Esquadrão anti-EMEL: quem anda a incendiar carrinhas, cortar cabos e destruir parquímetros em Lisboa?

Cerca de 150 parquímetros danificados, 15 radares inutilizados e três carrinhas da empresa consumidas pelas chamas é o resultado da ação do grupo

Revista de Imprensa
Outubro 8, 2025
9:12

Um grupo anónimo e organizado tem vindo a atacar sistematicamente equipamentos da EMEL em Lisboa desde, pelo menos, 2018 — com um padrão de ação que inclui incêndios a carrinhas, encher postes de espuma expansiva, cortar cabos de alimentação e despejar “ácido” em parquímetros, relatou esta quarta-feira o jornal ‘Observador’. O saldo que o próprio coletivo afirma no relatório entregue à redação é contundente: cerca de 150 parquímetros danificados, 15 radares inutilizados e três carrinhas da empresa consumidas pelas chamas, além de centenas de imagens e vídeos que documentam as operações.

Como atuam os autores dos ataques

Segundo o jornal online, os ataques não são episódios isolados, mas ações planeadas e metódicas. O grupo descreve meses de vigilância, incursões de reconhecimento e “visitas técnicas” — há registos em vídeo datados de 17 de dezembro de 2022 e de 30 de janeiro de 2023 — antes de cada ação.

No caso do ataque a uma carrinha estacionada no parque da EMEL, no centro de Lisboa, os autores entraram por um terreno adjacente da Santa Casa da Misericórdia, cortaram a vedação, instalaram cordas para superar terrenos íngremes e usaram um dispositivo incendiário detalhado no relatório: um bidão de 10 litros de gasolina, três garrafas de 750 ml com tecidos embebidos e um “rastilho triplo”. O objetivo, explicam, era “replicar o efeito de um cocktail molotov, mas com 15 vezes mais combustível”.

O coletivo assume ter evoluído nas técnicas: começou por usar espuma expansiva em 2018, passou para “ácido” e depois para o fogo, considerado mais prático e eficaz. A documentação enviada ao jornal inclui 334 ficheiros, entre fotografias e vídeos, com o primeiro registo a 3 de dezembro de 2021 e o último a 22 de setembro de 2025. Muitas das imagens mostram equipamentos carbonizados, cabos cortados, espuma a transbordar de postes e parquímetros isolados com fitas das autoridades.

Quem são e o que os move

O grupo apresenta-se como um “grupo restrito de amigos de longa data” que se considera “vítima da EMEL e dos radares”. No relatório, justificam as ações com uma narrativa de indignação: acusam a empresa e o Estado de “extorsão sistemática” e afirmam pretender “mostrar, pelo nosso exemplo, que a prepotência e a arbitrariedade de instituições predatórias e parasitas têm limites”. A remessa ao jornal foi feita num envelope sem remetente, apenas com a referência “3VE”, e continha um relatório de 16 páginas descrevendo, técnica a técnica, a atividade entre 2022 e setembro de 2025.

Apesar da organização e da documentação, não existem, até agora, provas públicas que identifiquem os autores. O grupo admite que esta “não é a nossa ocupação principal” e que os membros têm vida profissional e familiar. A discrição e a cautela nas ações explicam, em parte, a ausência de detenções ou operações policiais conhecidas.

Impacto dos ataques e reação da EMEL

A EMEL reconheceu a existência de múltiplos atos de vandalismo. Entre 2021 e 2025, contabilizou 281 registos de ataques a parquímetros, com danos que variam de “baixo impacto” à destruição total, obrigando muitas vezes à substituição integral do equipamento. Cada parquímetro tem um custo aproximado de 5.000 euros. A empresa relatou ainda três ocorrências na sua frota automóvel e 142 situações de agressões a funcionários, das quais 53 deram origem a participações policiais.

Os ataques estão espalhados por toda a cidade: Praça da Estrela, Avenida Infante Santo, Radial de Benfica, Campo Grande, Alcântara, entre outros pontos. Entre os episódios registados estão incêndios na Avenida Infante Santo, a 11 de dezembro de 2024, e outro a 15 de janeiro de 2025, além de ações contra radares onde se veem cabos cortados e espuma inserida nos postes.

Uma escalada sem fim à vista

O grupo afirma ter suspendido as ações após as eleições autárquicas de setembro de 2021, “para dar tempo” ao novo executivo municipal, mas regressou em janeiro de 2022 “com menos alvos, mas mais eficazes e diversificados”. Ainda assim, decidiram reavaliar o “risco”. Mas não pararam, muito pelo contrário. “Considerámos que a melhor opção seria escolher alvos de maior impacto e que, para além do prejuízo, proporcionassem a devolução à EMEL e a quem gere os radares o sentimento de ‘acossado’ que diariamente induzem em cada condutor de Lisboa.”

O alvo seguinte estava definido: iam passar a incendiar carrinhas da EMEL.

A primeira a que pegaram fogo chegou a ser tema de cobertura pela comunicação social. A empresa desvalorizou, atribuindo o episódio a um “curto circuito” e, quase de imediato, começou a ganhar força a ideia de voltarem a um alvo semelhante. Foi o que fizeram no ano seguinte. E, a partir daí, os atos de vandalismo nunca mais pararam.

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