Portugal regressa às urnas este domingo, para escolher 308 presidentes de câmara e assembleias municipais, além de mais de 3 mil juntas de freguesia. A ‘Euronews’ lembrou que estas eleições autárquicas poderão redefinir o mapa político nacional, num contexto marcado pela saída de 89 autarcas impedidos de recandidatar-se por limite de mandatos e pela expectativa em torno do crescimento do Chega no poder local.
A aposta do Chega no poder autárquico
Depois de se afirmar como segunda força política no Parlamento nas legislativas de maio — com 60 deputados eleitos, atrás da Aliança Democrática (89) e à frente do PS (58) — o partido de André Ventura quer agora consolidar presença no território.
A grande dúvida é se o voto de domingo refletirá preocupações locais ou dinâmicas nacionais. O professor André Azevedo Alves, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, considera que os temas nacionais tendem a ter mais peso nas autarquias urbanas, onde a ligação entre eleitores e candidatos é mais distante.
Já a politóloga Paula Espírito Santo, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), destacou que os eleitores “distinguem claramente as eleições autárquicas das legislativas”, valorizando figuras com obra feita ou notoriedade local, embora reconheça que problemas nacionais como a habitação, os transportes ou o urbanismo acabam por atravessar os dois níveis de debate.
Sintra e o teste à influência nacional do Chega
Um dos concelhos a observar é Sintra, o segundo mais populoso do país, onde Rita Matias, candidata do Chega, surge bem posicionada nas sondagens. Para André Azevedo Alves, o desempenho da deputada “é mais reflexo do voto no partido e na sua imagem nacional do que de um projeto autárquico concreto”.
O académico antecipa três cenários possíveis: um resultado modesto, com poucos vereadores e nenhuma câmara; um intermédio, com ganhos acima das europeias e algumas presidências; ou um cenário de viragem, caso o Chega conquiste municípios estratégicos como Albufeira, Faro ou Sintra, o que representaria “um terramoto político”, consolidando a presença do partido também no poder local.
Paula Espírito Santo lembra, porém, que o Chega ainda não tem histórico autárquico sólido — em 2021, elegeu apenas 19 representantes, metade já fora de funções — e que a forte centralização em torno de André Ventura continua a ser essencial para mobilizar o eleitorado.
Lisboa: Carlos Moedas e Alexandra Leitão empatados
Na capital, as sondagens da Universidade Católica (RTP/Público) e da Pitagórica (TVI/CNN Portugal/TSF/JN) apontam um empate técnico entre Carlos Moedas (PSD/CDS/IL) e Alexandra Leitão (PS, com apoio de BE, Livre e PAN).
De acordo com André Azevedo Alves, a candidata socialista é “uma figura polarizadora”, o que poderá favorecer Moedas ao unir o voto da direita em torno da sua recandidatura. Ainda assim, o professor nota que a avaliação do mandato de Moedas é dividida, oscilando “entre o razoável e o insatisfatório”, e que a campanha socialista poderá capitalizar temas urbanos sensíveis, como habitação, gentrificação e mobilidade, agravados por polémicas recentes como o desastre do Elevador da Glória.
Porto: sucessão aberta após Rui Moreira
No Porto, o atual presidente Rui Moreira cumpre o último mandato e não se recandidata, abrindo uma disputa equilibrada entre Pedro Duarte (PSD/CDS/IL) e Manuel Pizarro (PS). Uma sondagem Pitagórica para a TVI, CNN Portugal, ECO e JN mostra os dois candidatos praticamente empatados.
Manuel Pizarro, ex-ministro da Saúde, “é bem recebido pelo eleitorado portuense, inclusive ao centro-direita”, observa André Azevedo Alves, o que o distingue de figuras mais polarizadoras da capital. Contudo, a dispersão de candidaturas — com Bloco de Esquerda, Livre, CDU, PAN e o independente Filipe Araújo em corrida — poderá fragmentar o voto e dificultar maiorias claras.
Do lado direito, Miguel Côrte-Real, candidato do Chega e ex-PSD, “é um dos nomes mais fortes do partido” e poderá captar parte do eleitorado tradicional de Moreira, acrescenta o professor da Católica.
Paula Espírito Santo sublinha que o empate técnico pode aumentar a mobilização dos eleitores nos últimos dias, lembrando que “ambos os principais candidatos têm experiência governativa, mas não autárquica”, o que tornará o desfecho ainda mais incerto.














