De Gaza à Ucrânia: Diplomacia de Trump ‘esbarra’ contra os limites da realidade

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que há meses se apresentava como o mediador capaz de pôr fim a vários conflitos internacionais, enfrenta agora uma dura prova de realidade. Depois de ter conseguido um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas — amplamente elogiado em Jerusalém e no Egito —, o líder norte-americano viu o seu plano para travar a guerra na Ucrânia ser frustrado por novas ofensivas russas e pela recusa do Kremlin em aceitar concessões, segundo o jornal El Confidencial.

Pedro Gonçalves
Outubro 23, 2025
10:16

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que há meses se apresentava como o mediador capaz de pôr fim a vários conflitos internacionais, enfrenta agora uma dura prova de realidade. Depois de ter conseguido um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas — amplamente elogiado em Jerusalém e no Egito —, o líder norte-americano viu o seu plano para travar a guerra na Ucrânia ser frustrado por novas ofensivas russas e pela recusa do Kremlin em aceitar concessões, segundo o jornal El Confidencial.

Trump tinha assumido durante a campanha eleitoral que conseguiria terminar a guerra entre a Rússia e a Ucrânia “em 24 horas”. No entanto, três anos e meio após o início do conflito, a promessa revelou-se impossível de cumprir. Ainda em setembro, o presidente norte-americano terá dito ao seu enviado especial, Steve Witkoff, que “era preciso conseguir o acordo com a Rússia”. A estratégia de Washington passou por apoiar bombardeamentos ucranianos contra refinarias e infraestruturas energéticas russas, com o objetivo de enfraquecer a principal fonte de receitas de Moscovo e forçar Vladimir Putin a negociar.

Por um breve momento, essa abordagem pareceu surtir efeito. Putin telefonou a Trump e ambos chegaram a discutir uma cimeira em Budapeste, levando o presidente norte-americano a suspender o envio de mísseis Tomahawk para Kiev. No entanto, a iniciativa colapsou poucos dias depois, quando uma conversa entre o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, revelou a intransigência de Moscovo. A Rússia insiste que a paz só será possível se forem abordadas as “causas de raiz do conflito”, exigências consideradas inaceitáveis por Kiev, que teme ficar indefesa perante futuras agressões.

Enquanto isso, o acordo de Gaza começou também a dar sinais de fragilidade. Esta semana, o Hamas atacou soldados israelitas, levando Israel a retaliar com novos bombardeamentos sobre a Faixa e a restringir novamente a ajuda humanitária.

O vice-presidente JD Vance viajou a Israel para reafirmar o compromisso norte-americano com o governo de Benjamin Netanyahu, mas admitiu que o futuro do cessar-fogo “é incerto e depende da contenção de ambas as partes”. Fontes diplomáticas em Washington citadas pelo El Confidencial reconhecem que, apesar do esforço inicial, o acordo mediado por Trump enfrenta riscos crescentes, já que o Hamas acusa Israel de violar repetidamente os termos e Telavive insiste que o grupo “não pode manter um braço armado” enquanto as negociações prosseguem.

Segundo o mesmo jornal, Trump enfrenta agora um dilema político: manter o apoio militar a Israel e à Ucrânia, o que agrava tensões com Moscovo e Teerão, ou tentar salvar os dois acordos de paz que vinham sendo apresentados como vitórias da sua diplomacia. Analistas em Washington alertam que o colapso de qualquer uma dessas frentes poderá minar a imagem internacional do presidente norte-americano, que construiu parte do seu mandato em torno da ideia de ser o único capaz de “restaurar a ordem mundial”.

Ao mesmo tempo, a administração Trump enfrenta pressões internas crescentes. Nos Estados Unidos, o Congresso tem manifestado divisões quanto ao financiamento da guerra na Ucrânia, enquanto parte da ala republicana defende uma política externa menos intervencionista. “Trump está encurralado entre o pragmatismo geopolítico e as promessas eleitorais”, comentou um antigo diplomata citado pelo jornal espanhol, sublinhando que “a paz em Gaza e na Ucrânia exigirá algo mais do que slogans de campanha”.

Com o conflito ucraniano a prolongar-se e o cessar-fogo em Gaza novamente em risco, a Casa Branca tenta recuperar o controlo da narrativa internacional. Fontes próximas do Departamento de Estado garantem que Washington continua a manter canais de comunicação abertos tanto com Kiev como com Moscovo, e que novos esforços diplomáticos podem ser lançados “nas próximas semanas”. Ainda assim, a perceção de que Trump perdeu margem de manobra é cada vez mais evidente.

Se há poucos meses a presidência norte-americana celebrava o fim dos combates em Gaza como um “triunfo da liderança de Trump”, hoje o cenário é substancialmente diferente. As tensões regionais, a resistência russa e a divisão entre aliados da NATO criam um contexto em que os limites da diplomacia presidencial são postos à prova. A promessa de “paz através da força”, um dos lemas mais repetidos pelo presidente, parece agora confrontar-se com a realidade de dois conflitos que, longe de terminarem, continuam a desafiar qualquer solução rápida.

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