As relações amorosas transformaram-se radicalmente nas últimas décadas, impulsionadas pelas redes sociais, pelas aplicações de encontros e pelo avanço do feminismo. A psicóloga Lidia Alvarado, especializada em relações de casal, sublinha ao ABC que as mulheres estão hoje «mais empoderadas e procuram maior igualdade nas relações», o que obrigou a um reajuste nas dinâmicas de poder dentro dos casais. Para além disso, há também «maior diversidade nos tipos de relação», o que inclui casais do mesmo sexo e interculturais.
Estas mudanças refletem-se não só nas dinâmicas amorosas, mas também no vocabulário que passou a descrever comportamentos problemáticos nos relacionamentos. Muitos destes comportamentos sempre existiram — desaparecer sem explicações, manipular emocionalmente, manter contactos ambíguos — mas agora têm nomes, geralmente em inglês, que os tornaram visíveis: ghosting, gaslighting, love bombing, breadcrumbing, hoovering, orbiting, benching…
Ghosting: o desaparecimento sem explicação
O termo ‘ghosting’ deriva de “ghost” (fantasma) e descreve o ato de alguém desaparecer repentinamente de uma relação, sem qualquer explicação. Antes da era digital, talvez se dissesse que alguém «foi comprar tabaco e nunca mais voltou». Hoje, o fenómeno tem nome, e é comum entre jovens que cresceram com o telemóvel como extensão do corpo.
A psicóloga Alejandra de Pedro, especializada em relações e com mais de 480 mil seguidores no TikTok, explica: «A alguém que já tem dificuldade em fazer uma chamada telefónica, vai custar ainda mais rejeitar alguém de forma amigável. Prefere evitar o confronto, deixar a mensagem sem resposta, apagar o contacto, bloquear…».
Este padrão de evitamento é frequente entre as gerações mais jovens, que tendem a fugir do desconforto emocional. Mas o impacto para quem sofre o ghosting pode ser grave: sentimentos de rejeição, confusão, ansiedade e baixa autoestima são comuns.
Gaslighting: manipular até distorcer a realidade
Outro termo agora popularizado, sobretudo pela geração Z, é ‘gaslighting’. Embora o conceito seja antigo — tem origem no filme “Gaslight” (1944), de George Cukor —, só recentemente ganhou notoriedade para descrever um tipo de abuso psicológico. Trata-se de manipular alguém ao ponto de a levar a duvidar da própria sanidade mental, questionando constantemente a sua memória e percepção da realidade.
De Pedro alerta que este comportamento pode ser devastador: «É um tipo de descrédito sistemático dos sentimentos e recordações da vítima, feito de forma subtil, mas contínua».
Love bombing e breadcrumbing: atenção excessiva ou migalhas emocionais
As apps de encontros como o Tinder popularizaram também outras estratégias tóxicas. O ‘love bombing’, ou bombardeamento amoroso, descreve o acto de encher alguém de atenção e carinho no início da relação com o intuito de o manipular emocionalmente — para depois se afastar, deixando a vítima dependente da validação inicial.
Já o ‘breadcrumbing’ pode ser entendido como “dar migalhas”: gestos de carinho esporádicos, mensagens ambíguas, promessas vagas, sem verdadeira intenção de construir um vínculo emocional. É uma forma de manter o outro interessado sem compromisso.
Orbiting, benching e hoovering: manter por perto sem investir
Três outros termos descrevem comportamentos igualmente comuns na era digital. ‘Orbiting’ consiste em manter uma presença ambígua na vida digital de alguém — visualizando stories, deixando likes — mas sem contacto direto. É uma forma de se manter visível sem se envolver.
‘Benching’ (do inglês “bench”, banco de suplentes) designa o acto de manter alguém “em espera”, depois de iniciar um contacto, sem desenvolver a relação nem encerrá-la. E ‘hoovering’ (inspirado na marca de aspiradores Hoover) descreve tentativas manipuladoras de retomar contacto com uma ex-parceira ou ex-parceiro, muitas vezes depois de um ghosting ou de um afastamento problemático.
Exigentes, impacientes, inseguros
A era digital trouxe maior exigência nos relacionamentos, mas também menor tolerância à frustração. «Comparamo-nos constantemente com outras relações que vemos nas redes, o que gera expectativas perfeccionistas. Mas esquecemos que relações saudáveis se constroem com tempo e esforço», alerta Alejandra de Pedro.
A pressão para estar informado sobre todos os sinais de alarme (‘red flags’) pode, paradoxalmente, dificultar a escuta do próprio instinto. «Os jovens sabem identificar uma relação tóxica, sabem o que evitar, mas não sabem ouvir-se a si mesmos», diz a psicóloga.
Apesar da multiplicação de termos, Lidia Alvarado acredita que não estamos mais tóxicos do que antes. Apenas há hoje uma maior consciência, visibilidade e capacidade de nomear comportamentos que antes passavam despercebidos ou eram ignorados.
Os novos termos que descrevem comportamentos tóxicos nas relações não representam uma nova realidade, mas sim uma nova linguagem para o que sempre existiu. As relações amorosas continuam a ser complexas, exigentes e cheias de nuances. E se é verdade que o amor “à primeira vista” se transformou em amor “ao primeiro match”, os desafios emocionais permanecem, agora com nomes mais sofisticados — e talvez com menos desculpas para serem ignorados.














