Chipre reduz consumo de água em 10% por dia perante pior seca de sempre

As autoridades de Chipre lançaram um apelo inédito à população para reduzir o consumo doméstico de água em 10%, o equivalente a menos dois minutos diários de utilização de água corrente, numa tentativa de travar os efeitos da pior seca registada no país desde que há medições hidrológicas, iniciadas em 1901.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 16, 2026
15:09

As autoridades de Chipre lançaram um apelo inédito à população para reduzir o consumo doméstico de água em 10%, o equivalente a menos dois minutos diários de utilização de água corrente, numa tentativa de travar os efeitos da pior seca registada no país desde que há medições hidrológicas, iniciadas em 1901.

O anúncio surge num momento particularmente sensível: os reservatórios da ilha atingiram níveis historicamente baixos antes mesmo do arranque da época turística, período em que a procura de água dispara. O Governo apresentou em simultâneo um pacote de medidas de emergência no valor de 31 milhões de euros, o sexto desde o início da crise hídrica.

Os números revelam a dimensão da escassez. Em fevereiro, as reservas de água situavam-se nos 13,7% da capacidade total de armazenamento, comparando com 26% no mesmo período do ano passado — valor que, à data, já era considerado alarmante pelas autoridades.

Particularmente simbólica da crise é a situação no reservatório de Kouris, o maior da rede nacional composta por 110 barragens. Ali, os níveis de água desceram para apenas 12,2% da capacidade. A descida foi tão acentuada que a igreja de São Nicolau, normalmente submersa quando a barragem está cheia, voltou a ser visível, rodeada por terrenos áridos e vegetação ressequida.

Enquanto outras regiões da Europa foram atingidas por chuvas intensas este inverno, vastas áreas de Chipre permanecem secas. Florestas outrora exuberantes encontram-se desidratadas e em rápido declínio.

“Cada gota conta”, alerta responsável governamental
“Eliana Tofa Christidou, diretora do Departamento de Desenvolvimento de Recursos Hídricos, foi clara quanto à urgência da situação: “Todos têm de reduzir o consumo. Seja no duche, ao lavar os dentes ou ao utilizar a máquina de lavar. Os tempos são críticos e cada gota conta.”

Em declarações, classificou a atual crise como “a pior seca na memória viva”, sublinhando que as afluências às barragens estão nos níveis mais baixos desde 1901.

Segundo a responsável, será lançada ainda este mês uma campanha nacional de sensibilização com orientações práticas para limitar o consumo doméstico. O objetivo é aproximar o consumo médio por pessoa dos 140 litros diários.

Atualmente, a média europeia ronda os 120 litros por habitante/dia. Contudo, em certas zonas de Chipre — onde as temperaturas são significativamente mais elevadas — o consumo atinge os 500 litros diários por pessoa.

Aumento da procura e alterações climáticas agravam crise
A situação é agravada por fatores estruturais. Desde 1901, a precipitação anual diminuiu cerca de 15%, enquanto as necessidades hídricas aumentaram 300%, impulsionadas pelo crescimento populacional e pelo turismo.

Todos os anos, cerca de três milhões de turistas visitam a parte sul internacionalmente reconhecida da ilha — número quase três vezes superior à população residente.

De acordo com a Mediterranean Growth Initiative, plataforma de análise de dados, as temperaturas na região do Mediterrâneo estão a aumentar 20% mais rapidamente do que a média global no contexto da crise climática. “Este aquecimento acelerado está a exercer uma pressão severa sobre os recursos de água doce, que estão a secar rapidamente”, alerta a organização.

Dessalinização e reutilização como resposta governamental
O Governo cipriota elevou a escassez de água a prioridade durante a sua presidência do Conselho da União Europeia e afetou 200 milhões de euros à modernização de infraestruturas hídricas.

Entre as medidas em curso destaca-se a instalação acelerada de centrais de dessalinização para garantir o abastecimento de água potável. Duas unidades móveis foram doadas no ano passado pelos Emirados Árabes Unidos.

“O plano é ter 14 unidades operacionais, a maioria até ao final de 2026”, explicou Tofa, acrescentando que duas foram instaladas em poucos meses, funcionando 24 horas por dia.

Outras iniciativas incluem a reutilização de águas residuais tratadas, a reparação de fugas — que afetam até 40% das redes locais — e apoio financeiro às famílias para aquisição de equipamentos domésticos de poupança de água.

Críticas políticas e ambientais
Apesar das medidas, crescem as críticas quanto à gestão de longo prazo.

Charalampos Theopemptou, deputado do partido Movimento dos Ecologistas – Cooperação Cidadã e presidente da comissão parlamentar do ambiente, defende que a crise poderia ter sido mitigada com decisões atempadas. “As medidas certas não foram tomadas no momento certo”, afirmou.

Recordando previsões científicas feitas há duas décadas — que apontavam para temperaturas em Nicósia comparáveis às do Cairo até 2030 e às do Bahrain até 2045 — o parlamentar sublinhou: “Todos sabíamos o que estava a caminho.”

Theopemptou alertou ainda para os riscos ambientais e energéticos associados à dessalinização: “São instalações dispendiosas, exigem muita energia e podem representar um perigo para a vida marinha se a salmoura devolvida ao mar não for devidamente dispersa.” Criticou igualmente a manutenção de relvados em espaços públicos e a proliferação de piscinas e campos de golfe.

Entre os setores mais afetados estão os agricultores, obrigados a reduzir a irrigação em 30%. A medida está a gerar forte tensão social.

“Os agricultores estão desesperados”, afirmou Lambros Achilleos, dirigente sindical. “Há muita ansiedade e depressão, com muitos a serem aconselhados a mudar para culturas menos intensivas em água. Como se diz isso a agricultores na casa dos 50 ou 60 anos, com famílias para sustentar?”

Achilleos antevê “um grande problema na sociedade”, responsabilizando sucessivos governos por não terem adotado medidas preventivas que poderiam ter protegido o ambiente e evitado a situação atual.

Fadi Comair, professor de hidrologia aplicada e gestão de recursos hídricos no Cyprus Institute, em Nicósia, alerta para a necessidade de ação imediata face a cenários climáticos extremos.

Segundo a investigação e modelação realizadas pela instituição, no pior cenário a temperatura média poderá aumentar 4,5 graus Celsius até 2100 — significativamente acima dos 1,5 ou 2 graus previstos nos objetivos internacionais.

“Teremos um colapso da agricultura, a seca levará à deslocação em massa de populações e não conseguiremos garantir a segurança alimentar”, advertiu.

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