Uma rede crescente de voluntários civis está a acompanhar de perto as operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em Minneapolis, num contexto de forte repressão federal e após dois casos mortais envolvendo agentes de imigração. De acordo com o ‘The Independent’, os voluntários patrulham as ruas, seguem viaturas suspeitas e alertam comunidades locais sempre que detetam a presença de agentes federais.
Num dos episódios descritos pelo jornal britânico, um agente armado do ICE, de óculos escuros e rosto coberto, saiu de um SUV e ameaçou prender ativistas caso continuassem a segui-lo. “Este será o seu último aviso”, afirmou, enquanto outro agente filmava a situação com um telemóvel. Will Stancil, advogado de direitos civis de 40 anos, respondeu calmamente que estava a exercer um direito constitucional e que não estava a interferir com o trânsito.
Stancil integra os chamados “ICE riders”, uma rede descentralizada de cidadãos comuns que dedicam semanas à monitorização do comportamento das forças federais. Segundo o ‘The Independent’, os voluntários comunicam entre si através de uma “linha de resposta rápida”, uma chamada segura que funciona como um rádio comunitário, permitindo partilhar em tempo real a localização e as ações de cerca de 3.000 agentes do ICE e da Patrulha da Fronteira destacados para a cidade.
Mortes a tiro agravam tensão
A atividade destes grupos intensificou-se após a morte de Alex Pretti, enfermeiro de cuidados intensivos de 37 anos, abatido a tiro por dois agentes da Patrulha da Fronteira enquanto tentava ajudar duas mulheres, segundo uma análise preliminar do incidente. O caso ocorreu dias depois da morte de Renee Good, poetisa e mãe de três filhos, também baleada por um agente do ICE. As autoridades locais afirmaram que Good atuava como observadora legal.
Ambos os tiroteios foram filmados e desencadearam protestos em todo o país. A indignação aumentou quando responsáveis governamentais tentaram inicialmente classificar os envolvidos como “terroristas domésticos”. Apesar disso, os voluntários mantêm a vigilância e a documentação das detenções, que muitos descrevem como “raptos”.
Uma voluntária identificada apenas como “Blue Flame” explicou ao ‘The Independent’ que o objetivo principal é garantir que as famílias saibam para onde foram levadas as pessoas detidas. “Criámos, nos últimos seis meses, um sistema interno de resposta a emergências semelhante ao 911”, afirmou, acrescentando que milhares de pessoas participam na rede, muitas conhecendo-se apenas por , por receio de infiltrações e represálias.
Patrulhas e efeito dissuasor
Em alguns bairros, os voluntários realizam patrulhas estacionárias, mantendo presença visível em zonas anteriormente alvo de rusgas frequentes. Segundo Blue Flame, esta estratégia tem contribuído para reduzir a frequência de operações em larga escala. “É chocante viver aquilo que só conhecia dos livros de história”, disse, emocionada, descrevendo a situação como autoritária.
Ao longo das últimas semanas, circularam imagens de detenções violentas realizadas por agentes do ICE, incluindo casos envolvendo crianças e cidadãos norte-americanos. A escalada da violência levou até sectores tradicionalmente conservadores a criticarem a atuação federal, incluindo a Associação Nacional de Rifles.
Perante o impacto político da situação, o presidente Donald Trump suavizou inicialmente o discurso e afastou Gregory Bovino, comandante da Patrulha da Fronteira e rosto público da campanha de deportações em massa. Para o substituir, enviou para Minneapolis o seu czar da fronteira, Tom Homan, veterano das políticas de imigração.
Numa primeira intervenção pública, Homan evitou referir os tiroteios, mas garantiu que o Governo não recuará na repressão à imigração, alertando para possíveis consequências legais para manifestantes que interfiram com agentes federais. Reconheceu, ainda assim, que “nada é perfeito”.
Comunidades em alerta permanente
Nada disso parece ter dissuadido ativistas como Stancil. Alertado para a presença de agentes num SUV perto de uma escola primária, seguiu o veículo enquanto outros voluntários, com coletes de alta visibilidade, avisavam a vizinhança com apitos. Automobilistas buzinaram e moradores gritaram alertas, numa tentativa de proteger famílias num horário sensível de entrada das crianças na escola.
Segundo Stancil, houve casos de famílias detidas enquanto levavam os filhos à escola, levando muitos pais a evitar sair de casa. Em resposta, voluntários passaram a acompanhar crianças, entregar mantimentos e prestar apoio básico a famílias com receio de circular.
Para muitos dos envolvidos, a operação federal pouco tem a ver com imigração e muito com intimidação política. Vários moradores acreditam tratar-se de uma retaliação pelos protestos de 2020 em Minneapolis, após o assassinato de George Floyd. “Isto só faz sentido como intimidação política”, afirmou Stancil, exausto após 21 dias consecutivos de vigilância, durante os quais foi exposto a gás lacrimogéneo e spray de pimenta.
Blue Flame teme que mobilizações semelhantes ocorram noutras cidades e acredita que o controlo fronteiriço em larga escala veio para ficar. “Temos de encarar a resistência ao ICE como um trabalho de meio período daqui para a frente”, afirmou. “Nunca vivi nada assim. Parece um momento histórico.”














