Ex-estrelas da NBA e máfia italiana envolvidas em megainvestigação de fraude e jogo ilegal nos EUA

A investigação, descrita como uma das maiores operações contra apostas ilícitas e esquemas de jogo fraudulento da última década, aponta também para ligações diretas à máfia italiana, segundo revelou a ‘AOL’

Francisco Laranjeira
Outubro 23, 2025
18:37

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos apresentou esta quinta-feira acusações formais contra dezenas de pessoas, incluindo antigos e atuais nomes da NBA, por envolvimento em fraude, extorsão, jogo ilegal e lavagem de dinheiro.

A investigação, descrita como uma das maiores operações contra apostas ilícitas e esquemas de jogo fraudulento da última década, aponta também para ligações diretas à máfia italiana, segundo revelou a ‘AOL’.

De acordo com a mesma publicação, os arguidos são suspeitos de participar em dois esquemas distintos: um relacionado com apostas desportivas com informações privilegiadas, e outro envolvendo jogos de póquer manipulados com tecnologia de ponta. Entre os acusados estão o treinador dos Portland Trail Blazers, Chauncey Billups, o base do Miami Heat, Terry Rozier, e o ex-jogador Damon Jones.

Tecnologia de espionagem e “cartas de figuras”

As autoridades federais descreveram um sistema altamente sofisticado que incluía mesas de raio-X, câmaras escondidas, cartas pré-marcadas, lentes especiais e óculos capazes de ler códigos invisíveis. As mesas usadas nos jogos clandestinos continham câmaras integradas e sensores capazes de identificar as cartas jogadas e transmitir a informação em tempo real a um operador externo.

Segundo o procurador Joseph Nocella Jr., as informações eram enviadas por telemóvel para um cúmplice na mesa — conhecido como “quarterback” — que as repassava discretamente aos outros participantes envolvidos no esquema. Em alguns casos, equipamentos do esquema foram obtidos sob ameaça de arma.

O esquema de póquer teve início em 2019, com partidas realizadas em Nova Iorque, Las Vegas, Miami, Hamptons e outros locais, e visava atrair vítimas — chamadas de “peixes” — com a promessa de jogar ao lado de atletas famosos, as chamadas “cartas de figuras”.

“Assim que o jogo começava, as vítimas eram enganadas e extorquidas em dezenas ou centenas de milhares de dólares por partida”, afirmou Nocella. O FBI estima que as perdas superem sete milhões de dólares.

A rede da máfia e o “gasoduto financeiro”

A ‘AOL’ adiantou que as autoridades identificaram a participação de membros das famílias Bonanno, Gambino, Luchesse e Genovese, associadas à La Cosa Nostra. Estas estruturas já controlavam jogos ilegais em Nova Iorque e terão visto no esquema fraudulento uma nova fonte de receitas.

De acordo com o agente especial Christopher Raia, os jogos funcionavam como “um canal financeiro direto para a máfia”, ajudando a financiar atividades criminosas organizadas. O dinheiro proveniente das fraudes terá sido lavado através de empresas de fachada, bolsas de valores e transações em criptomoedas.

Apostas com informação interna e extorsão

Paralelamente, o segundo caso envolve apostas desportivas ilegais baseadas em informações confidenciais da NBA, entre 2022 e 2024. Os promotores alegaram que Rozier, Jones e outros réus exploraram dados sobre lesões e substituições de jogadores para obter ganhos ilícitos. Ao todo, sete jogos da NBA entre fevereiro de 2023 e março de 2024 foram identificados como parte do caso.

Pelo menos uma vez, Jontay Porter, ex-jogador dos Toronto Raptors banido pela liga, terá sido ameaçado devido a dívidas de jogo para fornecer informações privadas. O procurador Nocella classificou o caso como “um dos esquemas de corrupção desportiva mais descarados desde a legalização das apostas online nos Estados Unidos”.

Perante as acusações, a NBA anunciou a suspensão imediata de Terry Rozier e Chauncey Billups, garantindo estar a cooperar com as autoridades. “Continuaremos a colaborar com o Departamento de Justiça na totalidade do processo”, afirmou a liga em comunicado.

O relatório oficial da partida da NBA de 23 de março de 2023 observa que Terry Rozier, então jogador do Charlotte Hornets, deixou o jogo “com dor no pé direito após marcar 5 pontos”. Rozier, de 31 anos, jogou apenas nove minutos – um forte contraste com a sua média habitual de 35 minutos – na partida organizada pelo New Orleans Pelicans. A lesão acendeu o alarme para alguns no mundo das apostasdesportivas e agora está no centro das acusações federais contra Rozier, que agora está nos Miami Heat.

As autoridades americanas alegaram que Rozier prejudicou o seu desempenho ao fingir que estava lesionado e contou a outros sobre o seu plano antes do jogo, para que pudessem fazer apostas vencedoras no valor de milhares de dólares. “O dinheiro arrecadado foi posteriormente entregue em sua casa, onde o grupo contou o dinheiro”, disse a comissária de polícia da cidade de Nova York, Jessica Tisch.

No início deste ano, a NBA disse que foi alertada sobre o incidente por “atividade incomum de apostas”, mas sua investigação interna “não encontrou uma violação das regras da NBA”.

Um advogado de Rozier diz que seu cliente nega as acusações e vai contestar as acusações legais contra ele.

O advogado James Trusty contestou a acusação, sublinhando que o jogador “não é um alvo, mas apenas uma testemunha” e que foi “constrangido publicamente sem provas reais de irregularidade”.

O diretor do FBI, Kash Patel, classificou a operação como uma “fraude alucinante”, revelando que a investigação decorreu durante vários anos e envolveu dezenas de milhões de dólares.

As autoridades recordaram que, apesar das acusações, todos os réus são presumidos inocentes até prova em contrário. O caso deverá seguir para julgamento federal ainda este ano, podendo marcar um dos maiores escândalos de corrupção desportiva da era moderna nos Estados Unidos.

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