Furacão ‘Melissa’ é um alerta? Tempestades violentas estão a apanhar o mundo de surpresa

Especialistas alertam que o que torna ‘Melissa’ particularmente perigoso não é apenas a sua força, mas a rapidez com que se intensificou

Francisco Laranjeira
Novembro 1, 2025
11:30

O furacão ‘Melissa’ atingiu a Jamaica com intensidade histórica, tornando-se o primeiro ciclone de categoria 5 a atingir a ilha. Com ventos de até 270 km/h e chuvas torrenciais, a tempestade provocou destruição significativa e elevou o alerta para os impactos do aquecimento global sobre furacões.

Especialistas alertam que o que torna ‘Melissa’ particularmente perigoso não é apenas a sua força, mas a rapidez com que se intensificou. Em apenas um dia, a tempestade passou de moderada a furacão de grande intensidade, fenómeno conhecido como “intensificação rápida”, que se torna cada vez mais frequente devido às alterações climáticas.

Segundo os meteorologistas, prever este tipo de intensificação continua a ser um grande desafio, relataram Alexandre Baker, cientista investigador do Centro Nacional de Ciências Atmosféricas, e Liz Stephens, professor de Riscos Climáticos e Resiliência, ambos da Universidade de Reading, num artigo no site ‘The Conversation’. A precisão das previsões depende de um monitorização detalhado do núcleo do furacão, especialmente próximo à parede do olho, e de modelos computacionais avançados que consigam capturar a complexidade da tempestade. Técnicas de inteligência artificial podem ajudar, mas ainda carecem de testes abrangentes.

A intensificação rápida deixa comunidades com pouco tempo para evacuar e reduz a capacidade das autoridades de preparar infraestrutura crítica e abrigos de emergência. Fenómenos semelhantes ocorreram com o furacão ‘Otis’ no México, em 2023, e o tufão ‘Rai’ nas Filipinas, em 2021, provocando centenas de mortes.

No caso de ‘Melissa’, a previsão de atingir a categoria 5 foi possível porque a tempestade se deslocava lentamente em direção à Jamaica, permitindo algum tempo de preparação.

Fatores que alimentam a intensificação

Para que ocorra a intensificação rápida, é necessário um conjunto específico de condições: alta humidade, baixo cisalhamento do vento e temperaturas elevadas da superfície do mar. Estudos indicam que, desde a década de 1980, os mares mais quentes e a atmosfera mais húmida têm tornado estas condições mais comuns, um efeito atribuído às alterações climáticas provocadas pelo homem.

No caso de ‘Melissa’, as temperaturas da superfície do mar estavam mais de um grau acima do normal, aumentando a energia disponível para a tempestade. A elevação do nível do mar agravou os impactos das ondas e das inundações costeiras, enquanto a lentidão do furacão intensificou o volume de precipitação, estimado em até um metro nas regiões montanhosas da Jamaica.

Pesquisas sugerem que as alterações climáticas também podem reduzir a velocidade de deslocamento dos ciclones, prolongando o tempo de exposição das áreas afetadas e aumentando as chuvas. Simulações feitas por cientistas da Universidade de Reading confirmam que furacões semelhantes ao passado provocariam agora precipitações significativamente maiores.

Riscos crescentes com o aquecimento global

A tendência de tempestades se intensificarem rapidamente contribui para que mais furacões atinjam categorias extremas, aumentando o risco de danos e vítimas. Especialistas reforçam a necessidade de aprimorar modelos de monitorização e previsão, além de reforçar a preparação de equipes de emergência, dada a curta janela de tempo para resposta.

O furacão ‘Melissa’ evidencia os perigos crescentes de fenómenos climáticos extremos: tempestades mais rápidas e intensas, combinadas com mudanças nos padrões de chuva e aumento do nível do mar, tornam cada vez mais urgente a adaptação das comunidades e sistemas de proteção civil.

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