“É como a Alemanha na II Guerra Mundial”: Minnesota vive clima de rusgas de imigração constantes impostas pela Administração Trump

De acordo com a ‘Euronews’, o aumento da repressão tem atingido não apenas imigrantes sem documentos, mas também residentes permanentes e cidadãos americanos, criando um clima de medo generalizado nos bairros, escolas e centros comunitários

Francisco Laranjeira
Janeiro 28, 2026
14:37

A comunidade latina do Minnesota vive um dos períodos mais críticos da sua história recente, num contexto marcado por rusgas de imigração, detenções em massa e uma presença permanente de agentes federais armados. O quotidiano de milhares de famílias foi profundamente alterado após o reforço sem precedentes da aplicação da lei federal de imigração no estado.

De acordo com a ‘Euronews’, o aumento da repressão tem atingido não apenas imigrantes sem documentos, mas também residentes permanentes e cidadãos americanos, criando um clima de medo generalizado nos bairros, escolas e centros comunitários.

A escalada teve início a 1 de dezembro, com o lançamento da chamada Operação Metro Surge, que implicou o destacamento massivo de agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE) e da Border Patrol para o Minnesota. Desde então, organizações locais e autoridades estatais relatam um crescimento exponencial da presença federal no terreno.

Detenções, postos de controlo e entradas em habitações transformaram a rotina de milhares de pessoas. “Passámos de assustados a completamente paralisados”, afirma Grecia Lozano, porta-voz e cofundadora da organização Latino Voices Minnesota, que presta apoio direto à comunidade imigrante no sudoeste do estado. Segundo a ativista, o clima atual é “pior do que durante a pandemia”, com famílias que evitam sair de casa ou até olhar pela janela.

Especialistas denunciam violações da Constituição

Do ponto de vista jurídico, a ofensiva levanta sérias preocupações constitucionais. Ana Pottratz Acosta, professora de Direito da Universidade do Minnesota, alerta para práticas que considera ilegais, nomeadamente entradas em residências sem mandado judicial. Em declarações à ‘Euronews’, a jurista afirma que estão em causa violações sistemáticas da Quarta Emenda da Constituição dos Estados Unidos.

Pottratz Acosta sublinha ainda que muitas das ações se baseiam em ordens administrativas emitidas pelas próprias agências federais, que não têm o mesmo valor legal que uma ordem judicial. “O Governo age como se fossem equivalentes, mas não são”, explica.

Mortes elevam tensão política e social

A repressão teve também consequências fatais. Nas últimas semanas, duas pessoas morreram após intervenções de agentes federais em Minneapolis, episódios que agravaram a tensão política e social no estado. Segundo a professora de Direito, as vítimas não participavam em protestos, mas atuavam como observadores legais da comunidade, um papel protegido pela Primeira Emenda.

“Observar e registar a atuação policial é um direito constitucional”, sublinha, questionando a justificação legal para o recurso à força letal.

Minnesota avança com ação judicial contra o Governo federal

Em resposta, o estado do Minnesota, juntamente com as cidades de Minneapolis e Saint Paul, avançou com uma ação judicial contra o Departamento de Segurança Interna, acusando o Governo federal de violações sem precedentes da Constituição e dos direitos civis.

O procurador-geral do estado, Keith Ellison, classificou a situação como um “abuso constitucional completamente novo”, sublinhando que a ação conta com o apoio de 19 estados e do Distrito de Colúmbia. O processo está a ser analisado por um tribunal federal em Minneapolis, sem decisão final até ao momento.

Medo generalizado afeta escolas, famílias e economia local

Enquanto a batalha judicial decorre, o impacto no dia a dia é imediato. Segundo Grecia Lozano, o medo já não está ligado ao estatuto de imigração, mas sim à identidade. “O medo não é não ter documentos, é ser latino”, afirma.

Há registos de detenções baseadas em perfis raciais, bem como de pessoas que permanecem desaparecidas durante horas sem contacto com as famílias. O receio levou muitas famílias a deixar de enviar os filhos para a escola, provocando um aumento significativo do absentismo escolar. Algumas crianças não saem de casa há semanas.

A repressão afeta também a economia local. Pequenas empresas encerraram por falta de trabalhadores, restaurantes ficaram sem pessoal e várias localidades assistiram a paralisações económicas e protestos, incluindo por parte de negócios não latinos que dependem da mão de obra imigrante.

Auto-organização comunitária e acusações de intimidação

Perante o clima de medo, os bairros organizaram redes informais de alerta para sinalizar a presença de agentes federais e proteger as famílias. Organizações comunitárias defendem que estas práticas são formas legítimas de auto-proteção e não atos de violência.

Centros de apoio humanitário também relataram visitas de agentes federais munidos apenas de ordens administrativas. Algumas organizações foram forçadas a encerrar temporariamente ou a remover sinais identificativos para evitar represálias.

Para Grecia Lozano, a situação atual é difícil de resumir de outra forma. “É como a Alemanha na II Guerra Mundial. Não há outra forma de o dizer”, afirma, descrevendo uma comunidade que vive diariamente entre o medo, a incerteza e a vigilância constante.

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