Da Venezuela à Gronelândia: Cresce rebelião republicana contra Trump

O Senado dos Estados Unidos aprovou esta quinta-feira uma resolução destinada a limitar a capacidade do Presidente Donald Trump de lançar novas ações militares na Venezuela sem autorização expressa do Congresso, num gesto politicamente raro que expôs divisões internas profundas no Partido Republicano.

Pedro Gonçalves
Janeiro 8, 2026
17:57

O Senado dos Estados Unidos aprovou esta quinta-feira uma resolução destinada a limitar a capacidade do Presidente Donald Trump de lançar novas ações militares na Venezuela sem autorização expressa do Congresso, num gesto politicamente raro que expôs divisões internas profundas no Partido Republicano. A iniciativa passou por uma margem curta, com 52 votos a favor e 47 contra, reunindo o apoio unânime dos democratas e de cinco senadores republicanos, numa tentativa clara de reafirmar o papel constitucional do Congresso na autorização do uso da força militar.

A votação ocorreu poucos dias depois da operação que resultou na captura de Nicolás Maduro e no seu transporte para território norte-americano, uma ação inicialmente celebrada por grande parte dos republicanos. No entanto, o debate subsequente revelou um desconforto crescente no Capitólio face à possibilidade de a Casa Branca avançar para uma intervenção militar prolongada na Venezuela sem mandato explícito do poder legislativo, reabrindo o debate sobre os limites do poder presidencial em matéria de política externa e defesa.

Este movimento de contenção do poder executivo surge num contexto mais vasto de contestação interna à estratégia internacional de Trump, que também se tem manifestado de forma cada vez mais vocal relativamente às declarações e ameaças do Presidente sobre a Gronelândia. A proposta de assumir o controlo do território autónomo dinamarquês — pela via da compra ou, em último recurso, pela força — tem gerado oposição não apenas entre aliados europeus, mas também dentro do próprio Partido Republicano, algo considerado altamente invulgar em Washington.

Entre as críticas mais contundentes esteve a do congressista republicano Don Bacon, que classificou a ideia como “chocante”. “Isto é revoltante. A Gronelândia é aliada da NATO. A Dinamarca é um dos nossos melhores amigos… a forma como os estamos a tratar é profundamente desrespeitosa e não traz qualquer benefício”, afirmou numa entrevista televisiva. Bacon apelou ainda a que outros republicanos se juntassem à contestação, considerando a retórica da Casa Branca “uma das coisas mais absurdas” produzidas no último ano.

No Senado, o líder da maioria republicana, John Thune, rejeitou liminarmente a hipótese de recorrer às forças armadas para tomar a ilha do Ártico, sublinhando que essa possibilidade “não é algo que alguém esteja a considerar seriamente”. As suas declarações surgiram após o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, ter questionado publicamente o direito da Dinamarca à soberania sobre a Gronelândia, perguntando: “Que direito tem a Dinamarca de afirmar controlo sobre a Gronelândia? Qual é a base da sua reivindicação territorial?”

As declarações de Miller provocaram uma reação particularmente dura do senador republicano Thom Tillis, membro sénior do grupo de observação da NATO no Senado, que não poupou palavras no plenário. “Estou farto de estupidez. Quero bons conselhos para este Presidente, porque quero que ele tenha um bom legado. Este disparate sobre a Gronelândia é uma distração do bom trabalho que está a fazer, e os amadores que disseram que isto era uma boa ideia deviam perder os seus cargos”, afirmou. Mais tarde, Tillis foi ainda mais direto na televisão, defendendo que “ou Stephen Miller passa a falar apenas do que sabe ou deve sair do cargo”.

A senadora Lisa Murkowski, que copreside ao Caucus Ártico do Senado, também se juntou às críticas, afirmando que “odeia” a ideia de os Estados Unidos tomarem a Gronelândia por compra ou pela força. “Acho isto profundamente perturbador”, disse aos jornalistas, acrescentando posteriormente que “qualquer tentativa de reclamar ou tomar território pela força degradaria a nossa segurança nacional e as nossas relações internacionais”.

O antigo líder republicano no Senado, Mitch McConnell, alertou igualmente para os riscos estratégicos da retórica presidencial, considerando que ameaçar um aliado da NATO seria “tão impróprio quanto contraproducente”. Num comunicado, sublinhou que “o uso da força para tomar o território soberano e democrático de um dos aliados mais leais e capazes da América seria um ato catastrófico de autossabotagem estratégica, com efeitos devastadores na influência global dos Estados Unidos”.

Estas divisões refletem um desconforto crescente entre republicanos no Congresso relativamente ao que consideram um excesso de aventureirismo militar por parte da Casa Branca. Embora muitos tenham apoiado operações recentes no Iémen, Irão e Venezuela, cresce a convicção de que ameaçar diretamente um aliado da NATO ultrapassa uma linha vermelha, sobretudo a menos de um ano das eleições intercalares.

Com uma votação no Senado preparada pelos democratas para impedir qualquer invasão da Gronelândia, vários republicanos admitem que o tema não é politicamente rentável. Desde que Trump descreveu o território, em 2019, como “um grande negócio imobiliário”, as sondagens indicam que a maioria dos americanos considera a ideia irrelevante ou má, vendo-a como irrealista e uma distração face a problemas internos.

Além disso, muitos legisladores rejeitam o argumento da necessidade estratégica, lembrando que um acordo entre os Estados Unidos e a Dinamarca, assinado em 1951, já permite a Washington “construir, instalar, manter e operar” bases militares em toda a Gronelândia. Para críticos democratas como a estratega Julie Roginsky, a motivação de Trump é sobretudo simbólica: “Ele quer que os Estados Unidos pareçam maiores no mapa. Juntos, os EUA e a Gronelândia teriam uma área superior à da Rússia. Para Trump, que vive de perceções e imagem, isso conta”.

Perante este cenário, cresce no Capitólio a perceção de que, tanto na Venezuela como na Gronelândia, o Congresso está disposto a travar o Presidente e a impor limites claros à sua margem de manobra militar, num momento em que as tensões internas no Partido Republicano se tornam cada vez mais visíveis.

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