Escudo antimíssil, minerais e NATO… e sem soberania: os pontos essenciais do acordo de Trump sobre a Gronelândia

Segundo informações avançadas pela imprensa alemã, o acordo assenta em quatro grandes eixos

Francisco Laranjeira
Janeiro 22, 2026
12:11

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alcançou em Davos um acordo preliminar com a NATO sobre a Gronelândia que redefine a presença militar americana na ilha e reforça o papel da aliança atlântica no Ártico, sem qualquer referência à soberania do território autónomo dinamarquês. O entendimento, destacou a publicação ’20Minutos’, foi fechado à margem do Fórum Económico Mundial e está ainda em fase de consolidação, com o texto final por concluir.

Segundo informações avançadas pela imprensa alemã, o acordo assenta em quatro grandes eixos: a retirada da ameaça de novas tarifas comerciais contra países europeus aliados, a renegociação do acordo militar de 1951 que regula o estacionamento de tropas dos EUA na Gronelândia, o controlo americano sobre investimentos estratégicos na ilha e um compromisso reforçado da NATO com a segurança no Ártico.

Tarifas suspensas e novo enquadramento militar

Um dos pontos centrais do entendimento passa pela decisão de Washington de não avançar com tarifas contra os países europeus que enviaram militares para a Gronelândia no âmbito de exercícios liderados pela Dinamarca. A ameaça de sanções comerciais tinha levado a União Europeia a ponderar medidas de retaliação, incluindo a aplicação de tarifas de grande dimensão sobre produtos americanos.

Paralelamente, os Estados Unidos pretendem renegociar o acordo de defesa assinado em 1951, já revisto em 2004, que estabelece a base aérea de Pituffik, antiga Thule, como a principal instalação militar no território. A nova revisão deverá abrir caminho à integração do escudo antimíssil conhecido como “Cúpula Dourada”, um projeto avaliado em cerca de 175 mil milhões de dólares e que Trump quer ver operacional até 2029.

Inspirado no sistema israelita, o escudo deverá proteger não apenas os Estados Unidos, mas também o Canadá, tendo como principais ameaças a China e a Rússia, segundo a narrativa da Casa Branca.

Investimentos estratégicos sob vigilância dos EUA

Outro elemento sensível do acordo prende-se com o controlo dos investimentos na Gronelândia. Washington pretende reservar para si uma palavra decisiva sobre projetos estratégicos, nomeadamente no setor dos minerais de terras raras, com o objetivo declarado de impedir a entrada de capitais chineses ou russos na ilha.

Trump confirmou publicamente que o acordo preliminar inclui direitos norte-americanos sobre esses recursos, reforçando a dimensão económica do entendimento e o interesse estratégico dos EUA na região.

NATO reforça presença no Ártico

O acordo prevê ainda um maior envolvimento dos Estados-membros europeus da NATO na segurança do Ártico, uma exigência antiga de Trump. O presidente americano tem repetidamente invocado a presença crescente de meios navais chineses e russos na região para justificar a necessidade de um reforço militar e para sustentar a sua retórica sobre a importância estratégica da Gronelândia.

Apesar do tom triunfalista de Trump, que classificou o entendimento como “verdadeiramente fantástico” e garantiu que os EUA obtiveram “tudo o que queriam”, o acordo não contempla qualquer cedência territorial.

Dinamarca rejeita qualquer negociação sobre soberania

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, sublinhou que o entendimento em curso não coloca em causa a soberania da Dinamarca sobre a Gronelândia. Em declarações transmitidas pelo secretário-geral da NATO, Mark Rutte, Frederiksen afirmou que questões de segurança, investimento ou economia podem ser negociadas, mas que a integridade territorial não está em discussão.

A chefe do Governo dinamarquês garantiu ainda que todo o processo tem sido coordenado com as autoridades da Gronelândia e acompanhado por um diálogo permanente com a NATO. Frederiksen confirmou ter falado com Rutte antes e depois do encontro deste com Trump em Davos.

Copenhaga manifestou disponibilidade para discutir o reforço da segurança no Ártico, incluindo a eventual integração da “Cúpula Dourada”, desde que esse processo respeite plenamente a soberania dinamarquesa e o estatuto autónomo da ilha.

Segundo Trump, o texto definitivo do acordo deverá ser divulgado em breve, embora alguns detalhes permaneçam em negociação. A questão da Gronelândia continuará a dominar a agenda diplomática europeia nos próximos dias, com a primeira-ministra dinamarquesa a deslocar-se a Londres e depois a Bruxelas, onde o tema será debatido numa cimeira extraordinária da União Europeia.

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