Depois da euforia, o tombo: o que está a travar o rali histórico do ouro e da prata?

A recente correção acentuada nos preços do ouro e da prata não deverá ser interpretada como um sinal de deterioração dos fundamentos, mas antes como um ajustamento técnico após uma valorização considerada excessiva.

André Manuel Mendes
Fevereiro 13, 2026
9:59

A recente correção acentuada nos preços do ouro e da prata não deverá ser interpretada como um sinal de deterioração dos fundamentos, mas antes como um ajustamento técnico após uma valorização considerada excessiva. A conclusão é da Allianz Global Investors (AllianzGI), que sustenta que os metais preciosos continuam a oferecer valor enquanto ativos reais e instrumentos de diversificação de carteiras.

Queda acentuada após máximos históricos

Depois de uma forte valorização ao longo do último ano, os preços do ouro e da prata registaram uma correção significativa nos últimos dias. Entre 29 de janeiro e 2 de fevereiro, o ouro chegou a cair cerca de 21% desde o pico até ao mínimo do movimento, enquanto a prata recuou aproximadamente 41%.

Segundo a análise assinada por Frederik Fischer, estes movimentos foram parcialmente desencadeados por uma redução da liquidez num contexto de maior volatilidade. Ainda assim, a gestora sublinha que, apesar da dimensão da correção, os preços apenas regressaram aos níveis de meados de janeiro.

Outro fator apontado foi a nomeação de Kevin Warsh por parte do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para liderar a Federal Reserve. Warsh é visto como uma escolha mais ortodoxa, o que terá reduzido as expectativas de cortes agressivos nas taxas de juro — um cenário que poderia alimentar pressões inflacionistas, tradicionalmente favoráveis ao ouro. Em momentos de anúncios desta natureza, é habitual que alguns investidores encerrem posições de cobertura, como as em ouro.

A subida das exigências de margem por parte da CME Group, maior operadora mundial de bolsas de derivados, também contribuiu para o movimento, ao tornar menos atrativa a manutenção de posições especulativas e ao forçar potenciais vendas por parte de investidores com menor liquidez.

Fundamentos mantêm-se sólidos

Apesar da correção, a AllianzGI considera que os principais motores estruturais de médio prazo permanecem intactos. No caso do ouro, a valorização superior a 70% no último ano foi sustentada por fatores como o aumento das reservas por parte dos bancos centrais, preocupações orçamentais e tendências de desdolarização. A estes somaram-se variáveis mais tradicionais, como a fraqueza do dólar norte-americano, a descida das yields reais e o reforço da procura por parte de investidores de retalho.

Já a prata registou uma subida ainda mais expressiva, com uma valorização superior a 60% apenas em janeiro de 2026, impulsionada por alterações estruturais na oferta, forte procura industrial e tensões geopolíticas semelhantes às que beneficiaram o ouro.

Para a gestora, tanto o ouro como a prata estavam em território de “sobrecompra” durante o rali recente, pelo que a inversão dos preços representa um movimento de regresso à média que poderá criar oportunidades para investidores de longo prazo.

Ainda assim, a AllianzGI alerta que os investidores deverão preparar-se para níveis mais elevados de volatilidade. Embora os bancos centrais adotem estratégias de compra e manutenção de reservas, a procura por parte de investidores — mais dinâmica e sensível às condições de mercado — tem vindo a ganhar peso desde 2025, o que tende a acentuar as oscilações.

Aposta nas mineiras

No que respeita a formas de exposição ao setor, a AllianzGI mantém preferência por ações de empresas mineiras de ouro e prata. A gestora considera que estas oferecem maior alavancagem face à evolução dos preços dos metais e continuam a apresentar avaliações atrativas face às médias históricas.

Além disso, a melhoria dos fluxos de caixa permitiu aos produtores reforçar a remuneração aos acionistas, através de dividendos e programas de recompra de ações. Depois de ter aumentado a ponderação em mineiras na segunda metade de 2025, a AllianzGI mantém a aposta no setor, argumentando que o mercado ainda poderá estar a subestimar a melhoria das margens, apesar do desempenho recente robusto.

 

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