Irão. Ucrânia pode fornecer drones para defender aliados dos EUA no Médio Oriente

As conversações iniciais estão a decorrer ao nível governamental e ainda não envolvem empresas privadas. Em discussão estão sistemas tecnológicos concebidos pela Ucrânia para detetar drones inimigos e interferir nos seus sinais de comunicação, permitindo neutralizá-los antes de atingirem os alvos

Francisco Laranjeira
Março 6, 2026
10:58

Os Estados Unidos e o Qatar estão em negociações com a Ucrânia para a eventual aquisição de drones intercetores desenvolvidos por Kiev, capazes de abater drones Shahed de origem iraniana. A informação foi avançada pelo ‘Kyiv Post’, citando dados divulgados pela agência ‘Reuters’ e fontes próximas do processo.

As conversações iniciais estão a decorrer ao nível governamental e ainda não envolvem empresas privadas. Em discussão estão sistemas tecnológicos concebidos pela Ucrânia para detetar drones inimigos e interferir nos seus sinais de comunicação, permitindo neutralizá-los antes de atingirem os alvos.



As conversações refletem o crescente interesse internacional nas soluções ucranianas de defesa contra drones, desenvolvidas ao longo da guerra com a Rússia.

O próprio presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou recentemente que os Estados Unidos solicitaram ajuda a Kiev para lidar com os drones Shahed utilizados em ataques no Médio Oriente. Citado pelo ‘Kyiv Post’, o chefe de Estado disse ter dado instruções para que os recursos necessários sejam disponibilizados e para que especialistas ucranianos participem no esforço de reforço da segurança, sem revelar detalhes adicionais sobre o possível uso de drones intercetores.

Zelensky indicou também que outros países da região manifestaram interesse em tecnologias semelhantes. No entanto, sublinhou que qualquer acordo internacional só avançará se não comprometer a capacidade da Ucrânia de se defender da invasão russa.

Fontes diplomáticas citadas pelo ‘Kyiv Post’ indicam que uma delegação ucraniana viajou recentemente para Doha para reuniões com autoridades do Qatar, com o objetivo de partilhar experiência no combate a drones. A mesma fonte revelou que representantes ucranianos estiveram igualmente em Abu Dhabi para encontros semelhantes.

O interesse na tecnologia de Kiev surge num momento de forte escalada militar no Médio Oriente. O Irão lançou centenas de mísseis e drones contra países do Golfo após uma campanha aérea conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra alvos iranianos. A maioria desses ataques foi intercetada com sistemas de defesa aérea Patriot PAC-3 de fabrico americano, utilizados também pela Ucrânia para proteger infraestruturas energéticas e militares de ataques russos.

Apesar da eficácia desses sistemas, o seu custo elevado tem levado os aliados dos EUA a procurar alternativas mais baratas. Cada míssil de defesa aérea pode custar milhões de dólares, enquanto a Ucrânia desenvolveu soluções significativamente mais económicas para neutralizar drones kamikaze Shahed.

Durante os quatro anos de guerra com a Rússia, Kiev aperfeiçoou métodos de defesa contra estes drones de fabrico iraniano, utilizados de forma intensiva por Moscovo. Segundo dados citados pelo ‘Kyiv Post’, apenas neste inverno a Rússia lançou cerca de 19 mil drones de longo alcance contra território ucraniano, sendo a maioria abatida pelas defesas do país.

Ao mesmo tempo, as autoridades ucranianas procuram controlar a exportação de tecnologia militar. Após o início do conflito envolvendo o Irão, o serviço de segurança ucraniano alertou empresas do país para não venderem armas a países do Médio Oriente sem autorização do Governo.

Entretanto, Zelensky revelou ter mantido conversas recentes com líderes dos Emirados Árabes Unidos, do Qatar, do Bahrain, da Jordânia e do Kuwait, embora sem divulgar pormenores sobre os temas discutidos.

A pressão sobre as defesas aéreas na região continua elevada. Desde o início do conflito com o Irão, os Estados Unidos e os seus aliados do Golfo já utilizaram centenas de mísseis de defesa aérea para intercetar ataques, o que tem aumentado o interesse em soluções mais baratas e tecnologicamente adaptadas à guerra moderna contra drones.

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