E porque não falar de Liderança?

Opinião de Silvia Barata, Head of Country Portugal & Iberia Retail Operations Manager BP Portugal

Executive Digest
Julho 7, 2025
12:32

Por Silvia Barata, Head of Country Portugal & Iberia Retail Operations Manager BP Portugal

A liderança, em sua forma mais autêntica, é uma relação de confiança mútua entre quem escolhe liderar e quem decide seguir. Não se trata apenas de cargos, títulos ou autoridade formal, mas de uma conexão humana baseada em propósito, valores e credibilidade.

Qualquer reflexão séria sobre liderança precisa ir além das competências técnicas, das estratégias ou das táticas. Deve mergulhar nas dinâmicas dessa relação essencial, sob pena de se tornar superficial e vazia.

Mesmo na ausência de eleições formais, as equipas “votam” todos os dias. Votam com o tempo que investem nas empresas, com o seu talento, com a sua ilusão, com a sua energia e com o seu compromisso. Votam quando escolhem dar o melhor de si, quando se envolvem com paixão, quando inovam, colaboram e constroem. Essa é a verdadeira legitimidade de um líder: o reconhecimento espontâneo daqueles que o seguem.

Essa energia positiva, quando bem canalizada, torna-se um motor poderoso de transformação organizacional. É ela que contagia, inspira e impulsiona as equipas a superarem desafios e alcançarem resultados extraordinários — ou mesmo a aprender com os fracassos, transformando-os em lições para o futuro. Como menciona Patrick Lencioni em “Os 5 Desafios das Equipas”, a confiança é a base para que as equipas enfrentem conflitos, assumam responsabilidades e cresçam juntas.

Num mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo — o chamado ambiente VUCA (Volatility (Volatilidade); Uncertainty (Incerteza); Complexity (Complexidade); Ambiguity (Ambiguidade) — a liderança torna-se ainda mais crítica. Vivemos tempos de escassez de estadistas e de referências éticas, o que impacta diretamente as decisões geopolíticas, económicas e sociais. Nesse contexto, as organizações precisam de líderes que inspirem confiança, que promovam coesão e que sejam capazes de alinhar pessoas em torno de um propósito comum.

“Líderes que criam pontes com outros líderes”, como propõe Noel Tichy e Warren Bennis em “Decidir”, são capazes de gerar valor que transcende fronteiras organizacionais.

A era digital trouxe avanços notáveis, mas também desafios profundos. A tecnologia pode automatizar processos, mas não substitui a empatia, a escuta ativa, a visão inspiradora e a capacidade de mobilizar pessoas. A liderança continua a ser, acima de tudo, uma arte humana, em que a conexão emocional impulsiona a confiança para “fazer acontecer”.

Já não basta liderar por posição hierárquica. A autoridade precisa ser conquistada diariamente, através de ações coerentes, decisões éticas e uma escuta genuína. A confiança não é um direito adquirido — é um ativo que se constrói com consistência e honestidade e se perde com facilidade.

Liderar é também um ato de humildade e aprendizagem contínua. É reconhecer que ninguém lidera sozinho, apesar de um líder muitas vezes ter que tomar decisões sozinho… ou até enfrentar momentos de solidão. Como lembra James C. Hunter em “O Monge e o Executivo”, uma história sobre a essência da liderança : liderar é servir — e servir exige coragem, empatia e compromisso com o outro.

Liderar é valorizar o contributo de cada membro da equipa e criar um ambiente onde todos se sintam incluídos, respeitados e motivados a contribuir.

Mais do que delegar tarefas ou tomar decisões, liderar é reconhecer que o verdadeiro potencial de uma equipa está na soma das suas partes — e, sobretudo, na forma como essas partes se conectam. Cada pessoa traz consigo uma história, um conjunto único de competências, uma visão do mundo moldada por experiências distintas. Um líder eficaz sabe que o talento floresce quando é visto, ouvido e respeitado.

Valorizar o contributo de cada membro significa ir além do reconhecimento pontual. É criar espaços seguros para que todos possam expressar ideias, levantar preocupações e propor soluções sem medo de julgamento. É exercitar a escuta ativa, com o foco principal em compreender verdadeiramente o outro, e não em responder ou julgar.

Não há certo ou errado, existem sim opiniões e experiências diferentes, e devemos ser capazes de as ouvir sem preconceitos. Sendo assim a diversidade é essencial. Mas é a inclusão que garante que essa diversidade se traduz num valor real. Inclusão é mais do que presença: é pertença. É fazer com que cada pessoa se sinta ouvida, valorizada e parte integrante do todo.

No centro de tudo está a credibilidade. Ela é o trilho invisível que sustenta o caminho de qualquer líder. Sem ela, até as melhores estratégias perdem valor, e até os discursos mais inspiradores soam inocuos. A credibilidade não se impõe – conquista-se. E essa conquista é feita, dia após dia, por meio de integridade, transparência e coerência entre o que se diz e o que se faz.

Um líder credível é aquele cuja palavra tem peso, não por autoridade formal, mas porque é sustentada por ações consistentes.

Construir credibilidade é como correr uma maratona: exige preparação, resiliência e consistência. Não há atalhos. Cada decisão, cada conversa, cada escolha ética, contribui para esse capital invisível. E, como em uma maratona, basta um tropeço mal gerido para comprometer todo o percurso.

Na minha visão, a credibilidade é a base de toda liderança duradoura. É ela que inspira lealdade, desperta compromisso e sustenta relações de longo prazo. Um líder credível não precisa impor — ele anima e incentiva . E é essa inspiração que move pessoas, equipas e organizações rumo ao extraordinário.

A credibilidade é, portanto, o ativo mais valioso de um líder.

Não se vê, mas sente-se.

Não se exige, mas conquista-se.

E quando está presente, transforma a liderança em algo verdadeiramente inspirador.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 231 de Junho de 2025

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