Vítimas colaterais da guerra no Médio Oriente, pelo menos 11 petroleiros já foram atacados no estreito de Ormuz desde o início da ofensiva israelo-americana contra o Irão, fazendo pairar a ameaça de uma maré negra.
O mesmo aconteceu em janeiro de 1991 durante a Guerra do Golfo, quando o Iraque de Saddam Hussein, em retirada, provocou uma catástrofe ecológica, depois de ter ameaçado incendiar a Península Arábica.
Chamas gigantescas, operários cobertos de petróleo a tentar, exaustos, estancar jatos de petróleo: o caos resultante foi imortalizado pelo fotógrafo franco-brasileiro Sebastião Salgado, na série “Kuwait, um deserto em chamas”.
Com o fracasso dos planos de anexação do Kuwait e enquanto o exército recuava perante a operação “Tempestade no Deserto”, sob comando norte-americano, Saddam Hussein tentou infligir o máximo de danos à indústria petrolífera do pequeno emirado.
Entre 700.000 e 900.000 toneladas de hidrocarbonetos (cinco a 6,5 milhões de milhões de barris) foram na altura derramadas no mar.
Trata-se da “maior maré negra da história humana”, segundo o Cedre, centro de investigação francês que é referência em poluição das águas, citado pela agência de notícias France-Presse (AFP).
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos apresenta uma estimativa ainda mais elevada, entre seis e oito milhões de barris, ou seja, até um milhão de toneladas.
A principal fonte de poluição foi o terminal ‘offshore’ de Mina al-Ahmadi, situado a cerca de 15 quilómetros da costa kuwaitiana, cujas válvulas foram abertas pelas forças iraquianas em 26 de janeiro de 1991.
A estas somaram-se as cargas de cinco navios iraquianos, incluindo três petroleiros, voluntariamente destruídos ao largo da Cidade do Kuwait uma semana antes.
Uma terceira fonte de poluição, menos importante, proveio do bombardeamento iraquiano de reservatórios ao largo do porto saudita de Ras al-Khafji, a 30 quilómetros a sul da fronteira com o Kuwait.
Foram também provocados incêndios nas instalações de Shuaiba, perto da Cidade do Kuwait, e no campo petrolífero de Wafra, na zona neutra entre o Kuwait e a Arábia Saudita.
Ao pesado balanço humano da primeira Guerra do Golfo, com estimativas de centenas de milhares de mortos, sobretudo do lado iraquiano, somou-se o balanço ecológico.
Segundo o Cedre, a maré negra matou pelo menos 30.000 aves marinhas, provocou uma “sobremortalidade de peixes” e afetou quase 50% dos corais.
Também foram afetadas “centenas de quilómetros quadrados de florestas de algas, inundadas pelas manchas de petróleo”.
As tartarugas foram igualmente atingidas, já que estavam habituadas a reproduzir-se nas ilhas ao largo do Kuwait e acabaram por ficar presas no petróleo.
Estados Unidos e Israel têm em curso desde 28 de fevereiro uma ofensiva militar de grande escala contra o Irão, que causou cerca de 1.300 mortos até agora, maioritariamente iranianos.
O guia supremo da República Islâmica, o ‘ayatollah’ Ali Khamenei, foi morto no primeiro dia da ofensiva e já foi oficialmente substituído como líder dos xiitas pelo filho, Mojtaba Khamenei.
O Irão respondeu à ofensiva com ataques contra os países da região e o bloqueio do estreito de Ormuz, uma via marítima fundamental para escoar o petróleo e o gás natural produzidos na região.
A nova guerra no Golfo Pérsico faz recear uma crise económica global, dadas as repercussões nos mercados, com os preços do petróleo a registar hoje subidas históricas e a ultrapassar os 100 dólares por barril.





