Portugal entra em 2026 com um clima de otimismo cauteloso na área da Defesa, impulsionado pelo maior investimento único de sempre nas Forças Armadas: 5,8 mil milhões de euros destinados à modernização do sistema de forças através do programa europeu SAFE. O financiamento permitirá a aquisição de equipamentos estruturantes escolhidos tecnicamente pelo Exército, Marinha e Força Aérea, ao mesmo tempo que envolve a indústria nacional e surge num contexto em que os efetivos começam finalmente a inverter a tendência de queda registada nos últimos anos.
Segundo o Diário de Notícias, o ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, sublinha que 2026 confirmará as pessoas como a principal prioridade do seu mandato, com um novo aumento do Suplemento da Condição Militar, a melhoria do quadro remuneratório de oficiais, sargentos e praças e a gratuitidade total dos medicamentos para os Antigos Combatentes. Paralelamente, serão assinados os contratos do maior programa de investimento conjugado em democracia, abrangendo os domínios do Espaço, Terra, Mar e Ar, incluindo fragatas, veículos blindados, satélites, defesa antiaérea, munições, radares e drones.
O Governo destaca ainda o impacto económico do esforço de modernização, com contratos orientados para ciclos de vida completos e forte envolvimento de empresas portuguesas. O Arsenal do Alfeite receberá o maior investimento dos últimos 50 anos, enquanto estão previstos projetos industriais para produção de veículos blindados, munições e satélites, bem como a eventual instalação, em Beja, de uma unidade capaz de produzir aviões militares “de A a Z”, criando centenas de empregos qualificados no interior do país.
Para o chefe do Estado-Maior do Exército, general Eduardo Mendes Ferrão, 2026 será um ano de afirmação da prontidão operacional, baseada na reorganização e modernização da força terrestre, alinhada com os compromissos assumidos no seio da NATO. O Exército aposta numa força tecnológica, flexível e interoperável, sem descurar a dimensão humana, considerada decisiva para garantir coesão, disciplina, bem-estar e capacidade real de combate.
Na Marinha, o almirante Jorge Nobre de Sousa identifica 2026 como um ano-chave para consolidar projetos estruturantes, nomeadamente a adesão aos programas europeus do SAFE, a chegada da plataforma multipropósito D. João II e o reforço das missões internacionais. A valorização da carreira militar, a redução de desigualdades nas pensões e o apoio às famílias surgem como fatores essenciais para responder ao desafio da retenção de efetivos.
Já a Força Aérea, liderada pelo general João Cartaxo Alves, projeta 2026 como um verdadeiro ano de transformação, com a entrada no quinto domínio operacional — o Espaço — através do lançamento dos primeiros satélites. A ambição passa por operar de forma integrada nos domínios terrestre, aéreo, marítimo, cibernético e espacial, reforçando missões como a defesa aérea, a busca e salvamento, o combate aos incêndios e a antecipação de fenómenos naturais.
Do lado político, o deputado do Chega e presidente da Comissão de Defesa Nacional, Pedro Pessanha, considera que o investimento em Defesa é um imperativo nacional perante um contexto internacional marcado pela guerra convencional, ameaças híbridas e proliferação de sistemas não tripulados. Defende a revisão urgente dos documentos estratégicos da Defesa e alerta que o aumento do investimento só será eficaz se acompanhado de capacidade de execução, recursos humanos qualificados e uma indústria nacional mais envolvida.
Para o eurodeputado do PSD Hélder Sousa Silva, o grande desafio entre 2026 e 2030 será transformar orçamento em capacidade operacional, aproveitando os fundos do SAFE e de outros instrumentos europeus. Sublinha a necessidade de concursos rápidos, mas rigorosos, de investimento estável até 2035 e de medidas concretas para tornar as carreiras militares mais atrativas, alertando que sem pessoas os novos meios ficarão inutilizados.
Já o coordenador do PS para a Defesa, Luís Dias, reconhece a oportunidade histórica representada pelo SAFE, mas levanta sérias preocupações quanto à transparência do Governo na definição da estratégia e na gestão dos fundos. Defende um amplo consenso político e social em torno da Defesa Nacional e alerta que, sem recrutamento e retenção de militares, “de nada servirão os milhares de milhões de euros em equipamentos”, porque a defesa do país continua a depender, em última instância, de homens e mulheres prontos para servir Portugal.














