Do produto ao algoritmo: A evolução do marketing e do marketing digital

Opinião de Luís Rasquilha, CEO do Ecossistema Inova. Board Member/Non Executive Diretor (NED) da GIANT Brasil e da Maza Tarraf. Líder do Comitê de estratégia do Consórcio Unifisa. Professor convidado na FDC, Hospital Albert Einstein e ESALQ/USP. Colunista do MIT Sloan Review Brasil e Executive Digest Portugal.

Executive Digest

O marketing ocupa hoje um lugar central na gestão das organizações. Mais do que uma função operacional ou um conjunto de técnicas de comunicação, o marketing tornou-se uma capacidade estratégica crítica, responsável por ligar a proposta de valor das empresas às necessidades, expectativas e comportamentos dos seus clientes. Ao longo do tempo, o marketing tem acompanhado — e muitas vezes antecipado — as grandes transformações económicas e sociais. Desde a era industrial, marcada pela produção em massa, até à atual economia digital, orientada por dados e experiências, o marketing evoluiu de forma contínua, ajustando-se à crescente complexidade dos mercados e à sofisticação dos consumidores.

Se numa fase inicial o marketing se focava essencialmente na colocação de produtos no mercado, rapidamente passou a integrar uma dimensão mais analítica e estratégica, centrada no cliente, na diferenciação e na criação de valor. Hoje, o marketing é um dos principais motores de crescimento das organizações, influenciando não apenas a forma como se comunica, mas também como se desenham produtos, se estruturam modelos de negócio e se constroem relações de longo prazo.

Neste contexto, compreender a evolução do marketing — e, em particular, a emergência do marketing digital — é fundamental para qualquer gestor. Não apenas para acompanhar tendências, mas para tomar decisões mais informadas, alinhar estratégia e execução e, sobretudo, garantir relevância num ambiente competitivo em permanente mudança. O marketing não evoluiu por acaso. Evoluiu porque o mundo mudou — e continua a mudar. Mudaram os mercados, mudou a tecnologia, mudou o comportamento do consumidor. E, sobretudo, mudou a forma como as organizações criam valor. Hoje, falar de marketing implica compreender duas trajetórias interligadas:

  1. a evolução do marketing tradicional
  2. e a evolução do marketing digital

Ambas convergem num ponto crítico: a centralidade do cliente e a utilização intensiva de dados.

A EVOLUÇÃO DO MARKETING

Continue a ler após a publicidade

Marketing 1.0 — O domínio do produto: A primeira fase do marketing nasce num contexto industrial, onde a principal preocupação das empresas era produzir e distribuir. O foco estava no produto. A lógica era simples: quanto mais se produzia, mais se vendia. As empresas comunicavam de forma unidirecional e o consumidor tinha um papel passivo. Não existia personalização, nem adaptação. Existia escala. Foi neste contexto que surgiu o modelo dos 4Ps, estruturado por E. Jerome McCarthy, que organizava o marketing em torno de quatro variáveis: Produto, Preço, Distribuição e Promoção.

Limitação desta fase: Ausência de foco no cliente, Falta de diferenciação e Comunicação massificada

Marketing 2.0 — O foco no cliente: Com o aumento da concorrência e a maturidade dos mercados, as empresas começaram a perceber que não bastava produzir — era necessário compreender o cliente. Surge o marketing orientado ao consumidor. Entram em cena conceitos como: Segmentação, Targeting, Posicionamento. O cliente deixa de ser passivo e passa a ser o centro da estratégia operando uma mudança crítica: De “o que vendemos”, para “a quem vendemos e porquê”

Continue a ler após a publicidade

Marketing 3.0 — O marketing dos valores: Numa fase mais avançada, o marketing evolui para integrar dimensões emocionais, sociais e culturais. As marcas passam a representar valores. O consumidor procura identificação, propósito e alinhamento. O marketing torna-se: Mais humano; Mais relacional; Mais emocional. A mudança crítica: De cliente racional, para cliente emocional e social

Marketing 4.0 — A era digital e da conectividade: A digitalização introduz uma rutura profunda. A comunicação deixa de ser unidirecional e passa a ser: Interativa, contínua e multicanal. O consumidor ganha poder. Compara, avalia, partilha, Influencia.

As organizações deixam de controlar a mensagem — passam a participar numa conversa. A mudança crítica: De comunicação para interação e experiência.

Marketing 5.0 — Dados, tecnologia e inteligência: Na fase atual, o marketing entra na era dos dados e da inteligência artificial. A capacidade de recolher, tratar e analisar dados permite:

  • Personalização em escala
  • Previsão de comportamento
  • Otimização contínua

O marketing torna-se:

Continue a ler após a publicidade
  • Científico
  • Mensurável
  • Automatizado

A mudança crítica: De intuição, para decisão baseada em dados.

A análise da evolução do marketing revela uma trajetória clara: de uma lógica centrada no produto para uma abordagem cada vez mais orientada ao cliente, à experiência e, mais recentemente, aos dados. Cada fase acrescentou uma nova camada de complexidade e sofisticação, refletindo não apenas mudanças nos mercados, mas também na forma como as organizações pensam e gerem a criação de valor.

No entanto, é com a digitalização que esta evolução ganha uma nova dimensão. O digital não representa apenas mais uma etapa na evolução do marketing — representa uma verdadeira mudança de paradigma. Se até aqui o marketing evoluiu de forma progressiva, com ajustamentos conceptuais e estratégicos, a emergência do digital introduz uma rutura estrutural. Altera profundamente os canais, a velocidade, a escala e, sobretudo, a forma como as organizações interagem com os seus clientes.

O consumidor deixa de ser apenas recetor de mensagens para se tornar participante ativo. Os canais deixam de ser lineares para se tornarem interligados. A comunicação deixa de ser episódica para se tornar contínua. E o marketing, que antes operava em ciclos relativamente estáveis, passa a funcionar em tempo real, suportado por dados e tecnologia.Neste novo contexto, o marketing digital não deve ser entendido como uma extensão do marketing tradicional, mas sim como a sua evolução natural — uma evolução que integra, amplifica e transforma tudo o que foi construído até aqui.

É precisamente esta transformação — da presença digital inicial até à atual lógica data-driven e orientada por inteligência artificial — que importa agora compreender. Quando falamos em marketing digital, falamos no conjunto de estratégias, processos e ferramentas que utilizam canais digitais para atrair, converter, reter e desenvolver clientes, ao longo de toda a sua jornada, de forma mensurável e orientada por dados. Marketing digital não é apenas tecnologia ou campanhas. Inclui planeamento, execução, otimização. O marketing digital cobre todo um ciclo que inclui:

  • Atrair (awareness)
  • Converter (leads/clientes)
  • Reter (fidelização)
  • Desenvolver (cross-sell, upsell)

“Ao longo da jornada”

Não é uma ação isolada. É contínuo e acompanha o cliente antes, durante e depois da compra sendo mensurável e orientado por dados. O Marketing digital é por isso um sistema de crescimento, uma capacidade de gestão da relação com o cliente e uma ferramenta de decisão baseada em dados que tem também evoluído ao longo dos tempos.

A EVOLUÇÃO DO MARKETING DIGITAL

Fase 1 — Presença digital (Web 1.0): O marketing digital começa de forma simples: presença online. As empresas criam websites, mas estes são estáticos, informativos e pouco interativos. A lógica é semelhante ao marketing 1.0: comunicar, não interagir. Estar online não significa gerar valor

Fase 2 — Search & Performance: Com o crescimento dos motores de busca, surge uma nova lógica: captar procura.Entram em cena conceitos e ferramentas como SEO e Google Ads. O marketing digital passa a ser orientado para resultados. De presença para performance.

Fase 3 — Social & Engagement: As redes sociais transformam o digital. O marketing passa a ser conversacional, social e participativo. Surge o conteúdo como elemento central e os utilizadores passam a ser também criadores. De audiência, para comunidade.

Fase 4 — Omnicanal e Customer Journey: O marketing digital deixa de ser um conjunto de canais isolados e passa a ser um sistema integrado. A jornada do cliente torna-se central. As organizações passam a gerir: múltiplos pontos de contacto, interações ao longo do tempo e experiência integrada. De campanhas para jornadas.

Fase 5 — Data-Driven & AI Marketing:  Na fase atual, o marketing digital atinge o seu nível mais avançado. A integração de dados, tecnologia e inteligência artificial permite:

  • Personalização em tempo real
  • Automação
  • Previsão de comportamento

O marketing digital torna-se um sistema de crescimento contínuo. De execução para otimização inteligente. Por isso hoje, marketing e marketing digital deixaram de ser duas realidades separadas. Convergiram.

O marketing moderno é:

  • Digital por natureza
  • Orientado a dados
  • Centrado no cliente
  • Focado na experiência

A evolução do marketing pode ser resumida numa trajetória clara:

Antes Hoje
Produto Cliente
Transação Relação
Comunicação Experiência
Intuição Dados
Campanhas Jornadas

O marketing evoluiu de uma função de comunicação para um sistema integrado de criação de valor, baseado em dados, tecnologia e experiência. E, no contexto atual não ganha quem comunica mais. Ganha quem compreende melhor, decide melhor e executa mais rápido.

A evolução do marketing, desde a sua origem centrada no produto até à atual lógica orientada por dados e experiência, reflete uma transformação profunda na forma como as organizações criam valor e se relacionam com os seus clientes. Cada fase acrescentou novas dimensões — do foco na eficiência produtiva à centralidade do cliente, da comunicação à experiência, da intuição à análise. Neste percurso, o marketing digital surge não como uma rutura isolada, mas como o culminar desta evolução. Ao integrar tecnologia, dados e canais digitais, veio ampliar a capacidade das organizações de compreender, influenciar e acompanhar o cliente ao longo de toda a sua jornada.

No entanto, a verdadeira mudança não reside nas ferramentas, mas na forma como são utilizadas. O desafio atual das organizações não é aceder à tecnologia — é integrá-la de forma estratégica, alinhando marketing, negócio e operações, e colocando o cliente no centro das decisões. Num contexto marcado por maior complexidade, concorrência e exigência, o marketing assume um papel cada vez mais determinante. Deixa de ser uma função de suporte e passa a ser um motor de crescimento, diferenciação e criação de valor sustentável.

O marketing já não é apenas sobre vender melhor, é sobre compreender melhor, servir melhor e evoluir continuamente com o cliente.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.