O maior reator nuclear da Europa, a central de Zaporizhzhia, tornou-se um ponto de alto risco na defesa da Ucrânia, enquanto as tropas russas tentam conectá-la à rede elétrica da Rússia, aumentando o perigo de um colapso catastrófico, indicou esta quarta-feira o jornal britânico ‘The Independent’.
A central, que possui seis reatores, foi capturada pelas forças russas no início da invasão, em 2022, e desde então permanece sob ocupação, com soldados alojados nos edifícios do complexo. A presença militar e os combates constantes obrigaram ao desligamento abrupto dos reatores, tornando necessário o arrefecimento contínuo do combustível nuclear, mesmo sem produção de energia.
Durante um mês, os sistemas de refrigeração dependeram exclusivamente de geradores a diesel e de uma equipa reduzida, devido à interrupção do fornecimento de energia para a Ucrânia. O fornecimento elétrico regular só foi restabelecido recentemente, após o período mais longo em que a central funcionou sem energia externa.
A Rússia pretende interromper a energia da Ucrânia para ligar a central à sua própria rede elétrica, uma ambição de longa data. “A Federação Russa está a instalar a sua linha de transmissão de energia, mas alguns elementos já foram danificados com sucesso pela Ucrânia”, explicou Mykhailo Shuster, especialista em energia nuclear e ex-diretor de compras da Energoatom, a agência de energia nuclear da Ucrânia.
Caso a ligação à rede russa tenha sido estabelecida, seriam necessárias estações conversoras para sincronizar os sistemas elétricos. Paralelamente, a destruição da barragem de Kakhova, principal fonte de água para a central, ameaça o abastecimento necessário para o arrefecimento do combustível nuclear.
Dmytro Orlov, autarca exilado de Enerhodar, cidade vizinha da central, alertou para o risco de contaminação do lençol freático e do rio Dnipro. “Na pior das hipóteses, a água evaporará do tanque de arrefecimento e não haverá nada para arrefecer o combustível nuclear”, afirmou. Orlov destacou ainda que a quantidade de combustível em Zaporizhzhia é cerca de dez vezes superior à de Chernobyl, reforçando a gravidade da situação.
Uma pequena equipa de inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) monitoriza regularmente a central, registando treinos militares e explosões dentro e ao redor do complexo. Ao mesmo tempo, artilharia e morteiros russos continuam a bombardear áreas próximas do rio Dnipro, mantendo a tensão elevada.
Mario Grossi, diretor-geral da AIEA, sublinhou que a situação é extraordinária. “O que antes era praticamente inimaginável – uma central nuclear perder energia externa regularmente – tornou-se uma ocorrência comum durante esta guerra devastadora. Ainda há muito trabalho a fazer para reduzir os riscos de um acidente nuclear”, afirmou.
















