Após uma década de silêncio, a força mais enigmática do Hamas voltou a emergir. A chamada “Unidade Sombra”, braço secreto das Brigadas Al-Qassam, é hoje responsável pela gestão dos reféns israelitas em Gaza, incluindo as 251 pessoas raptadas no ataque de 7 de outubro de 2023, segundo o ‘El Mundo’. O grupo, que opera sob rígidos protocolos de segurança e total isolamento, tem sido o rosto oculto das trocas e entregas de prisioneiros desde o cessar-fogo entre janeiro e março deste ano.
A “Unidade Sombra” nasceu após o sequestro do soldado israelita Gilad Shalit, capturado em 2006 e libertado em 2011 em troca de 1.027 prisioneiros palestinianos. O episódio levou o Hamas a criar uma estrutura secreta encarregada de proteger reféns e planear futuras trocas, em paralelo com o desenvolvimento dos túneis subterrâneos na Faixa de Gaza.
De acordo com a publicação espanhola, entre os arquitetos desta força estiveram Mohamed Deif, líder militar do Hamas morto há pouco mais de um ano, e Ahmed Jabari, abatido em 2012. Também Yehie Sinwar, atual chefe do movimento islamista, e o seu irmão Mohamed Sinwar desempenharam papéis centrais. Este último foi responsável direto pelo cativeiro de Shalit, cuja libertação só foi possível após a saída do próprio irmão das prisões israelitas.
O papel da “Unidade Sombra” na guerra mais recente
Durante os dois anos de ofensiva israelita em Gaza, a “Unidade Sombra” foi encarregada de manter os reféns vivos, escondendo-os em túneis, hospitais e casas de famílias simpatizantes do Hamas. O grupo também esteve envolvido nas cerimónias de entrega dos prisioneiros israelitas, amplamente divulgadas pela imprensa internacional.
Nos últimos meses, os seus membros voltaram a ser vistos em vídeos e chamadas aos familiares dos reféns, vestidos de uniforme preto com faixas verdes. A unidade tem agora a missão de localizar e entregar os corpos dos reféns mortos, como parte do acordo que encerrou a campanha militar israelita na Faixa de Gaza.
Treino, sigilo e lealdade
O recrutamento para a “Unidade Sombra” é altamente seletivo e clandestino. Os primeiros combatentes, escolhidos há quase 20 anos, vieram de Khan Younis, cidade natal de Deif e dos irmãos Sinwar. A formação inclui treino em armas, táticas de combate, resistência psicológica e deslocação subterrânea, além do domínio do hebraico e do inglês.
Um documento do Hamas descoberto em Gaza indica que vários membros foram treinados no Irão, após passarem pela Turquia, em operações com drones (UAVs). Entre os seus elementos estão também antigos combatentes da Nukhba, o grupo que liderou o ataque de 7 de outubro, um ataque que, segundo o jornal espanhol, Sinwar não esperava que resultasse em tantos reféns.
Entre o heroísmo e a barbárie
Para muitos habitantes de Gaza, os membros da “Unidade Sombra” são vistos como heróis que conseguiram esconder os reféns do sistema de inteligência israelita, permitindo a libertação de milhares de prisioneiros palestinianos. Para Israel, são terroristas responsáveis por raptos, tortura e assassinatos de civis.
O Hamas expressou recentemente “gratidão” pela atuação da unidade na “guarda dos prisioneiros em condições difíceis”, afirmando que o trabalho foi conduzido “com dignidade e de acordo com os princípios do Islão”. No entanto, os testemunhos dos libertados contradizem essa narrativa, descrevendo tortura física e psicológica.
Um dos relatos mais marcantes é o de Rom Braslavski, de 21 anos, prisioneiro da Jihad Islâmica, que revelou à televisão israelita ter sido vítima de abusos sexuais e agressões brutais durante o cativeiro. O caso chocou Israel e relançou o debate sobre o tratamento dos reféns durante os meses de guerra.
A “Unidade Sombra” é, para muitos analistas, o símbolo mais opaco do poder do Hamas: uma força que combina sigilo militar, ideologia religiosa e propaganda, operando entre o terror e a diplomacia das trocas de prisioneiros.
Segundo o ‘El Mundo’, o grupo mantém-se ativo mesmo após o fim da ofensiva israelita, agora encarregado de gerir a devolução dos corpos e de proteger o legado de uma estrutura que, desde 2016, se move entre a guerra subterrânea e a guerra psicológica.














