Por Ana Gonçalves, Fundadora e CEO da Academia Negócios de Saúde
O setor da saúde vive num paradoxo. Se, por um lado, é uma área essencial, com impacto direto na vida das pessoas, por outro, enfrenta uma pressão económica crescente que ameaça a capacidade de cumprir a sua própria missão. A discussão sobre custos, preços e margens tornou‑se central, mas descura um aspeto fundamental, de que o problema não está apenas nos números, antes na forma como os negócios da saúde são geridos.
Durante anos, o setor habituou‑se a trabalhar em torno de uma cultura que valoriza a vocação, em detrimento da sustentabilidade. O resultado é um ecossistema que integra profissionais exaustos, equipas no limite e gestores em permanente tensão financeira. Um modelo sem futuro, que já não aguenta o presente.
Há um fator inegável, o aumento dos custos operacionais. Desde logo, por via de uma tecnologia mais dispendiosa, complexidade nas exigências regulatórias, maior procura por serviços especializados, também por via do envelhecimento das populações. Mas não nos podemos cingir aos custos, quando tantas vezes se verifica uma ausência de planeamento estratégico. A falta de uma visão de médio e longo prazo e de uma cultura de gestão profissionalizada trazem impactos dramáticos.
Outro aspeto a considerar prende-se com a ideia, profundamente enraizada, de que falar de dinheiro na saúde é quase um tabu. Como se a preocupação com contas equilibradas fosse incompatível com a missão de cuidar
A realidade é exatamente o oposto. Sem sustentabilidade financeira não há investimento em equipamentos modernos. E, ao nível dos profissionais, limita a formação contínua, bem como a capacidade de atrair e reter talento. Como resultado, dificilmente são pagos salários dignos, identificam-se lacunas tecnológicas e as condições de trabalho não fazem jus às necessidades de profissionais e clientes.
Outro aspeto a mitigar, a narrativa em torno do espírito de missão dos profissionais da saúde, usada, consciente ou inconscientemente, para normalizar condições de trabalho que seriam inaceitáveis noutros setores. A vocação não pode legitimar horários excessivos, equipas reduzidas, salários desajustados, falta de descanso, ausência de progressão, burnout generalizado.
E, quando a gestão vive permanentemente sob pressão, o problema deixa de ser individual e torna‑se estrutural. Porque bons líderes têm de ser capazes desenvolver um negócio com contas equilibradas, cuidado em relação às suas pessoas e uma entrega de valor real aos clientes que em si confiam, por via de uma investimento contínuo na melhoria e planeamento do futuro com rigor e responsabilidade.
Em suma, cuidar da saúde também é cuidar da gestão. A pergunta “Sustentabilidade ou pressão económica” é, na verdade, uma falsa escolha. A sustentabilidade é a única resposta possível à pressão económica. E a gestão profissional é o caminho para lá chegar. Se queremos um setor da saúde capaz de servir a população com qualidade, dignidade e inovação, temos impreterivelmente de abandonar modelos de sobrevivência e abraçar modelos de sustentabilidade. Certos de que a saúde não pode ser apenas vocação. Tem de ter Visão transversal e de futuro.




