A apenas dois dias da cimeira marcada para esta sexta-feira no Alasca – e aguardada com imensa expetativa -, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou no ar a possibilidade de não alcançar qualquer acordo de paz com o seu homólogo russo, Vladimir Putin. “Nos primeiros dois minutos saberei exatamente se é possível chegar a um pacto ou não. Vou ver o que ele tem em mente”, afirmou na segunda-feira, acrescentando que, se não vir potencial para entendimento, poderá simplesmente abandonar a sala: “Isso será o fim.”
Estas declarações, feitas numa conferência de imprensa marcada por ambiguidades, aumentaram os receios de líderes europeus, que exigem que a Ucrânia, representada por Volodymyr Zelensky, tenha um papel central nas conversações e que as suas condições para a paz sejam respeitadas. Até ao momento, Trump não confirmou que garantias territoriais ou de segurança para a Ucrânia estarão em discussão. Também não mencionou a trégua ou cessar-fogo que Kiev considera essenciais antes de negociar o fim do conflito. Washington admite, contudo, a possibilidade de um encontro direto entre Putin e Zelensky, apesar de o Kremlin já ter rejeitado essa hipótese.
A postura de Trump face a Putin sofreu alterações ao longo dos últimos meses. No início do mandato, o republicano manifestava simpatia pelo líder russo e chegou a insinuar que a Ucrânia tinha responsabilidade na invasão do seu próprio território. No mês passado, porém, endureceu o discurso, impondo um ultimato de “10 ou 12 dias” para a obtenção de um acordo, sob pena de novas sanções — um aviso que levou à convocação da cimeira.
Questionado sobre o que considera ser “um bom acordo”, Trump respondeu de forma vaga: “Direi depois de ouvir do que se trata, porque pode haver muitas definições.” Mas que cenários estão em cima da mesa? Abaixo analisamos todas as hipóteses do que poderá sair da reunião entre trump e Putin sobre a guerra na Ucrânia.
Cenário 1: avanço mínimo e impasse prolongado
Uma possibilidade é que a reunião termine sem consenso, repetindo o desfecho de anteriores tentativas de negociação. Esse impasse poderia consolidar as posições russas até ao outono ou congelar as linhas da frente, permitindo a Moscovo rearmar-se e preparar uma nova ofensiva no inverno.
Apesar disso, Eliot A. Cohen, ex-assessor do Departamento de Estado dos EUA e analista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), considera que Trump procurará, pelo menos, um esboço de acordo: “O republicano anseia por um pacto porque se vê como um pacificador e acredita que merece, ou merecerá, um Prémio Nobel da Paz. Isso não significa que outros o devam acompanhar.”
Cenário 2: pressão direta sobre Putin
Trump declarou estar disposto a dizer pessoalmente a Putin que “tem de acabar com esta guerra” e que recolherá ideias de várias partes para chegar “preparado” à reunião. Mencionou também a possibilidade de um cessar-fogo rápido, embora sem abordar a recusa do Kremlin em sentar-se à mesa com Zelensky.
Caso Putin mantenha a intransigência, Trump poderá avançar com novas sanções ou outras medidas punitivas. Para Mark Cancian, coronel reformado e investigador sénior do CSIS, “Putin acredita que está a ganhar e que o tempo está do seu lado, e provavelmente tem razão”. Segundo o analista, apenas “uma ação drástica” poderia mudar a sua posição, como um pacote de ajuda militar superior a mil milhões de dólares financiado por aliados europeus.
Cenário 3: reforço militar a Kiev e envolvimento europeu
Se a comunidade internacional aumentar a pressão sobre Moscovo, incluindo apoio militar adicional à Ucrânia, Kiev poderia travar os avanços russos. Um artigo da CNN sugere que o Kremlin “poderia sentir as consequências das sanções e do sobreaquecimento da economia” e eventualmente aceitar negociações.
Entre as ideias em debate está o envio de uma “força de segurança” europeia para a Ucrânia, composta por dezenas de milhares de militares da NATO, para proteger Kiev e outras cidades, apoiar a reconstrução e dissuadir Moscovo de novas ofensivas — cenário que, segundo o analista Nick Paton Walsh, seria “o máximo a que a Ucrânia pode aspirar”.
Cenário 4: cessar-fogo incondicional, improvável mas desejado
O cenário mais favorável para Kiev — um cessar-fogo imediato sem concessões territoriais — é também o mais improvável. Tentativas anteriores, como a trégua de 30 dias sobre infraestruturas energéticas acordada no início do ano, fracassaram.
Na semana passada, meios de comunicação norte-americanos divulgaram um alegado documento que apontava para cedências de Moscovo, mas analistas como Jimmy Rushton, em Kiev, questionam se o Kremlin abandonou realmente as suas exigências maximalistas ou se “está a mentir”.
Cenário 5: concessões territoriais e rutura na NATO
Uma paz obtida à custa da perda de territórios ucranianos é o cenário que os aliados europeus querem evitar, mas que se torna mais provável se o apoio norte-americano vacilar. Paralelamente, Putin explora divisões na NATO sobre o aumento de despesas militares e as ameaças de Trump de reduzir o papel dos EUA na aliança.
Relatórios recentes de defesa indicam que o Kremlin planeia testar a coesão da NATO, possivelmente com ações de desestabilização nos países bálticos, como a cidade estoniana de Narva, de maioria russófona, num horizonte de cinco a sete anos.
Afinal, qual das opções é melhor? Nenhuma é totalmente favorável à Ucrânia
Independentemente do desfecho, os analistas alertam que “nenhuma das opções é boa para a Ucrânia”, como sublinha Nick Paton Walsh: “Só uma representa a derrota real da Rússia como potência militar e ameaça à segurança europeia. E nenhuma pode resultar de uma reunião entre Trump e Putin que exclua Kiev de qualquer acordo.”
A cimeira de sexta-feira no Alasca poderá, assim, marcar um ponto de viragem ou aprofundar o impasse — deixando a paz ainda mais distante.














