De Musk a Xu Bo: o estranho mundo dos multimilionários obcecados em ter centenas de filhos

O fenómeno não se limita à China. O pronatalismo está a ganhar força entre figuras de topo da tecnologia global

Francisco Laranjeira
Janeiro 25, 2026
11:30

Xu Bo não quer apenas descendência. Quer poder. O magnata chinês dos videojogos, com uma fortuna estimada em cerca de 3,5 mil milhões de dólares, afirma ter “pouco mais de 100 filhos” nascidos através de barrigas de aluguer na Califórnia — todos rapazes — e não esconde o objetivo final: criar uma elite genética que lhe permita fundar uma dinastia global, relata o ‘ABC’.

Nas redes sociais, Xu apresenta-se como “o primeiro pai da China” e explica a lógica sem rodeios. Quer “50 filhos de alta qualidade”, selecioná-los, educá-los e, no futuro, ligá-los por casamento às filhas de Elon Musk. Para Xu, a paternidade em massa é uma estratégia de influência. “Mais filhos significam mais possibilidades de poder”, resume.

Crianças que herdam um império… sem conhecer o pai

O plano não é apenas teórico. Em 2023, Xu pediu a um tribunal de Los Angeles direitos parentais sobre quatro bebés que ainda nem tinham nascido, numa altura em que já aguardava o nascimento de outros oito. Compareceu em tribunal e explicou que pretendia que os filhos herdassem o seu império empresarial.

Segundo o ‘ABC’, vários desses rapazes já viviam com amas na cidade de Irvine, na Califórnia. Xu nunca os tinha conhecido pessoalmente. O juiz acabou por rejeitar o pedido.

A versão oficial da empresa do magnata aponta para “um pouco mais de 100 filhos”. A ex-namorada, Tang Jing, vai mais longe e garante que são cerca de 300.

Um caso extremo… mas não único

A história de Xu Bo pode parecer um delírio isolado, mas está longe disso. O ‘ABC’ descreve um fenómeno crescente entre bilionários chineses e elites tecnológicas globais, que veem a reprodução como um projeto estratégico.

Outro exemplo é Wang Huiwu, executivo do setor da educação, que recorreu a modelos americanas como doadoras de óvulos para ter dez filhas, todas com um objetivo claro: casá-las com homens poderosos, numa lógica que lembra alianças dinásticas da Idade Média.

Clínicas, mediadores e o “efeito Elon Musk”

No centro desta engrenagem está Nathan Zhang, empresário que gere várias clínicas de fertilidade nos Estados Unidos e no México. Durante anos, enquanto a China mantinha a política do filho único, muitos clientes chineses recorriam à barriga de aluguer no estrangeiro para terem dois ou três filhos. Hoje, o cenário mudou.

“Agora querem exércitos”, explica Zhang. A inspiração tem nome próprio: Elon Musk. O fundador da Tesla, conhecido pela sua retórica pró-natalidade e por alertar para o “colapso da civilização”, tornou-se um modelo a seguir para esta nova geração de super-ricos.

O pronatalismo das elites tecnológicas

O fenómeno não se limita à China. O pronatalismo está a ganhar força entre figuras de topo da tecnologia global. Pavel Durov, fundador do Telegram e avaliado em cerca de 14 mil milhões de dólares, afirma ter gerado mais de 100 filhos através da doação de esperma.

Em junho, Durov anunciou que deixará a sua fortuna repartida de forma igual por todos. O seu esperma continua disponível gratuitamente numa clínica de fertilização em Moscovo, promovido como material genético de “alta procura”.

Entre projetos de poder, culto da herança genética e ambições dinásticas, estas histórias revelam um lado pouco discutido das elites globais: a ideia de que o futuro se constrói não apenas com tecnologia ou capital, mas também com descendência em escala industrial.

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