Em Davos, Zelensky ataca falta de justiça contra Putin e e acusa Europa e NATO de se ‘encostarem’ aos EUA

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, discursou no Fórum Económico Mundial, em Davos, poucas horas depois de conversações com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, num momento em que a guerra provocada pela invasão russa entra no seu quarto ano.

Pedro Gonçalves
Janeiro 22, 2026
14:28

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, discursou no Fórum Económico Mundial, em Davos, poucas horas depois de conversações com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, num momento em que a guerra provocada pela invasão russa entra no seu quarto ano. Na abertura da intervenção, Zelensky recorreu a uma metáfora cinematográfica para descrever a situação vivida pelo seu país, afirmando que “todos se lembram do grande filme americano Groundhog Day”, mas sublinhando que “ninguém gostaria de viver assim, repetindo a mesma coisa durante semanas, meses e, claro, anos”, acrescentando que “é exatamente assim que vivemos agora”.

O chefe de Estado ucraniano recordou que, há um ano, tinha alertado que “a Europa precisa de saber defender-se”, mas frisou que, apesar da passagem do tempo, “nada mudou”. Segundo Zelensky, todos os anos surgem novos desafios que desviam a atenção do continente de problemas estruturais e urgentes, fragilizando a capacidade de resposta política e estratégica. Como exemplo, apontou o recente foco internacional na Gronelândia, afirmando que “toda a atenção se virou para a Gronelândia” e que “a maioria dos líderes simplesmente não sabe o que fazer”, limitando-se a “esperar que a América acalme” o debate. “Mas e se não passar? O que fazemos então?”, questionou.

Zelensky criticou de forma contundente a incapacidade da Europa para manter o foco e responder de forma eficaz a crises prolongadas. Referiu o caso do Irão, lembrando que houve “muita conversa sobre os protestos”, mas que estes “foram afogados em sangue”, porque “o mundo não ajudou suficientemente o povo iraniano”, distraído pelas festividades do Natal e do Ano Novo. Quando os decisores políticos regressaram ao trabalho, afirmou, “o ayatollah já tinha matado milhares”. Para o presidente ucraniano, se o regime sobreviver após esta repressão, “envia um sinal claro a todos os agressores: matem pessoas suficientes e permanecem no poder”.

No mesmo contexto, Zelensky contrastou a atuação europeia com a iniciativa dos Estados Unidos relativamente à Venezuela, observando que, independentemente das diferentes opiniões sobre essa operação, Nicolás Maduro “está a ser julgado em Nova Iorque”, enquanto Vladimir Putin não enfrenta um processo semelhante. “Estamos no quarto ano da maior guerra na Europa desde a Segunda Guerra Mundial e o homem que a iniciou não só está livre como ainda luta pelo seu dinheiro congelado na Europa”, afirmou. Acrescentou que o presidente russo parece até estar a ter “algum sucesso”, ao influenciar decisões sobre “como devem ser usados os ativos russos congelados”, numa referência à incapacidade recente da União Europeia em avançar com a sua apreensão.

O líder ucraniano lamentou igualmente a falta de progressos na criação de um tribunal especial para julgar crimes russos na Ucrânia. “Muitas reuniões tiveram lugar, mas a Europa ainda não chegou sequer ao ponto de ter uma sede para o tribunal, com pessoal e trabalho efetivo a decorrer”, criticou, questionando se o que falta é tempo ou vontade política. “Demasiadas vezes, na Europa, há sempre algo mais urgente do que a justiça”, afirmou.

Na parte final da intervenção, Zelensky concentrou-se na defesa europeia e lançou um alerta direto sobre a dependência do continente em relação aos Estados Unidos. Defendeu a necessidade de “forças armadas unidas que possam realmente defender a Europa hoje” e alertou que o continente vive da convicção de que a NATO atuará em caso de ameaça. “A Europa baseia-se apenas na crença de que, se o perigo surgir, a NATO vai agir. Mas ninguém viu verdadeiramente a aliança em ação”, afirmou. “A NATO existe porque se acredita que os Estados Unidos vão atuar. Mas e se não o fizerem?”, questionou, exemplificando com cenários de agressão russa contra países como a Lituânia ou a Polónia.

Zelensky acusou ainda alguns líderes europeus de esperarem que os problemas “desapareçam sozinhos”, enquanto outros apenas agem porque os Estados Unidos os empurram nesse sentido. “A Europa gosta de discutir o futuro, mas evita agir hoje, a ação que vai definir que tipo de futuro teremos”, declarou. Como exemplo final, apontou o sucesso norte-americano em travar navios petroleiros, contrastando-o com o facto de o “petróleo russo continuar a ser transportado ao longo das costas europeias” sem interrupções.

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