A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) intensificou os esforços públicos para recrutar informadores na China, divulgando um novo vídeo em língua chinesa dirigido especificamente a oficiais do Exército de Libertação Popular (PLA) que possam estar desiludidos com a corrupção interna e com as sucessivas purgas nas chefias militares promovidas por Pequim.
O vídeo, intitulado “Save the Future” (“Salvar o futuro”), foi publicado esta quinta-feira no YouTube e noutras redes sociais, integrando uma estratégia mais ampla para reconstruir a rede de espionagem norte-americana no país asiático, fortemente afetada há cerca de 15 anos, quando dezenas de colaboradores da CIA foram presos ou executados pelas autoridades chinesas.
A peça audiovisual apresenta a narrativa de um oficial militar intermédio fictício, descrito como desanimado com a liderança do Partido Comunista Chinês. Ao longo do vídeo, o narrador critica duramente as chefias políticas e militares, afirmando que “a única coisa que os líderes do nosso partido estão interessados em defender são os próprios bolsos”.
O mesmo personagem acrescenta que “construíram as suas carreiras sobre uma base de mentiras” e que “essas paredes estão lentamente a desmoronar-se, e nós ficamos para limpar a confusão”. Segundo o guião, qualquer militar competente é visto como ameaça: “qualquer homem qualificado para nos liderar é considerado uma ameaça e afastado sem cerimónia”.
Num dos momentos centrais, o oficial justifica a decisão de agir para proteger a família, declarando que “não podia deixar que a loucura deles fizesse parte do futuro da minha filha”.
De acordo com a CIA, a mensagem destina-se a militares que se sintam impotentes perante o clima de suspeição interna e receiem consequências pessoais ou familiares.
Diretor da CIA promete continuar a recrutar cidadãos chineses
O diretor da agência, John Ratcliffe, sublinhou que a campanha anterior, lançada em mandarim, já tinha tido grande alcance. Segundo afirmou, “no ano passado, a campanha de vídeos em mandarim da CIA chegou a muitos cidadãos chineses, e sabemos que há muitos mais à procura de uma forma de melhorar as suas vidas e mudar o seu país para melhor”. Ratcliffe acrescentou que a agência vai “continuar a oferecer a funcionários do governo chinês e a cidadãos a oportunidade de trabalhar em conjunto por um futuro mais brilhante”.
Um responsável da CIA indicou ainda que os vídeos anteriores “inspiraram milhões” e contribuíram efetivamente para o recrutamento de espiões, garantindo que “se não funcionassem, não lançaríamos mais”.
Publicação surge após novas purgas no topo do Exército chinês
O lançamento do vídeo ocorre duas semanas depois de a China ter anunciado a destituição do general Zhang Youxia, o mais alto oficial fardado e número dois de Xi Jinping na Comissão Militar Central, bem como do general Liu Zhenli, também membro de topo do mesmo órgão.
A remoção de Zhang, que se seguiu a dezenas de afastamentos de generais do PLA nos últimos anos, é descrita como a purga mais grave na cúpula militar chinesa desde a era de Mao Tsé-tung.
A agência norte-americana não estabeleceu uma ligação direta entre estas decisões políticas e a divulgação do vídeo, mas um funcionário comentou de forma enigmática: “A questão a colocar é se a arte imita a vida ou se a vida imita a arte”.
Milhões de visualizações apesar da censura chinesa
Esta não é a primeira ofensiva pública da CIA nas redes sociais. Em maio do ano passado, a agência publicou dois vídeos dirigidos a membros do Partido Comunista Chinês, incluindo instruções sobre como estabelecer contacto seguro com os serviços de inteligência norte-americanos. Essas produções registaram entre 15 e 20 milhões de visualizações no YouTube.
Em janeiro, foi divulgado um terceiro vídeo com informações atualizadas de contacto, que já ultrapassou 62 milhões de visualizações.
Embora a China bloqueie o acesso ao YouTube e a outras plataformas ocidentais, os utilizadores conseguem contornar as restrições através de ferramentas como VPN (redes privadas virtuais), o que permite assistir aos conteúdos.
O novo vídeo será também distribuído nas redes X, Facebook, Instagram e LinkedIn.
Tentativa de reconstruir rede de espionagem perdida
A campanha integra um esforço mais vasto para recuperar a capacidade de recolha de informações humanas na China, depois de, há cerca de 15 anos, o Ministério da Segurança do Estado chinês ter desmantelado a rede da CIA. Na altura, as autoridades descobriram o sistema secreto de comunicações usado pela agência, identificando dezenas de fontes, que acabaram presas ou executadas.
Desde então, Pequim tem reforçado as medidas de contra-espionagem. Há dois anos, o próprio ministério lançou uma campanha pública a incentivar os cidadãos a denunciarem atividades suspeitas para detetar agentes estrangeiros.
Com esta nova investida mediática, Washington procura explorar fissuras internas nas Forças Armadas chinesas e transformar o descontentamento em oportunidades de recrutamento.





