Compensa ser luso-americano e falar português nos EUA: salários são 20% acima da média, revela estudo

Um estudo da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) revelou que os luso-americanos que mantêm o uso do português nos Estados Unidos ganham, em média, quase 20% mais do que os restantes residentes com perfis semelhantes. O relatório, intitulado An American Dream in Portuguese: Second Generation and Beyond, baseia-se em dados recolhidos entre 2018 e 2022 e mostra que o domínio da língua portuguesa se traduz numa clara vantagem económica e social.

Pedro Gonçalves
Novembro 10, 2025
12:40

Um estudo da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) revelou que os luso-americanos que mantêm o uso do português nos Estados Unidos ganham, em média, quase 20% mais do que os restantes residentes com perfis semelhantes. O relatório, intitulado An American Dream in Portuguese: Second Generation and Beyond, baseia-se em dados recolhidos entre 2018 e 2022 e mostra que o domínio da língua portuguesa se traduz numa clara vantagem económica e social.

De acordo com o estudo, os luso-americanos falantes de português têm um salário anual mediano de 58.923 dólares, superando os 54.046 dólares dos que já não utilizam o idioma e os 46.762 dólares da média nacional. Entre a população em idade ativa, a diferença torna-se ainda mais acentuada: 20,3% de rendimento adicional para os falantes, face a 12,3% para os não falantes.

Os autores do estudo, as investigadoras Alda Botelho Azevedo e Lara Patrício Tavares, sublinham que “a língua portuguesa continua a ser uma âncora vital para a pertença cultural e a coesão comunitária”, mesmo entre as gerações que já nasceram e cresceram nos Estados Unidos. “Os luso-americanos estão amplamente integrados na sociedade dos EUA e são ativos em diversos campos profissionais”, referem, acrescentando que esta integração não significa afastamento de Portugal, mas sim uma “reapropriação simbólica” da identidade através da língua.

A comunidade luso-americana é numerosa e diversificada, mas apenas 13,7% dos descendentes nascidos nos EUA com mais de cinco anos continuam a falar português. Apesar de minoria, este grupo distingue-se por ser mais jovem, mais ativo no mercado de trabalho e com melhores rendimentos médios.

Mesmo entre os que não possuem ensino superior, a origem portuguesa e o domínio da língua são fatores que se traduzem em melhores salários. Já entre os diplomados, o impacto do português é menor, sendo o tipo de trabalho — nomeadamente funções não rotineiras e especializadas — o fator mais determinante na remuneração.

A participação das mulheres no mercado de trabalho é também apontada como uma das razões para o dinamismo económico da comunidade. Segundo o relatório, a taxa de emprego feminino entre os luso-americanos é mais elevada do que a média nacional, contribuindo significativamente para o rendimento agregado dos agregados familiares.

A distribuição geográfica dos luso-americanos mantém fortes ligações às zonas tradicionais da imigração portuguesa. A Nova Inglaterra continua a concentrar o maior núcleo, com 311 mil residentes de origem portuguesa (16% falantes), seguida pela Califórnia, com 278 mil (8% falantes). Já Nova Iorque e Nova Jérsia registam a maior proporção de quem mantém o português — 34%.

A análise regional revela também que, em estados como Nova Iorque, o domínio da língua portuguesa está associado a maior qualificação profissional e a salários mais elevados, um caso que o estudo descreve como “seleção positiva”. No Havai, porém, o padrão inverte-se, com os falantes a receberem menos do que os não falantes.

Em termos profissionais, os falantes de português diplomados estão mais representados nas áreas da saúde, apoio social e construção, enquanto os não falantes se destacam na administração pública, onde têm uma presença superior à média dos restantes residentes norte-americanos.

No total, entre 2018 e 2022, havia 1.138.117 luso-americanos nascidos nos Estados Unidos com mais de cinco anos, dos quais 156.358 falavam português. O número total de falantes cresceu 16% face ao período anterior, enquanto o de não falantes registou uma queda de 1%, o que, segundo os investigadores, demonstra um processo de renovação geracional.

Os luso-americanos que preservam o idioma são, em média, mais jovens — 39 anos entre os homens e 42 entre as mulheres — em comparação com 43 e 44 anos, respetivamente, entre os não falantes. “Este regresso à língua não resulta apenas da transmissão entre gerações, mas também de uma reapropriação simbólica”, explicam as autoras. Falar português é hoje, sublinham, “uma escolha identitária num contexto multicultural”, que pode “aumentar as oportunidades de emprego” e até “facilitar o acesso à cidadania portuguesa através da ascendência”.

O estudo conclui que o chamado “sonho americano em português” representa muito mais do que uma vantagem económica. É uma história de transformação cultural e social que reflete a capacidade da comunidade portuguesa nos Estados Unidos de “renegociar o seu lugar num país que tanto permite como absorve a diversidade étnica”.

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