Donald Trump voltou a manifestar a intenção de colocar a Gronelândia sob controlo dos Estados Unidos, apesar de o território pertencer à Dinamarca e de a maioria da população local rejeitar a integração nos EUA. Embora uma intervenção militar direta seja vista como improvável, responsáveis europeus admitem que existe um caminho político e estratégico que pode levar Washington a reforçar a sua influência sobre a ilha ártica, segundo uma análise do jornal ‘POLITICO’.
A estratégia da administração Trump levanta preocupações entre aliados europeus por apresentar semelhanças com métodos de expansão usados pela Rússia noutras regiões. A Gronelândia, território semiautónomo do Reino da Dinamarca, tem importância geoestratégica crescente e é rica em recursos minerais, fatores que explicam o interesse persistente de Washington.
A primeira etapa passaria por incentivar o movimento independentista gronelandês. Após a tomada de posse, a Administração Trump começou a defender publicamente a independência da Gronelândia, uma condição que permitiria ao território celebrar acordos diretos com os EUA sem a aprovação de Copenhaga. Uma sondagem realizada em 2025 indicou que 56% dos gronelandeses votariam a favor da independência, enquanto 28% se oporiam, embora a esmagadora maioria rejeite a anexação aos Estados Unidos.
Relatos da imprensa dinamarquesa referem operações de influência conduzidas por americanos com ligações a Trump, levando os serviços de segurança da Dinamarca a alertarem para campanhas destinadas a moldar a opinião pública no território. Especialistas ouvidos pelo ‘POLITICO’ traçam paralelos com táticas usadas pela Rússia, combinando ações no terreno com campanhas digitais destinadas a amplificar determinadas posições e criar uma perceção de inevitabilidade política.
Paralelamente, a Casa Branca reforçou os sinais políticos. Trump criou o cargo de enviado especial para a Gronelândia e nomeou o governador da Louisiana, Jeff Landry, com o objetivo declarado de integrar o território nos EUA. Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto do presidente, afirmou que ninguém entraria em conflito militar com os EUA por causa do futuro da Gronelândia, enquanto o vice-presidente JD Vance defendeu publicamente o princípio da autodeterminação, expressando a expectativa de que os gronelandeses optem por uma associação com Washington.
Caso a independência venha a concretizar-se, o passo seguinte seria colocar a Gronelândia sob a esfera de influência americana. A hipótese de anexação como estado foi rejeitada pela maioria da população local e mereceu críticas de Copenhaga, mas surgem alternativas como um Pacto de Livre Associação, semelhante aos acordos que os EUA mantêm com outros Estados do Pacífico. Este modelo garantiria proteção e apoio económico em troca de uma presença militar alargada.
Mesmo entre defensores da independência, há cautela quanto às negociações com Trump. Especialistas alertam que a assimetria de poder colocaria a Gronelândia numa posição vulnerável, sublinhando o risco de acordos desfavoráveis para a população local e a fragilidade de compromissos assumidos por Washington.
A terceira etapa envolveria a Europa. Diplomatas admitem que os aliados da Dinamarca resistiriam a uma separação forçada, mas receiam que os EUA utilizem a guerra na Ucrânia como moeda de troca, oferecendo garantias de segurança mais robustas em troca de um papel reforçado na Gronelândia. Um cenário desse tipo colocaria os parceiros europeus perante escolhas difíceis, receosos de retaliações políticas ou diplomáticas por parte de Trump.
A opção mais extrema seria uma intervenção militar. Analistas consideram que os EUA teriam capacidade para assumir rapidamente o controlo do território, dada a presença militar já existente e as limitadas defesas da Gronelândia. No entanto, uma invasão não teria base legal e poderia representar o colapso da NATO, além de provocar uma quebra profunda de confiança entre os aliados, com impactos diretos na segurança dos próprios Estados Unidos.
Apesar dos cenários traçados, diplomatas da aliança sublinham que uma tomada hostil continua distante. Para já, acreditam que o processo deverá passar por negociações duras, mas ainda dentro dos limites da pressão política e estratégica.














