricadas pelo parceiro industrial do projeto, o grupo alemão Heraeus Covantics, líder global em produtos de quartzo de alta pureza para a produção de fibra ótica.
Hoje 99% da transmissão mundial de dados, cruzando continentes e oceanos, é feita em cabos com fibras óticas de um só núcleo. No entanto, o “test bed” que o Iscte vai instalar em Lisboa terá um cabo com 74 fibras óticas multi-núcleo: 64 delas com quatro núcleos e dez fibras com sete núcleos, totalizando 326 canais de transmissão de dados. Como as fibras serão ligadas entre si, estas atingirão os 728 quilómetros que representam 28 voltas completas ao longo de 26 quilómetros de anel, uma vez que a Linha Amarela tem 13 quilómetros entre a estação do metropolitano em Odivelas e a estação do Largo do Rato, no centro da capital. Os testes e demonstrações de transmissão de dados serão coordenados pelo Iscte nestas centenas de quilómetros de fibras embutidas no cabo de testes (ver site do Test Bed em anexo).
Para além das fibras de nova geração doadas pelo Heraeus Covantics, o valor do projeto é de 2,3 milhões de euros: 588 mil euros de verbas europeias vêm do Programa Lisboa 2030 e o restante de verbas próprias do Iscte. A instalação das fibras iniciou-se a 1 de setembro e ficará concluída antes do final de 2025, com os testes operacionais a decorrerem durante todo o ano de 2026.
O banco de testes será inaugurado no dia 3 de novembro, pelas 09:30 com a participação do ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida. Após a sessão no edifício Iscte Conhecimento e Inovação (Avenida da Forças Armadas, nº 40, em Lisboa) haverá uma visita técnica à Estação da Cidade Universitária, um dos pontos onde os equipamentos estarão visíveis para demonstração.
O investimento global na nova geração de fibras multi-núcleo foi avaliado pela Business Research em 4,5 mil milhões de dólares em 2025, prevendo-se que atinja os 40 mil milhões em 2033, mantendo uma taxa de crescimento média anual de 32,3% entre 2025 e 2033 (ver estudo de mercado em anexo). Para além dos alemães do Heraeus Covantics, são parceiros no banco de ensaios do Iscte a Telcabo, empresa instaladora do cabo de fibra multi-núcleo, e o grupo italiano Tratos Cavi, responsável pelo cabo que envolve as fibras multi-núcleo.
“Este banco de ensaios terrestre transformará Portugal num centro mundial de telecomunicações óticas, atraindo investimentos em tecnologias de comunicação, em Inteligência Artificial e em transformação digital”, afirma Jorge Costa, vice-reitor do Iscte para a Investigação. “O Iscte e o país vão atrair investigadores de todas as partes e produção científica de alta qualidade, assim como investimento de operadoras globais como a norte-americana AT&T, a Deustche Telekom ou a Vodafone, que estão em fase de investimento para aumentar a capacidade das suas redes: tudo isto significa empregos altamente qualificados que vão ter a sua sede em Lisboa”. Também gigantes como a Google ou a Meta virão a Lisboa para testarem produtos novos adaptados ao aumento de capacidade proporcionado pelas fibras multi-núcleo.
De acordo com o vice-reitor do Iscte, o banco de testes terá impacto direto no posicionamento internacional de Portugal na área das comunicações óticas. “Ao combinarmos investigação aplicada com a sua validação em contexto real, criamos um espaço único para a colaboração entre a indústria, a universidade e centros tecnológicos”, afirma Jorge Costa. “O nosso objetivo é que Lisboa se torne um ponto de referência para o desenvolvimento, teste e demonstração de novas gerações de redes óticas. É essa massa crítica que atrairá talento qualificado para as empresas e a academia nacionais, reforçando a capacidade de inovação da economia portuguesa”.
Os testes no Iscte vão eliminar obstáculos que as empresas enfrentam quando querem experimentar novas tecnologias – sejam plataformas mundiais ou startups com propostas disruptivas. “Qualquer empresa, seja qual a for a sua dimensão, poderá acelerar o desenvolvimento de produtos e reduzir o tempo entre a fase de investigação e a entrada no mercado se fizerem testes em Portugal”, afirma o vice-reitor Jorge Costa. “O país beneficiará diretamente do impacto do investimento internacional na tecnologia que for testada em Lisboa”, sublinha o vice-reitor do Iscte.
Testes no Iscte vão saltar de 66 para 728 quilómetros
A dimensão do “test bed” de Lisboa será incomparavelmente maior do que as instalações em funcionamento noutras paragens do mundo. Exemplos: o banco de ensaios instalado em L’Aquila, no sul de Itália, tem cabo estendido num percurso em anel de seis quilómetros, permitindo fazer testes com extensões até 66 quilómetros. Na China o cabo estendido tem 16 quilómetros, no Japão três quilómetros. Em qualquer destes bancos de ensaios terrestres, a questão é: será que diferentes quantidades de núcleos incluídos nas mesmas fibras se irão comportar da mesma forma que em fibras de um só núcleo?
“O Heraeus Covantics mostrou uma grande visão estratégica ao aceitar o desafio do Iscte para investir num banco de ensaios gigante onde, ao contrário dos laboratórios, os testes são feitos em ambiente real”, afirma Adolfo Cartaxo, docente do Iscte, investigador do Instituto de Telecomunicações e responsável técnico por este projeto. “Nos túneis de uma linha de metro em operação os cabos vão estar sujeitos a vibrações, a variações de temperatura, a humidade, a ruído e a movimento constante”. Como na vida real as redes de comunicações não operam em condições ideais, “este projeto permitirá testar a fibra ótica num cenário realista, com interferências físicas semelhantes às que se encontram em ambientes subterrâneos, nos diversos continentes”, afirma Adolfo Cartaxo. “São estas condições, e não as de laboratório, que vão determinar a fiabilidade e a longevidade da tecnologia que vai ser testada”.
Em Lisboa, a infraestrutura de ensaios do Iscte também permitirá testar outros equipamentos necessários às redes multi-núcleo – como emissores, recetores ou amplificadores óticos – os quais permitem que a informação que circula nas fibras não perca qualidade ao longo dos milhares de quilómetros das suas extensões.
Infraestrutura “está a chegar ao limite”
O tráfego de dados tem aumentado todos os anos devido ao crescimento acelerado da digitalização e da transmissão de dados entre pessoas, serviços e máquinas. As visualizações em alta-definição, a utilização de aplicações cada vez mais exigentes e, sobretudo, a comunicação permanente exigida pela Inteligência Artificial, pelos sistemas de aprendizagem automática e pela geração de conhecimento, vão fazer o tráfego aumentar ainda mais no futuro próximo.
“Este projeto nasce da constatação que a infraestrutura de comunicação atualmente instalada está a chegar ao seu limite físico”, afirma Adolfo Cartaxo. “O crescimento exponencial do tráfego de dados no médio prazo é uma evidência e não é sustentável fazê-lo com base na tecnologia convencional de fibras mono-núcleo”, explica. Segundo o investigador do Instituto de Telecomunicações do Iscte, “com a fibra multi-núcleo, torna-se possível aumentar substancialmente a capacidade de transmissão de dados sem exigir mais espaço físico, o que é particularmente relevante para as infraestruturas existentes”. De acordo com Adolfo Cartaxo, “este banco de ensaios cria condições únicas para estudar e validar a nova tecnologia de fibras óticas em condições reais, numa escala e num contexto que não está montado em mais nenhum lugar do mundo”.
O ponto de partida das fibras será o edifício do Iscte, onde vai ficar localizado o laboratório de monitorização dos testes. Dali, as fibras seguirão para um respirador do metro junto ao campus do Iscte, o qual liga diretamente aos túneis do Metropolitano de Lisboa: será aí que as fibras começarão a ser estendidas entre Odivelas e o Largo do Rato.














